quarta-feira, 30 de abril de 2014

Eric Voegelin e o Gnosticismo Revisitados



Quem conhece a obra do filósofo Eric Voegelin sabe que um dos seus insights mais interessantes (expresso sobretudo em A Nova Ciência da Política e Ciência, Política e Gnosticismo: Dois Ensaios) foi a análise de fenômenos políticos e ideológicos de massa do século XX – notadamente o nacional-socialismo e o comunismo – com referência ao Gnosticismo, nome que designa um sem-número de heresias cristãs dos primeiros séculos de nossa era. Naqueles dois livros, o autor chegou a cunhar o termo “Gnosticismo moderno” para se referir àqueles fenômenos.
Em si mesmo, o termo Gnosticismo nunca deixou de gerar polêmica entre especialistas. Argumenta-se, não sem razão, que a palavra não era utilizada antes do século XVII, e que, portanto, a sua aplicação irrestrita a fenômenos muito antigos seria um tanto quanto extemporânea, para não dizer artificial. Além disso, e de maneira complementar, critica-se o uso abusivo do termo, que, empregado das maneiras as mais elásticas, só teria gerado confusão quanto ao seu sentido preciso. O estudioso de religião comparada Michael Allen Williams, numa obra em que propõe nada menos que o abandono do termo, cita os comentários sarcásticos do historiador romeno Ioan Culianu, especialista em religiões antigas:
“Acreditei outrora que o Gnosticismo fosse um fenômeno bem definido, pertencente à história religiosa da Antiguidade (...) No entanto, logo eu descobriria estar sendo, de fato, ingênuo (...) De intérpretes autorizados da gnose, eu soube mais tarde que a ciência é gnóstica, assim como a superstição; o poder, o contra-poder e a ausência de poder são gnósticos; a esquerda é gnóstica e a direita é gnóstica. Hegel é gnóstico, tal qual Marx. Freud é gnóstico, e também Jung. Todas as coisas e os seus contrários são igualmente gnósticos.” [1]
Foi por essas e outras que, desde o início, a associação proposta por Voegelin entre fenômenos tão distantes no tempo, além de aparentemente tão díspares, suscitou e continua suscitando controvérsias. Um grande número de intelectuais não conseguiu ver qualquer conexão evidente entre uma série de antigas especulações teológicas e místicas – mal acomodadas sob o rótulo Gnosticismo – e um mundo moderno progressivamente secularizado. Sob esse ponto de vista, a tese voegeliana aparecia como arbitrária e forçada. Alguns críticos mais afoitos, como, por exemplo, o teólogo Thomas J. J. Altizer, não hesitaram em afirmar grosseiramente que “o professor Voegelin acha que tudo é gnóstico”[2].
Uma crítica menos grosseira e mais interessante à interpretação voegeliniana foi avançada pelo filósofo político John Gray, para quem “a política moderna é um capítulo na história da religião”[3], uma afirmação não muito distante da posição do próprio Voegelin.
Ocorre que, para Gray, é o Milenarismo medieval, antes que o Gnosticismo, o pai das modernas religiões políticas de nossa história (entre as quais o autor inclui a Revolução Francesa). O Milenarismo, que, segundo o autor, seria uma decorrência direta da escatologia cristã – tese, por sua vez, com a qual Voegelin dificilmente concordaria –, consiste na projeção de um mundo utópico no qual as imperfeições humanas e os males sociais serão para sempre corrigidos, por intermédio de Deus e do Espírito Santo, mas, sobretudo, através da ação humana. Trata-se da idéia do fim da história e da instauração do reino de Cristo, que, segundo a tradição milenarista, retornaria à Terra e reinaria por mil anos (daí a origem do termo). Tal fenômeno teria recrudescido entre os séculos XI e XVI, quando inúmeros movimentos de massa eclodiram por toda a Europa, baseados, de um modo ou de outro, na idéia de acelerar o Juízo Final[4].
A partir da Reforma, prossegue Gray, o fenômeno intensificou-se, quando líderes radicais e messiânicos como John de Leiden (1509-1536), John Knox (1514-1572) e Thomas Münzer (1490-1525) lideraram grupos de camponeses revoltosos em conflitos sangrentos, no que poder-se-ia considerar uma antecipação do projeto comunista[5].
