terça-feira, 18 de junho de 2013

"Não está claro": análise de uma revolta confusa e potencialmente suicida



"Quem não pergunta não quer saber; quem não quer saber, quer errar. Há, porém, ignorantes tão altivos, que se desprezam de perguntar, ou porque presumem que tudo sabem, ou porque se não presuma que lhes falte alguma cousa por saber. Deus guie a nau onde estes forem os pilotos." (Padre Antônio Vieira, Sermão de São Pedro)

"We can at least try to understand a revolution, whether  we want one or not. Yet we shall not go far toward understanding one unless we can maintain toward it, if not indifference, at least detachment." (Crane Brinton, The Anatomy of Revolution)


Meu sobrinho mais novo acaba de completar um mês de vida. É instrutivo observá-lo e imaginar-se em seu lugar. Quando não está dormindo ou mamando, ele fica ali, no seu berço-mundo, de olhos abertos, tentando captar algo além do que lhe permite a sua ainda curta visão. Lá, há todo um mundo desconhecido e brumoso, de onde saem sons curiosos e forças que determinam, sem que ele tenha qualquer controle, a sua rotina. É a sua primeira experiência de transcendência.

Tal situação, claro está, pode ser muito angustiante. O bebê é um amontado de sensações - tédio, fome, dor, calor, frio -, sensações estas que não sabe elaborar racionalmente e exprimir com clareza. Das sensações, ele parte direto, sem intermediários, para a forma mais crua de comunicação, a única de que dispõe: o choro, o chamado dos deuses-pais... E, então, o Verbo se faz leite. Num bebê, não existe nada entre as paixões e as suas ações (ou reações). O bebê é as suas paixões.

Amadurecer, como se sabe, é ir preenchendo aquele nada com o uso cada vez mais disciplinado da razão e do intelecto. Vamos aprendendo a, primeiro, conceitualizar (ou auto-comunicar) e, depois, a expressar com clareza o que sentimos. O adulto já não pode saltar diretamente das paixões à ação. No meio do caminho, ele precisa inteligir. Quanto mais pessoas estiverem no campo de influência de sua agência, mais inteligência e mediação serão necessárias entre o estímulo inicial e a ação final. 

Aquela regra aplica-se fundamentalmente, portanto, ao domínio da política. Como Aristóteles celebremente escreveu há mais de 2.000 anos, o homem é, por sua própria natureza, um "animal político" (Zoon politikon). Com o termo, o filósofo pretendeu caracterizar a habilidade humana de raciocinar e se comunicar com vistas à obtenção de soluções justas e adequadas para os problemas comuns da sociedade política (que, naquele contexto, também significava "civil"). Por sua vez, Platão escrevera que a pólis (ou seja, a sociedade civil e/ou política) "é o homem em letras maiúsculas" (A República, 368 d-e; 435 e), o que Eric Voegelin chamou de "princípio antropológico" (Voegelin 2000: 140). Segundo o princípio antropológico platônico, uma sociedade justa e bem-ordenada decorreria de almas individuais justas e bem-ordenadas.

Quando formulou aquela ideia, Platão estava desapontado com sua pólis, Atenas, que tinha a vida política conduzida principalmente por sofistas, homens cujas almas o filósofo considerava espúrias e desonestas. Mas, em lugar de se recolher a algum tipo de "Torre de Marfim" imune à vida real, Platão, inspirado por Sócrates, decidiu confrontar seus oponentes e desvelar a ignorância e vilania que ocultavam sob máscaras sociais supostamente virtuosas. Com esse espírito, ele fundou sua Academia, reunindo em torno de si pequenos círculos de discípulos engajados na tarefa de recuperar a integridade de suas almas (periagoge) em face de uma sociedade decadente e corrompida. Somente após esse processo primordial de auto-educação (que custava tempo e esforço), eles estariam preparados para assumir as responsabilidades intrínsecas à arte de governar.

Nos tempos de Platão e Aristóteles, a política era uma atividade destinada essencialmente aos homens maduros. Ainda hoje, em muitas sociedades tradicionais, os mais jovens só vão entrando na política aos poucos, inicialmente escutando muito mais do que falando, e assimilando dos mais velhos a tradição e experiências requeridas para lidar com atividade tão complexa, que exige muito mais do que boas intenções e desejo de justiça. Como versou William Blake em The Everlasting Gospel, "Caiphas was in his own mind a benefactor to mankind".

O protagonismo dos jovens na política é fenômeno relativamente recente e praticamente restrito à história moderna do Ocidente. Não cabe aqui recontar tal história, mas apenas destacar que o desprezo modernista pela tradição e pelo passado - que se revelou tanto na cultura quanto na política -, e o consequente entusiasmo com o novo, a vanguarda, o futuro, se fez acompanhar de uma ascenção dos jovens aos papéis de destaque na trama da história. Sob o ponto de vista de seu próprio tempo biográfico, Nélson Rodrigues sintetizou essa transformação numa de suas crônicas memoráveis:

"Ah, no antigo Brasil era uma humilhação ser jovem. Só me lembro der uma meia dúzia de rapazes. Os rapazes escondiam-se, andavam rente às paredes e, para eles, a velhice era uma utopia fascinante. Por toda parte, havia uma paisagem de velhos em flor. A palavra do velho parecia soar numa acústica de catedral (...) E tudo mudou. Agora o importante, o patético, o sublime é ser jovem. Ninguém quer ser velho. Há uma vergonha da velhice. E o ancião procura a convivência das Novas Gerações como se isso fosse um rejuvenescimento. Outro dia, dizia-me uma jovem senhora: 'Tenho mais medo da velhice do que da morte.' Quer ser defunta e não quer ser velha." (Rodrigues, 1994: 90-91).

Com os jovens, vieram para a vida pública a impetuosidade, a inexperiência orgulhosa, a impaciência insegura, o desejo de escapar do tédio existencial e um senso de justiça que, embora potencialmente nobre, é quase sempre cru e mal direcionado. Que símbolo maior do espírito modernista no Ocidente do que a resposta dada pelo jovem arquiteto suíço Charles-Édouard Jeanneret a Auguste Perret, considerado então o pai da moderna arquitetura francesa, quando este lhe perguntara se já havia ido ver o palácio de Versalhes? "Não, nunca irei", foi a resposta do jovem, que viria mais tarde a ser mundialmente conhecido pelo nome Le Corbusier. "E por que não?" "Por que Versalhes e a época clássica não são senão decadência!" (cf. Eksteins 1992: 35). A hybris moderna é consubstancial à arrogância da juventude.

O jovem é naturalmente um rebelde, claro. Mas o espírito do jovem quase nunca se rebela contra a sua própria geração e pares. Ao contrário da vulgata romântica que retrata os jovens como criaturas independentes e ansiosas por autonomia, a verdade é que eles costumam ser extremamente gregários e dependentes da aceitação alheia. Mostram-se, por isso, mais suscetíveis aos apelos de ideologias e projetos para mudar o mundo. Como sói acontecer em todo movimento de caráter revolucionário, os jovens – nos quais o senso de inadiabilidade e o senso de tédio estão naturalmente à flor da pele – são sempre mais propensos à ação, à execução prática do conhecimento e dos hábitos adquiridos - quase sempre de maneira inconsciente - através de guias espirituais (ou culturais). Não por acaso, quase toda revolução tem nos jovens sua principal força motriz, ainda que, normalmente, sejam homens mais velhos que os incitem e comandem. Quem quer que tenha lido os romances de Dostoiévski, e em especial "Os Demônios", sabe que esse espírito juvenil foi o combustível para revoluções, sublevações e atentados terroristas ocorridos na Rússia ao longo do século XIX. 

Os jovens quase nunca criam movimentos de massa, mas os exponenciam e amplificam de uma forma notável. Nenhum líder de movimento de massa pode abrir mão desse potencial. Dmitri Pisarev, teórico revolucionário do século XIX e um dos guias espirituais de Lênin, já constatara que "os maiores fanáticos são as crianças e os jovens" (cf. Camus 1951[1999]: 178). Os jovens, nos dizeres de Che Guevara em El socialismo e el hombre en Cuba, são a "argila maleável com que se pode construir o homem novo sem nenhuma das taras anteriores." (ler o texto na íntegra). E não custa lembrar que foi no século XX que surgiu um dos primeiros movimentos bem-sucedidos da juventude politicamente organizada, a saber: o fascismo.

No Brasil de 2013, estamos testemunhando seguidos protestos, em várias cidades, contra o aumento das tarifas de ônibus. Os atos são levados a cabo majoritariamente por jovens. Como sempre, são eles que estão em cena, ocupando o primeiro plano do noticiário. Mas o que os jovens brasileiros estão realmente fazendo com esse movimento contra o aumento das tarifas de ônibus? Será que eles sabem? Do que se trata, afinal? A "ética da intenção" (Gesinnungsethik) não estaria se sobrepondo à "ética da responsabilidade" (Verantwortugnsethik), para usarmos os conceitos de Weber? Enfim, o fenômeno já ganhou a dimensão e aquele mínimo de heterogeneidade necessários para ser digno de uma análise sociológica, e já não apenas política. Mais do que na cobertura oficial da imprensa, confio aqui também nos relatos que tenho visto publicados nas redes sociais, muitos deles por pessoas conhecidas.

É possível generalizar e tachar os manifestantes e seus apoiadores simplesmente de vândalos? Não, claro que não. Há vândalos, sim, presentes sobretudo nos primeiros protestos em São Paulo (ver aqui), mas há também muita gente, talvez a maior parte, bem-intencionada e ordeira. É possível dizer que o Brasil acordou e que, agora, com essa "Primavera brasileira" (como o fenômeno já vem sendo chamado), tudo vai ser diferente? Não, claro que não. A realidade se desenrola justamente no intervalo entre arroubos irresponsáveis de ódio tais como "Mete bala nesses vândalos!" (pedido feito - pasmem! - por um promotor de justiça de São Paulo à tropa de choque da PM) e slogans arrogantes e auto-lisonjeiros como "Desculpem o transtorno, estamos mudando o Brasil" (escrito no cartaz de um manifestante, que, antes de mudar o Brasil, talvez tenha mais coisas para mudar em sua própria vida). 