Para Gray, a escatologia fatalista típica do Milenarismo cristão, que estaria na raiz dos milenarismos políticos modernos, está ausente no Gnosticismo. Os gnósticos, como sugere a análise do autor, não projetavam uma utopia. A salvação que buscavam era de tipo ascética (em certo sentido, epicurista), consistindo na fuga do mundo cruel em que se percebiam aprisionados mediante um conhecimento esotérico acerca de sua verdadeira condição. Em sua crítica a Voegelin, Gray afirma não haver no Gnosticismo nenhuma idéia de acelerar ou instaurar o fim dos tempos. Para o autor, os gnósticos entendiam a salvação como uma aquisição individual (e não coletiva, como no Milenarismo), que envolveria mais uma libertação do mundo ou do tempo do que propriamente o seu fim[6].
Creio que Gray está equivocado nesse ponto. Em primeiro lugar, ele parece desconsiderar que tanto a fuga do mundo quanto a sua eliminação (ou sua transformação, como preferem os milenaristas seculares da modernidade) dependem de uma mesma atitude existencial: a hostilidade diante do mundo ou, na expressão cunhada por Albert Camus em O Homem Revoltado, a “revolta metafísica”. É uma revolta metafísica que está na raiz dos movimentos revolucionários da modernidade, passando pelo Milenarismo medieval. E a experiência de revolta metafísica começa com o anti-cosmismo dos antigos gnósticos, um fenômeno há muito notado, entre outros, por Plotino (ver Enéadas II, 9).
Foi esse anti-cosmismo que Voegelin destacou como o elemento contínuo subjacente à imensa variedade de manifestações gnósticas ao longo da história. Já no tempo dos primeiros Pais da Igreja, as seitas gnósticas eram tidas por “tão numerosas quanto as cabeças da Hidra de Lerna”[7]. Logo, se de um ponto de vista estritamente ideológico e doutrinal seria impraticável discernir qualquer unidade significativa por baixo de tamanha diversidade, o que fez Voegelin foi abordar o fenômeno a partir de um nível mais profundo que o das formulações explícitas, crenças e práticas gnósticas. Ou seja, em vez de uma história das idéias, o filósofo alemão optou por uma fenomenologia do Gnosticismo[8].
Voegelin percebeu muito bem que, se há algo de constante nos movimentos gnósticos dos primeiros séculos de nossa era até os dias de hoje, ele se dá na própria percepção gnóstica da estrutura do real, e não em exegeses ou simbolismos específicos. Estes últimos seriam meras elaborações a posteriori – doutrinas abstratas passíveis de formulação racional – de uma percepção pré-racional da realidade.
            A opinião de Gray segundo a qual “nenhum pensador gnóstico vislumbrava um mundo no qual a vida humana já não seria sujeita ao mal” parece-me igualmente insustentável. O retorno gnóstico ao reino primevo da luz significa precisamente voltar a “um mundo no qual a vida humana já não seria sujeita ao mal” – mal, no caso, identificado à condição de agnoia (ignorância mundana). Tal retorno dar-se-á pela gnose, a mensagem de salvação, que informa ao homem sobre sua condição de prisioneiro neste mundo e sobre os meios de sua libertação[9]. Por outras palavras, embora sinta-se infeliz e angustiado neste mundo, o gnóstico acredita que o seu destino verdadeiro é a felicidade e a plenitude que o aguardam no outro mundo, mundo que ele nunca viu, mas do qual sente-se injustamente expulso. Pouco importa que este outro mundo seja um domínio transcendente e fora do tempo – tal qual o Pleroma do Gnosticismo clássico –, ou um futuro glorioso – como nas modernas filosofias da história.  O que importa é que, para o gnóstico, a infelicidade, mesmo sendo uma condição atual, não é a condição real e essencial do homem. O gnóstico não aceita o mal com naturalidade, ele se escandaliza.
Ora, o escândalo com o mal é precisamente uma das características essenciais da utopia[10]. Entretanto, em outros termos, poder-se-ia dizer que o que escandaliza o gnóstico não é apenas o mal, mas nada menos que a própria realidade. Para o gnóstico, a realidade é apenas um momento de angustiante espera, um local de passagem, que o separa de sua verdadeira natureza divina.
Penso que Gray equivoca-se ao desprezar as dimensões utópica e política do Gnosticismo. Em que pese a afirmação do autor segundo a qual a salvação gnóstica é individual e não coletiva, é evidente que o gnóstico cujo pneuma foi despertado sente-se impelido a passar adiante essa experiência. Logo, há quase que necessariamente uma conseqüência política: ele começa a atrair seguidores que, frustrados com a “primeira realidade” pelos mais variados motivos, e ansiosos por uma “segunda realidade” (sensu Robert Musil), prostram-se como que hipnotizados diante da dominação carismática (sensu Weber) de profetas gnósticos. Foi exatamente o que aconteceu com mestres pneumáticos como Simão de Samaria (Samaria, século I), Valentim (Alexandria, século II), Basílides (Alexandria, século II), entre outros, que atraíram muitos seguidores.