Vejo diversos amigos e conhecidos, pessoas que eu sei não pertencerem a partidos políticos e que, seguramente, repudiariam atos de vandalismo e violência, entusiasmados com o movimento, que vem ganhando adesões. Parece haver, de fato, uma relativa heterogeneidade entre os manifestantes. Relativa porque praticamente restrita a uma faixa etária (digamos, mais ou menos dos 15 aos 30) e a uma "classe" (seus membros são, no geral, estudantes e universitários de classe média). Boa parte dessas pessoas reivindica coisas legítimas e, sem necessariamente apoiar qualquer corrente política, e sem seguir (ao menos, conscientemente) algum dogma ideológico, está lá porque sente-se incomodada pelo modo como os interesses públicos têm sido desrespeitados no país (o que, apesar de excessivamente genérica, é uma constatação inegável). Portanto, estou de acordo com os defensores do movimento quando alegam não se tratar apenas de uma revolta pelos R$ 0,20 centavos de aumento nas tarifas. De fato, não parece ser isso. Mas, então, o que? Por que os jovens protestam?

A alegação de um jovem, rapper, filiado ao PSOL, chamou-me a atenção:

"Eu milito nas causas de direitos humanos e segurança pública. Faço raps com essa mensagem politizada. O mundo hoje tem um cenário que não está muito claro. Tem conflito na Síria, no Egito. Não podemos ficar de fora." (ver aqui).

A fala é ilustrativa e parece dizer muito sobre os eventos. A pergunta que se impõe é: se, para esse jovem, o cenário do mundo hoje não está claro, de que exatamente ele acha que “não podemos ficar de fora”? Qual a relação dos conflitos na Síria e no Egito com o que acontece no Brasil? Não, não está mesmo muito claro. E, no entanto, clareza é fundamental. Como escreveu George Orwell num brilhante ensaio sobre política e linguagem, “pensar mais claramente é um primeiro passo necessário para a regeneração política” (ler na íntegra aqui). Ou ainda, como sugeriu Eric Voegelin: "A interpretação escatológica da história resulta num falso retrato da realidade; e erros em relação à estrutura da realidade têm consequências práticas quando a falsa concepção torna-se base para a ação política." (Voegelin 1952[1987]: 166).

Parece haver de tudo um pouco nas manifestações: há reivindicações legítimas; há anseio por justiça social; há um crescente repúdio à atuação truculenta da polícia; há os partidos de esquerda de sempre (PSOL, PC do B, PCO, PSTU etc.), com suas bandeiras anticapitalistas e sua retórica dos anos 1960; há jovens ansiosos por "fazer alguma coisa", ainda que não saibam exatamente o quê; há, pairando no ambiente, a mitologia da revolução popular redentora, assimilada por esses jovens por meio da cultura de massa, das artes e da historiografia marxista, praticamente hegemônica no ensino escolar, que forneceu-lhes um panorama superficial da história moderna e uma acepção ingenuamente positiva do conceito de “revolução”; há muita insatisfação e ressentimento pessoal transformados em ódio mal-direcionado; há os entediados; há os que querem, mimeticamente, brincar de "Primavera" (“Tem conflito na Síria, no Egito, não podemos ficar de fora”, diz o jovem rapper); há os militantes profissionais de ONGs e "movimentos sociais"; há as feministas tradicionais e as moças do FEMEN com seus seios à mostra; há, em suma, uma revolta intensa e, ao mesmo tempo, difusa.

Ao contrário do que pode parecer, essa revolta não é completamente espontânea. Vivemos, já há pelo menos 20 anos, um ambiente jurídico-político que infantiliza a sociedade, impelindo seus membros a tomarem suas vontades, suas idiossincrasias e suas identidades grupais por direitos inalienáveis e, mais ainda, naturais. O vocabulário utilizado sugere a existência de direitos transcendentes, situados fora da esfera jurídica e da sociedade, cujo acesso estaria sendo negado aos seus detentores naturais. O casamento gay, a vontade masculina de usar saias ou de frequentar o banheiro feminino, a meia-entrada para estudantes, as cotas de todos os tipos, a interdição de autores e piadas, a exigência de desculpas públicas de desafetos, o cicloativismo, o bolsa-isso e o bolsa-aquilo, enfim, tudo é solicitado com profunda indignação e escândalo, como se o não reconhecimento jurídico de tais desejos fosse uma espécie de violação da própria ordem do cosmos. O sujeito contemporâneo de nossos dias, e de maneira particularmente grave no Brasil, representa a forma exacerbada daquilo que Ortega y Gasset, referindo-se ao homem europeu do século XIX, qualificou, em La Rebelión de las Masas, de "señorito satisfecho":