Como explica Hans Jonas no clássico A Religião Gnóstica: “Em sua vida, os pneumáticos, que é como chamam a si próprios os portadores da gnose, estão apartados da grande massa da humanidade. A iluminação imediata não apenas torna o indivíduo soberano na esfera do conhecimento (daí a ilimitada variedade de doutrinas gnósticas) como também determina a esfera da ação[11].
Se a análise de Gray, em certo sentido, despolitiza o Gnosticismo, percebe-se que, na visão de Jonas, ao contrário, a gnose não pode deixar de conduzir à ação de salvação e, portanto, à política.
Destarte, creio que o núcleo do messianismo político moderno, como precisamente sugere Voegelin, encontra-se já no Gnosticismo. Desse ponto de vista, tanto os milenarismos medievais quanto os milenarismos seculares (notadamente o comunismo e o nazismo[12]), são desdobramentos de uma mentalidade gnóstica. Refiro-me a uma “experiência fundamental”, um “modo de sentir”, uma “visão da realidade distintivamente característica da mente gnóstica”[13]. A idéia de mentalidade gnóstica sugere um nível mais profundo de expressão do que a diferenciação doutrinal e circunstancial poderia deixar entrever.
Mais do que um corpo de doutrinas ou símbolos, portanto, o Gnosticismo parece ser uma disposição existencial plena, que inclina o espírito a adotar uma postura sui generis em relação à realidade. O gnóstico é dominado por um verdadeiro horror à existência, que o envolve em perpétua sensação de angústia e incômodo. O mundo atual é, para ele, o domínio do absurdo e da indiferença. O gnóstico está no mundo, mas não se sente pertencendo ao mundo. Sua experiência é de abandono, solidão, impotência, em suma, alienação. “Sou um estranho para a ordem existente das coisas” – dizia o jovem niilista russo Dimitri Pisarev, como que saindo das páginas de Dostoiévski – “não devo misturar-me a elas”.
De tal mentalidade que se escandaliza com o real nasce um sentimento inevitável de auto-permissividade, a tal ponto que escândalo e auto-permissividade formam um mecanismo de retro-alimentação[14]. Baseando-se no clássico Of the Laws of Ecclesiastical Polity, do teólogo Richard Hooker (1554-1600), Eric Voegelin mostra, em A Nova Ciência da Política, como o referido mecanismo esteve presente de modo significativo no movimento puritano inglês durante os séculos XVI e XVII. A obra de Hooker sobre o Puritanismo na Inglaterra consiste num magistral estudo de caso sobre a estrutura da mentalidade gnóstica, em suas inclinações especificamente revolucionárias.
Como sugere Voegelin, é possível especular que, com o movimento puritano, surge pela primeira vez na história uma das armas mais eficazes utilizadas pelos revolucionários gnósticos de ontem e de hoje: a noção de causa política. Para se iniciar qualquer movimento político de tipo revolucionário, é preciso, antes de tudo, a presença imponente de uma “causa” que tudo justifica. Escreve Voegelin:
“De modo a avançar a sua ‘causa’, o homem que a possui irá, diante da multidão, entregar-se a uma crítica severa dos males sociais e, em particular, da conduta das classes altas. A repetição constante da performance induzirá, entre os ouvintes, a opinião de que os falantes devem ser homens de singular integridade, zelo e santidade, pois apenas homens singularmente bons podem se ofender tão profundamente com o mal.”[15]
Para o estudioso brasileiro, o insight de Voegelin deve ser sempre revisitado, sobretudo porque a mentalidade gnóstica está mais viva do que nunca no Brasil de nossos dias. O mecanismo escândalo-auto-permissividade tem criado todo tipo de “causa” – direitos dos animais, direitos das minorias, feminismo, anti-capitalismo, anarquismo, justiça social etc. – como justificativa para a violência revolucionária e a reinvindicação do direito ao crime. As ruas e as redes sociais enchem-se de milhares de jovens teleguiados por uma crença cega na sua própria bondade e senso de justiça[16]; milhares de jovens pneumáticos, formados por líderes políticos e intelectuais que, por sua vez, recusaram-se a amadurecer e a travar um contato direto com a própria consciência; milhares de Raskólnikovs que jamais encontrarão as suas Sônias.