"[L]a civilización del siglo XIX es de índole tal que permite al hombre medio instalarse en un mundo sobrado del cual percibe solo la superabundancia de medios, pero no las angustias. Se encuentra rodeado de instrumentos prodigiosos, de medicinas benéficas, de Estados previsores, de derechos cómodos. Ignora, en cambio, lo difícil que es inventar esas medicinas e instrumentos y asegurar para el futuro su producción; no advierte lo inestable que es la organización del Estado, y apenas si siente dentro de sí obligaciones. Este desequilibrio le falsifica, le vacía en su raÌz de ser viviente, haciéndole perder contacto con la sustancia misma de la vida, que es absoluto peligro, radical problematismo. La forma más contradictoria de la vida humana que puede aparecer en la vida humana es el 'señorito satisfecho' (...) Es un hombre que ha venido a la vida para hacer lo que le dé la gana (...) El 'señorito satisfecho' se caracteriza por 'saber' que ciertas cosas no pueden ser y, sin embargo, y por lo mismo, fingir con sus actos y palabras la convicción contraria." (ler aqui).

Parece-me claro estarmos diante de uma espécie de psicopatologia coletiva. Um homossexual, por exemplo, em sã consciência, jamais empregaria a lógica do direito natural para fundamentar a sua reivindicação, pois que tal lógica não pode lhe beneficiar de modo algum. Mas os eternos demandantes de hoje não agem com consciência sã. Seus modos de expressão e ação não correspondem realmente àquilo que sentem. São, na arena pública, análogos a bebês que, sem saber identificar a fonte do que os aflige e a sua possível solução, abrem o berreiro e esticam os bracinhos trêmulos ao Estado: "É meu direito, é meu direito." Dá-se que o mesmo Estado que oferece a mamadeira (os “direitos”), também aplica as palmadas (as bombas de efeito moral, o spray de pimenta, os cassetetes, enfim, a violência policial). Muitas das pessoas que passam a vida lamentando a “ausência do Estado” agora gemem sob o peso de sua presença. A cassetada no lombo é a contrapartida da meia-entrada; o gás lacrimogênio a outra face das cotas; a bala de borracha é o preço que se paga pela aprovação do casamento gay. Quem aceita fazer pacto com o Estado, um dia será necessariamente cobrado. Numa sociedade infantilizada, a mão que mima é a mesma que castiga.

Toda essa cultura de direito volitivo e de rivalidades grupais, muito bem induzida pelos donos do poder, não poderia deixar de produzir pessoas eternamente insatisfeitas, suscetíveis, desconfiadas e inseguras. Pessoas, em suma, cada vez mais incapazes de se relacionar socialmente sem a mediação do poder público. Mesmo as relações que, antes, eram resolvidas espontaneamente com o simples emprego de maturidade e bom senso, passam agora a ser judicializadas. As crianças-grandes se multiplicam e o Estado se agiganta para administrar os conflitos entre essas criaturas cada vez mais intolerantes e, ao mesmo tempo, mais identificadas ao "outro". O que agrava o problema é que, hoje, vivemos numa época em que as redes sociais e as novas tecnologias de comunicação exacerbam ao máximo aquilo que René Girard chamou de "mecanismo mimético". 

Já em seu primeiro livro, Mensonge Romantique, Verité Romanesque, publicado em 1961, Girard formulou a teoria do desejo mimético, sua grande assinatura teórica. Analisando alguns clássicos da literatura universal – notadamente de Cervantes, Flaubert, Stendhal, Dostoiévski e Proust – o autor identificou uma estrutura comum subjacente a todas elas. Segundo a formulação de Girard, o homem não deseja algo ou alguém de forma autônoma. Não se trata de uma relação imediata entre um sujeito desejante e um objeto de desejo. Ao contrário, se desejamos um determinado objeto, diz Girard, é porque ele é desejado ou possuído por alguém. Este alguém se torna, assim, o modelo para nosso desejo (cf. Girard 1961[2007]: 35-75).

O modelo, ou mediador, pode ser de tipo externo – quando não está situado no mesmo plano do sujeito e, portanto, não pode rivalizar com ele em torno do objeto desejado (por exemplo, Amadis de Gaula em relação a Dom Quixote, na obra-prima de Cervantes) – ou interno – quando está próximo o suficiente do sujeito, tornando-se um rival. A mediação interna, segundo Girard, é a grande responsável pelos conflitos que acometem todo grupamento humano, uma vez que, no limite, ela faz desaparecer o interesse pelo objeto, restando, então, a indiferenciação mimética entre sujeitos-modelos que rivalizam entre si, tornando-se mais e mais parecidos um com o outro no decorrer do processo. 

"Em tal situação, caminha-se sempre para uma simetria maior e, consequentemente, para mais conflito, já que a simetria só pode produzir duplos. Os duplos surgem com o desaparecimento do objeto, e, no calor da rivalidade, os rivais se tornam cada vez mais indiferenciados, idênticos. A crise mimética é sempre uma crise de indiferenciação que irrompe quando os papéis de sujeito e modelo são reduzidos aos de rivais. Essa indiferenciação se torna possível pelo desaparecimento do objeto." (cf. Girard 2000: 87).