[1] WILLIAMS, Michael A. 1996. Rethinking “Gnosticism”: An Argument for Dismantling a Dubious Category. Princeton (New Jersey): Princeton University Press. p. 4.
[2] Em conversa relatada por John William Corrington em “Order and History: The Breaking of the Program”, Denver Quarterly, nº 3, 1975, p. 122.
[3] GRAY, John. 2007. Black Mass: Apocalyptic Religion and the Death of Utopia. New York: Farrar, Straus and Giroux. p. 1.
[4] Uma obra de referência para a compreensão desse período é The Pursuit of The Millennium, de Norman Cohn.
[5] Fato reconhecido, inclusive, por autores marxistas, como, por exemplo, o filósofo Ernst Bloch, autor de um estudo sobre a teologia revolucionária de Thomas Münzer.
[6] Ver GRAY, John. Op. Cit. p. 68.
[7] LYON, Ireneu de. 2004. Against Heresies (vol. 1). Whitefish (MT): Kessinger Publishing. p. 15.
[8] “A substância da história deve ser buscada ao nível das experiências, não ao nível das idéias.” Ver VOEGELIN, Eric.  1952[1987]. The New Science of Politics: an Introduction. Chicago & London: The University of Chicago Press. p. 125.
[9] Como escreveu o sociólogo italiano Luciano Pellicani: “Gnosticism is the tradition of soteriological thought that first developed in early Christianity and periodically reemerged in the subsoil of Western civilization like an underground stream”. Ver: PELLICANI, Luciano. 2003. Revolutionary Apocalypse: Ideological Roots of Terrorism. London: Praeger. p. 151.
[10] Ver MOLNAR, Thomas. 1967. Utopia, the perennial heresy. New York: Sheed & Ward. p. 5.
[11] JONAS, Hans. 1958[2001]. The Gnostic Religion: the message of the alien God and the beginnings of Christianity (3rd. Edition). Boston: Beacon Press. p. 46.
[12] Segundo Alain Besançon: “Le léninisme, plus clairement encore que le nazisme, obéit au schéma gnostique des deux principes antagonistes et des trois temps. Au temps initial était la commune primitive, au temps futur sera le communisme, et l'aujourd'hui est le temps de la lutte entre les deux principes. Les forces qui font ‘avancer’ sont bonnes, celles qui ‘retardent’, mauvaises. L'idéologie (scientifiquement garantie) désigne le principe mauvais. Ce n'est pas une entité biologique (la race inférieure) mais sociale, qui se tisse à vrai dire dans toute la société: la propriété, le capitalisme, le complexe des mœurs, du droit, de la culture qui s'élève sur ce principe mauvais et que résume l'expression ‘l'esprit du capitalisme’. Les hommes qui ont compris les trois temps et les deux principes, qui connaissent l'essence de l'ordre naturel et historique et qui savent le sens de son évolution et les moyens pour le hâter, se regroupent et forment le parti.” Ver BESANÇON, Alain. 1998. Le Malheur du Siècle. Paris: Fayard. p. 56.
[13] JONAS, Hans. Op. Cit. p. 48.
[14] Para uma boa ilustração de como funcionava tal mecanismo entre os milenaristas medievais, ver COHN, Norman. 1957[1970]. The Pursuit of the Millennium. New York: Oxford University Press. pp. 172-186.
[15] VOEGELIN, Eric. 1952[1987]. The New Science of Politics: An Introduction. Chicago & London: The University of Chicago Press. p. 135.
[16] Como ironiza o filósofo Charles Taylor: We assure ourselves of our integral goodness by aggressive action against evil. I fight pollution, therefore I am pure. Ver: TAYLOR, Charles. 2007. A Secular Age. Cambridge, Massachusetts & London: The Belknap Press of Harvard University Press. p. 769.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O rosto da bondade brasileira