A rivalidade mimética é contagiosa e, em pouco tempo, se espalha pela sociedade, gerando o que o autor chama de "crise mimética", a potencial guerra de todos contra todos. A crise será resolvida, então, pela polarização de todos os conflitos contra uma única pessoa (ou categoria de pessoas) – o bode expiatório, que poderá ser escolhido pelos mais variados motivos, mas geralmente associados a alguns estereótipos: o bode expiatório pode ser um estrangeiro, um deficiente físico, um miserável, um líder carismático ou, ao contrário, alguém muito poderoso ou rico – como se sabe, reis e rainhas, por exemplo, sempre foram bodes expiatórios por excelência nos momentos de crise. Com a eleição do bode expiatório, toda violência causada pela crise mimética, e diluída por todos os lados, concentra-se nessa vítima única, que então será expulsa ou assassinada coletivamente (ou, no mínimo, obedecendo-se a um clamor coletivo). O todos contra todos transmuda-se em todos contra um.

"Esse, aliás, é o sentido da palavra skándalon. Uma vez ativada, essa máquina mimética funciona armazenando energia conflituosa. E a tendência é essa energia propagar-se em todas as direções, porque, uma vez em marcha, o mecanismo mimético só se torna mais atraente para os observadores: se duas pessoas estão disputando um mesmo objeto, então, deve tratar-se de alguma coisa pelo qual vale a pena lutar, pensam os observadores, a quem tal objeto fica parecendo mais valioso. O objeto valorizado tende a provocar mais e mais cobiça, e, ao fazê-lo, a sua atratividade mimética somente cresce. Enquanto isto acontece, o objeto também tende a desaparecer, a ser dilacerado e destruído no conflito. Para que a mimésis se torne puramente antagonística, o objeto precisa desaparecer. Quando isso ocorre, temos a proliferação dos duplos e a emergência da crise mimética, pois quando o objeto desaparece, não há mais mediação entre os rivais: o conflito é iminente. À medida que mimésis se converte em antagonismo, a tendência é que ela se torne cumulativa, passando a envolver vários membros de uma dada comunidade, até que o processo leve à violência contra o único antagonista remanescente – o ‘bode expiatório’." (ibid. pp. 87-88).

O ponto importante a se notar é o fato de que o mecanismo mimético é, nos termos de Girard, "oportunista", ou seja, pode ir trocando de objeto à medida de sua evolução. 

"Permitam-me destacar mais uma vez o que é o mecanismo mimético. Geralmente utilizo a expressão ‘mecanismo mimético’ para referir-me ao mecanismo do bode expiatório. Noutras palavras, quando tende a tornar-se oportunista, o desejo mimético orienta-se paradoxalmente por modelos substitutos, antagonistas substitutos. O paradoxo do desejo mimético consiste no fato de parecer solidamente fixado num objeto específico, quando, na verdade, é inteiramente oportunista. A era dos escândalos na qual vivemos corresponde a um deslocamento do desejo. Um grande skándalon coletivo equivale ao pequeno skándalon entre dois vizinhos multiplicado muitas vezes. Quando o skándalon em pequena escala se torna oportunista, tende a unir-se ao maior skándalon ali em curso, tranqüilizando-se pelo fato de sua indignação ser partilhada por muitos. Nesse momento, a mimésis se torna ‘lateral’ em vez de voltar-se apenas para o vizinho, e isso é sinal de crise, de contágio crescente. O skándalon maior devora os menores, até restar um único escândalo, uma única vítima – assim funciona o mecanismo do bode expiatório." (ibid. p. 89 - grifos meus).

Os atuais protestos ficam mais compreensíveis dentro desse contexto. Em primeiro lugar, eles são claramente miméticos: as redes sociais multiplicam os modelos e, com isso, as adesões de manifestantes cada vez mais indiferenciados, agindo por imitação e, aos poucos, desejando e repudiando as mesmas coisas. Além disso, como eu afirmei antes, não se trata mesmo dos R$ 0,20. O objeto da revolta é, no fim das contas, irrelevante, porque ele muda ao longo do trajeto. A revolta, além de difusa, é “oportunista” (no sentido que Girard dá ao termo). Os protestos começaram como reação ao aumento nas tarifas, agora já surge uma série de objetos “substitutos”, alguns pertinentes, outros delirantes: contra a violência policial; contra "os 500 anos de governo estuprando o povo"; contra a "grande mídia" e, em especial, a Rede Globo; pelo “transporte público gratuito”; pelo impeachment do governador Geraldo Alckmin e etc.

É como se o processo revolucionário, ou proto-revolucionário, tivesse entrado precocemente em sua fase niilista, na qual, como escreveu Camus, "a revolução, em si mesma, [é] mais importante do que aqueles que ela queria salvar." (Camus 1951[1999]: 192). Duas das mais célebres revoluções da história, a francesa e a russa, como se sabe, passaram por tais fases. Durante o Terror Jacobino, os revolucionários não precisaram da Contra-Revolução para se matar uns aos outros de maneira alucinada, após acusações generalizadas de traição e reacionarismo. A máquina da revolução se movia por si mesma, quase que a despeito dos revolucionários. A Revolução Russa, por sua vez, feita supostamente para salvar os operários e os camponeses, não tardou a se voltar contra eles. Em 1918, Trótsky estabelecera campos de concentração para punir os inimigos do Exército Vermelho e os ex-oficiais czaristas relutantes em aderir à revolução. Pouco tempo depois, esses locais passaram a servir também para a detenção de camponeses, submetidos à requisição forçada de grãos por parte do governo revolucionário. Estima-se que, por volta de 1921, cerca de 80 % dos detentos nos campos de concentração soviéticos era de camponeses (cf. Leggett 1981: 178).