Em No Caminho de Swann, volume 1 de Em Busca do Tempo Perdido, Proust tece as seguintes considerações sobre a bondade:  

"Quando tive mais tarde ocasião de encontrar, no curso da vida, em conventos por exemplo, encarnações verdadeiramente santas da caridade ativa, tinham geralmente um ar alegre, positivo, indiferente e brusco de cirurgião apressado, essa fisionomia em que não se lê nenhuma comiseração, nenhum enternecimento diante da dor humana, nenhum temor de feri-la, e que é a fisionomia sem doçura, a fisionomia antipática e sublime da verdadeira bondade."

Há aí evidentes ecos bíblicos. O trecho faz recordar, por exemplo, a passagem dos Evangelhos em que Jesus Cristo trata da verdadeira caridade, também ela discreta, sem comiseração, sem doçura.

"Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte não tereis galardão junto de vosso Pai Celeste. Quando, pois, deres esmola, não toques trombetas diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua esquerda o que faz a tua direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê em segredo, recompensar-te-á" (Mt, 6: 1-4).

Nada mais distante do que se passa no Brasil de nossos dias. Vivemos uma era da bondade espalhafatosa, da bondade auto-comiserada, narcísica e vaidosa de si. A fisionomia da bondade brasileira hoje é açucarada e enjoativa. Não exibe a ágil e prosaica indiferença descrita por Proust, senão o peso solene de quem vive todo o tempo mirando-se no espelho da aprovação alheia. Temos uma bondade acusatória. Sou bom, logo, tudo me é permitido.

Que se dê uma espiada nas redes sociais e os rostos da bondade artificial estarão todos lá, como máscaras grotescas, afetadas carrancas auto-piedosas destilando o seu senso de justiça e o amor de dois tostões pelos oprimidos do mundo.  Censura-se por bondade, difama-se por bondade, persegue-se, ó sublime glória, por bondade... O rosto da bondade brasileira é pavoroso.

Uma jornalista foi impedida de dar opiniões por pressão dos monopolistas da bondade. Há opiniões certas, e delas não se escapa. São elas: o aborto é um direito humano inalienável das mulheres; a Igreja Católica é nazista; há excesso de democracia na Venezuela; ditaduras de esquerda são essencialmente morais; vítimas de latrocínio são culpadas porque ostentam demais; homens são estupradores em potencial; negros podem discriminar brancos por conta da dívida histórica; policiais militares merecem morrer; empresários são cruéis, e precisamos de leis que nos protejam deles; negros devem ser favoráveis a cotas raciais; o casamento gay é cláusula pétrea, e quem não o aprove é herege e deve queimar.

Todas as opiniões acima, entre outras, foram expressas por personalidades que, no Brasil, se auto-denominam "progressistas" - um termo para pessoas cuja bondade a priori lhes confere um salvo-conduto para fazer qualquer coisa contra os maus, que seriam, pela lógica, os "regressistas" (ou reacionários). O termo "progressista" aplica-se não apenas a pessoas, mas também a uma infinidade de objetos. Assim, a bicicleta é um meio de transporte progressista, opondo-se ao carro, que é regressista. Ciclistas - ou "cicloafetivos", segundo o jargão politicamente correto - são progressistas; motoristas de carros, regressistas. Alimentos também são classificados como progressistas ou regressistas, sendo a salada de broto de bambu com quinoa essencialmente progressista, e a carne vermelha, odiosamente regressista. Maconha é progressista; tabaco, regressista. E assim por diante. Sempre adiante.

Os progressistas reconhecem-se pelo olhar e pelo lirismo em comum. Conquanto, vez ou outra, deixem verter uma lágrima ao som de uma canção do Chico, que os faz lembrar - mesmo os que à época não foram nascidos - os anos de chumbo, eles logo recobram a fortaleza e a postura de eterna indignação contra as injustiças:

"Calem a jornalista reaça! Expulsem os coxinhas das galerias do Congresso.  Amordacem o rotweiller da Veja. Eles não são dos nossos... Os nossos são bons, e trazem a bondade na fisionomia beata do perfil da rede social, na indignação coletiva que inflama os olhares dos ungidos. E que toquem as trombetas diante de nós, e que elas sejam um sinal de pavor para os reacionários em fuga, esmagados e vencidos sob o peso da nossa bondade".

terça-feira, 8 de abril de 2014

Valesca, a Pensadora

Um professor da Universidade de Brasília comenta sobre a inclusão de Valesca Popozuda como "grande pensadora contemporânea" numa prova.


“Não vejo nenhum problema em usar trechos de músicas ou poemas em provas. Por outro lado, eu faria algumas restrições ao chamar a funkeira de grande pensadora, já que esse tipo de título deve ser dado a pessoas que tenham dado alguma contribuição significativa à produção seja musical, teatral ou no campo acadêmico. Chamá-la de grande pensadora parece um exagero.”

Reparem que o professor se sente na obrigação de argumentar racionalmente sobre por que chamar a Valesca Popozuda de "grande pensadora" é um equívoco. Ele mede as palavras, age com muita cautela, pisa em ovos e, por fim, usa o eufemismo "exagero". Note-se: não é uma loucura, um descalabro, uma aberração, um escárnio. Não. É apenas - ou, pior, parece ser  - "um exagero". Só o fato de que se faça necessário explicar por que a referida funkeira não pode ser considerada uma grande pensadora significa que essa possibilidade - a de que ela seja - já entrou no horizonte mental dos brasileiros. No Brasil de hoje, já não é mais imediatamente óbvio ou senso comum que a Valesca Popozuda não seja uma grande pensadora. Quem ousa ver nisso algo de errado terá, a partir de agora, que se explicar.


É claro que - assim como a pesquisa do IPEA - também aqui não se trata de erro, distração ou evento isolado. É mais uma das muitas iniciativas, sistematicamente aplicadas, de um projeto muito bem calculado de rebaixar a cultura e a educação brasileiras. Mais ainda: o objetivo claro dos engenheiros sociais encarregados do projeto é o de destruir quaisquer parâmetros de julgamento e avaliação. Porque, uma vez que a sociedade brasileira já começa a não reconhecer a diferença entre uma Valesca Popozuda e um Gilberto Freire, entre um Naldo e um Villa-Lobos, entre o Lepo Lepo e a Nona Sinfonia de Beethoven, será mais e mais fácil aceitar tipos como Lula e Dilma - dois analfabetos ignorantes - na presidência do país, um Renan Calheiros na Comissão de Ética, uma Marta Suplicy no Ministério da Cultura e, quiçá, um Delúbio Soares na reitoria de uma universidade federal. A chance desse pessoal todo é que o brasileiro - e, sobretudo, aqueles que deveriam formar a elite pensante do país - perca a capacidade de juízo. No lusco-fusco da mediocridade generalizada, os malandros destacar-se-ão. A vilania será consagrada como honra; a torpeza como coragem; o grotesco como sublime; o horrendo como belo; o Lula como doutor honoris causa (Opa! Essa já foi).



O caso da Valesca Popozuda é claramente a aplicação da técnica de manipulação psicológica conhecida como "porta na cara"*. Ela consiste na apresentação de uma demanda exorbitante, que obviamente será recusada, depois da qual se apresenta uma segunda demanda, menos custosa, que então será aceita mais facilmente. Em uma experiência clássica, Citaldini et al. solicitaram a alguns estudantes que acompanhassem, por duas horas, um grupo de jovens delinqüentes em uma visita ao zoológico. Formulada diretamente, essa solicitação obteve somente 16,7% de aceitação. Entretanto, colocando-a após um pedido exorbitante, a taxa elevou-se a 50%. Com tal expediente, é possível obter comprometimentos cada vez mais significativos.