A revolução como um fim em si mesmo. Será isso o que está em andamento no Brasil? Mais uma vez, pergunta-se: por que os jovens protestam?

O antropólogo e amigo Mércio Gomes procurou responder àquela pergunta por meio de um belo relato da passeata ocorrida no Rio de Janeiro no dia 13/06, do qual gostaria de destacar o seguinte trecho:

"Os pequenos partidos políticos de retórica esquerdista estavam por lá, com suas bandeiras e suas tentativas de controlar, mas eram poucos militantes e não comandavam a massa. Todos pareciam saber que estavam tão somente ensaiando para algo que ainda não sabem o quê é e em quê vai dar, mas que almejam alcançar." (ler aqui).

As impressões do autor dão conta de um aspecto positivo das manifestações, qual seja a ausência de uma nítida determinação partidária e de uma agenda ideológica una e engessada. Nesse sentido, e apenas nesse, é interessante que os jovens não tenham certezas absolutas e dogmáticas sobre as motivações e o destino de sua revolta. Por outro lado, esse agir sem saber traz o risco de que os resultados não correspondam às boas intenções e que, no fim, os profissionais da política e os donos do poder saibam exatamente o que fazer e consigam direcionar os eventos conforme interesses partidários e em nome da maior concentração de poder. Não seria inédito na história, muito pelo contrário. Quase todo processo revolucionário é assim. Se a maior parte não sabe bem o que está fazendo e aproveita o corrido para dar vazão a insatisfações de diversas ordens (legítimas ou não), há sempre um pequeno grupo dirigente que sabe e que, mesmo que não seja capaz de conduzir o processo enquanto ele ocorre, será capaz de colher-lhe os frutos. Não se muda nenhuma realidade política apenas com insatisfações. É preciso poder, que diz respeito à capacidade de retirar ou colocar pessoas em posições de comando.

Ao que parece, uma certa canalização do fluxo da revolta já começa a ocorrer. O prefeito de São Paulo, por exemplo, como se nada tivesse a ver com as razões originais dos protestos, a questão das tarifas, começa a aderir à nova pauta e estimulá-la: a violência da polícia, que atinge o governo do estado, atualmente sob poder do principal partido de oposição em nível federal. Correntes nas redes socias já começam a marcar manifestações pedindo o impeachment do governador de São Paulo. 

Mas o prefeito de São Paulo não está só. Seu partido parece ter percebido claramente a importância de assumir o controle das manifestações na cidade. O ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e a ministra das Relações Institucionais Ideli Salvati também fizeram críticas à polícia de São Paulo, parecendo esquecer que manifestações estão ocorrendo também em cidades e estados comandados por partidos da base aliada (no Rio de Janeiro e até no DF, por exemplo), manifestações reprimidas pela polícia de maneira igualmente truculenta. Até o Zé Dirceu, condenado como "chefe da quadrilha" do Mensalão pelo STF, e que andava meio sumido, resolveu pegar carona nas manifestações e já começa a anunciar os planos para o futuro: "Precisamos aproveitar essa forma para impulsionar reformas democráticas e sociais que não tivemos e não temos força e maioria na sociedade para realizar. Reformas como a política, a tributária, a urbana, a financeira, a da democratização da comunicação, a educacional e cultural." (ver aqui). E, em seguida, o próprio ex-presidente Lula disse apoiar as manifestações e, ainda por cima, cobrou soluções para o transporte urbano, como se não tivesse gozado de dois mandatos presidenciais para fazer alguma coisa a respeito (ver aqui).

Leio também que alguns grupos militantes, aparentemente apartidários, que ora tentam comandar as manifestações em São Paulo, como um de nome "Juntos", são liderados por políticos e partidos que, historicamente, deram sustentação e ajudaram a levar o PT ao poder. O domínio do "Juntos" na internet pertence, por exemplo, a Luciana Genro, do PSOL (ver aqui), filha de Tarso Genro, importante "quadro" do PT e atual governador do Rio Grande do Sul.