Essa coisa aparentemente absurda e cômica de classificar a Valesca Popozuda como "grande pensadora" - fato que, obviamente, provocará reações adversas - pode perfeitamente bem corresponder à demanda exorbitante inicial da técnica da "porta na cara", amortecendo as resistências a uma segunda demanda qualquer (tipo, sei lá, Gregório Duvivier como filósofo?) Percebe-se, pela fala reticente do professor da UNB, que a técnica já obteve algum grau de sucesso.

A "porta na cara" e outras técnicas de manipulação psicológica e comportamental, conhecidas há muitas décadas, têm sido testadas e avaliadas recorrentemente por governos ao redor do mundo em suas respectivas populações. No Brasil, isso ocorre todos os dias. É um jeito muito eficiente de controle totalitário por meios não aversivos, método de condicionar uma população inteira a reagir conforme se espera, sem a necessidade de aparelhos de repressão visíveis, tais como tanques, censura aberta, gulags etc. No universo do poder político, isso é mais velho do que andar para frente. Mas, como no Brasil, a maior parte das pessoas nunca ouviu falar nesse tipo de coisa, os donos do poder vão cozinhando a sociedade como se cozinha uma rã: esquentando a água da panela aos pouquinhos...


Parla!


Em Brasília, defronte ao palácio do Planalto, eis que um objeto imenso, de cor escura, com não menos que 5 metros de altura por 5 de largura, repousa sobre uma vasta base de mármore de carrara. Vê-se de longe aquela grande e imponente massa negra, que desponta no horizonte qual um escotoma no campo visual de quem olha para a vastidão do planalto central. 


Os que do vulto se aproximam notam de imediato a consistência plasmática, apenas para, ato contínuo, discernir a variedade de tons, do amarronzado ao negro, passando pelo cobre. Tais propriedades que à visão se apresentam, não obstante, chegam atrasadas em relação ao que permite averiguar o olfato - o cheiro forte, nauseabundo, acre, já não deixa margens para dúvidas: trata-se de um pitolô de cocô, um genuíno e colossal cagalhão.


Na placa de mármore sobre a qual descansa a greda, dizeres informam tratar-se de uma obra de arte, de autoria do presidente honorário Luís Inácio Lula da Silva. E ali, em letras garrafais, lê-se o seguinte: O MINISTÉRIO DA VERDADE INFORMA QUE A PRESENTE ESCULTURA SUPERA, EM TERMOS DE BELEZA, HARMONIA, ENGENHO E GRANDIOSIDADE, O DAVID DE MICHELANGELO.

Depois de um momento inicial de escândalo - natural quando nos deparamos com peças de vanguarda artística, garantem os especialistas -, um crítico de arte, em entrevista ao Fantástico, sedimenta a opinião pública definitiva a respeito da matéria:



"As pessoas tendem a reagir mal diante de inovações artísticas, sobretudo quando o artista é alguém famoso e celebrado em outro ramo de atividade. Veja bem, dizer que a obra do digníssimo presidente honorário supera o David de Michelangelo talvez soe como exagero para críticos mais conservadores, mas o que importa é que toda obra de arte tem o seu valor e a sua importância histórica. Há ainda muito preconceito elitista contra artistas novos, sobretudo aqueles que, vindo do povo, como o presidente Lula, ousam desafiar os cânones da assim chamada [e o crítico faz o gesto de aspas com os dedinhos] alta cultura."


E assim foi que o extraordinário monte de bosta converteu-se em patrimônio histórico e artístico nacional, atestado pelo IPHAN. Hordas de peregrinos vão, diariamente, apreciar e reverenciar esse monumento à cultura brasileira. O único inconveniente é ter de disputar espaço com milhares de moscas varejeiras subitamente aficcionadas por arte moderna...


Das Virtudes e Vícios do Ceticismo

Em maio de 2012, o autor destas linhas frequentava um curso preparatório para o difícil e concorrido concurso do Itamaraty. Faziam três...