Em suma, há o risco bastante palpável de que fique tudo "em família", por assim dizer. Ou seja, de que um movimento que se espalha pelo país e que cresce em número de adesões termine, na melhor das hipóteses, com resultados bem mais modestos e bairristas do que se poderia imaginar. Sem foco, sem projeto, sem a existência de forças políticas que possam encarnar as reivindicações ao nível da disputa efetiva pelo poder, é bem provável que os ali já estabelecidos, os maiores responsáveis pelos problemas contra os quais as pessoas protestam, saiam ainda mais fortalecidos, mais totalitários e violentos. Ou que, outra hipótese, ascenda ao poder uma dissidência interna ou outro grupo político ainda mais perigosos. O exemplo da assim chamada "Primavera Árabe", especialmente no Egito, é ilustrativo. Muitos jovens bem-intencionados, que inundaram as redes sociais com mensagens de liberdade e igualdade, acabaram controlados invisivelmente pela Irmandade Muçulmana, grupo que, ao final, chegou ao poder esmagando todas aquelas pretensões "progressistas" e impondo a sharia como lei nacional. Quem vinha acompanhando a situação política da região antes que os eventos revolucionários se desenrolassem, prestando especial atenção nos grupos políticos por detrás da "Primavera", já poderia prever o resultado. Ainda antes da queda de Hosni Mubarak, eu mesmo escrevi um prognóstico aqui neste blog, que acabou por se confirmar (ler aqui).

A sensação de estar lutando por uma causa genérica e grandiloquente (por exemplo, "mudar o Brasil") é sempre muito auto-lisonjeira e, por isso, capaz de seduzir um bocado de gente, em especial os jovens, criaturas miméticas por excelência, que, pela inexperiência natural, gostam de ver refletidos em seus pares os seus próprios anseios e insatisfações. Mas aquela sensação pode se revelar muito perigosa:



"In order to advance his 'cause', the man who has it will, 'in the hearing of the multitude', indulge in severe criticism of social evils and in particular of the conduct of the upper classes. Frequent repetition of the performance will induce the opinion among the hearers that the speakers must be men of singular integrity, zeal, and holiness, for only men who are singularly good can be so deeply offended by evil. The next step will be the concentration of popular ill-will on the established government. This task can be psychologically performed by attributing all fault and corruption, as it exists in the world because of human frailty, to the action or inaction of the government. By such imputation of evil to a specific institution the speakers prove their wisdom to the multitude of men who by themselves would never have thought of such a connection; and at the same time they show the point that must be attacked if evil shall be removed from this world. After such preparation, the time will be ripe for recommending a new form of government as the 'sovereign remedy of all evils'" (Voegelin 1952[1987]: 135-136 – grifos meus). 

Em seu clássico A Anatomia da Revolução, de 1938, o historiador norte-americano Crane Brinton procurou extrair constantes a partir da comparação entre quatro grandes revoluções da história, a inglesa (séc. XVII), a americana (séc. XVIII), a francesa (séc. XVIII) e a russa (séc. XX). O autor sugere uma analogia entre o processo revolucionário e o desenvolvimento da febre num organismo doente.

"Então surge o momento em que todos os sintomas aparecem, quando podemos dizer que a febre da revolução começou. Ela caminha, não regularmente, mas com avanços e retrocessos, para uma crise, frequentemente acompanhada de delírio, o governo dos revolucionários mais violentos, o Reino do Terror (...) Depois da crise, vem um período de convalescença, geralmente seguida por uma ou duas recaídas. Finalmente a febre acaba, e o paciente volta a ser ele mesmo, talvez em alguns aspectos até fortalecido pela experiência, imunizado por um tempo contra um ataque similar, mas certamente não completamente transformado num novo homem. O paralelo desdobra-se até o fim, pois sociedades que atravessam o ciclo completo da revolução são, talvez, em certos aspectos, as mais fortes para isso; mas de modo algum elas emergem inteiramente refeitas do processo" (Brinton 1938[1965]: 17 - grifos meus).

Em outro momento, o autor afirma de maneira taxativa:

"As massas não fazem revoluções. Elas podem ser recrutadas para mobilizações ostentatórias uma vez que a minoria ativa já tenha vencido a revolução. As revoluções do século XX, de direita como de esquerda, conseguiram aparentes milagres de participação da massa. Mas as impressionantes demonstrações registradas na Alemanha, Itália, Rússia e China não devem iludir o pesquisador cuidadoso da política. As vitórias comunista, nazista e fascista sobre os moderados não foram obtidas com a participação da maioria; todas foram obtidas por facções pequenas, disciplinadas, dogmáticas e fanáticas." (ibid. pp. 154-155 - grifos meus).

A análise de Brinton nos obriga a refletir sobre a possibilidade de que a assim chamada "Revolta do Vinagre" seja pouco mais que uma mobilização de massa ostentarória a serviço de uma revolução silenciosa já em curso há muito tempo. As pessoas que, com razão, estão revoltadas com o poder público no Brasil, precisam tomar muito cuidado para não acabar fortalecendo, por afobamento e pulsão revolucionária, a fonte do problema. É preciso conhecer muito bem, por exemplo, os grupos que lideram ou tentam liderar o movimento (ver aqui). É preciso, antes de agir, realizar um esforço de imaginar os possíveis desdobramentos dos protestos. Manifestações populares podem ser eficazes quando seus alvos são bem definidos. Mas, quando movidas só por uma revolta genérica, sem objeto, elas sempre acabam dando com os burros n'água. A ação política não pode jamais equivaler ao choro dos bebês, reação imediata e irrefletida. Pois, nesse domínio, a mão que vem pretensamente nos socorrer costuma ser o nosso maior problema.

A análise de Crane Brinton vai ao encontro das conclusões de Bertrand Jouvenel em um outro clássico, desta vez em filosofia política, intitulado Du Pouvoir. Histoire naturelle de sa croissance, publicado em 1945. Segundo Jouvenel:

"Sous l'Ancien Régime, les esprits capables d'exercer une influence, sachant qu'ils n'auraient jamais part au Pouvoir, étaient prompts à dénoncer son moindre empiétement. Tandis qu'à présent, tous son prétendant, aucun n'a d'intérêt à diminuer une position à laquelle il espère un jour accéder, à paralyser une machine dont il pense user à son tour. De là vien qu'on trouve dans les cercles politiques de la Societé moderne une vaste complicité en faveur de l'extension du Pouvoir." (Jouvenel 1972: 34-35).

As revoluções modernas, afirma o autor, resultaram num aperfeiçoamento do poder opressivo do Estado. Não por acaso, elas quase sempre estabeleceram um quadro de menos liberdade e maior grau de violência do que havia na situação anterior. Tal ocorre porque, a cada novo grupo que sobe ao poder, este último encontra-se mais aprimorado pelo grupo anterior. O poder total do período napoleônico não foi um acidente da Revolução Francesa, mas seu corolário inevitável; o mesmo vale para o regime de Stálin em relação à Revolução Russa.

Dois célebres especialistas na matéria, Engels e Lênin, citados por Jouvenel, já haviam sublinhado a importância de dominar o Estado e usá-lo como mecanismo opressor. No prefácio que escreveu para A Guerra Civil na França, de Marx, Engels afirma:

"O Estado não é outra coisa senão uma máquina para a opressão de uma classe por uma outra e, de facto, na república democrática não menos do que na monarquia; no melhor dos casos, um mal que é legado ao proletariado vitorioso na luta pela dominação de classe" (ler na íntegra).

E Lênin, em O Estado e a Revolução:

"Todas as revoluções anteriores não fizeram senão aperfeiçoar a máquina governamental, quando o necessário é abatê-la, quebrá-la." (ler na íntegra).

Ocorre que a revolução de Lênin não abateu ou quebrou a máquina governamental. Por quais motivos, a não ser na imaginação profética do líder russo, sua revolução haveria de ser distinta das outras? Muito pelo contrário, a Revolução Russa tornou a máquina governamental praticamente perfeita, inquebrantável. Tratou-se, aliás, de um dos momentos em que a capacidade opressora do Estado atingiu um de seus pontos mais altos, tendo seus procedimentos e técnicas copiados por líderes políticos até os dias de hoje. E não foram poucos os que seguiram aquela ideia maravilhosa, confiando nas suas próprias boas intenções e no seu desejo por justiça. E, mais tarde, muitos desses foram devidamente "expurgados" quando já não mais serviam, pois que sua tarefa de propagandear a revolução salvadora estava cumprida.

É impossível ter absoluta certeza sobre como irá acabar toda a movimentação que está a ocorrer no Brasil. Todo movimento de massa comporta um alto grau de imprevisibilidade. Mas uma coisa é certa: há uma série de urubus sobrevoando tudo com olhos atentos e bicos afiados, à espera de que, ao final, possam se banquetear na carniça e amealhar os espólios. Nada melhor para estes que uma massa à deriva, animada de revolta impotente e dispersa, à caça de bodes-expiatórios sucessivos para descarregar descontentamentos que não conseguem formular. A atual crise de representação política é o cenário ideal para a tirania, para que um homem-massa decida encarnar os anseios populares e, pondo para escanteio as instituições democráticas, decida partir para a "democracia direta", que todo mundo sabe ser um eufemismo para "ditadura". O homem-massa, o tirano (ou junta de tiranos), o rosto da massa sem rosto. Esse pesadelo não é um artefato arqueológico de eras passadas. Ele é parte integrante de nossa história contemporânea, e retorna sempre com gosto se a massa assim o desejar, saiba ela disso ou não.

Encerro com as palavras imortais de Karl Kraus, poeta e dramaturgo austríaco que, na sua peça Os Últimos Dias da Humanidade, soube como ninguém captar o clima de insanidade pública e degradação cultural que tomou conta da Europa às vésperas da Primeira Guerra, guerra que, como sugeriu o historiador Modris Eksteins (1992), foi essencialmente sacrificial, como se o espírito da época ansiasse por um morticínio redentor. Escreveu Kraus (e qualquer semelhança terá sido mera coincidência):

"Os diálogos mais inverossímeis aqui travados foram pronunciados nessa exata forma; as mais cruéis fantasias são citações. Frases cuja absurdidade se inscreveu indelevelmente no ouvido ganham a dimensão da música da vida. O documento é uma personagem; relatos ganham vida como figuras humanas, figuras morrem como editoriais; o artigo de jornal recebeu uma boca, que o recita em forma de monólogo; os clichês erguem-se sobre duas pernas - houve seres humanos que ficaram só com uma. Há cadências a vociferar com estrondo pelo tempo afora, engrossando até se tornarem no coro de um rito blasfemo. Gente que viveu abaixo da humanidade e que sobreviveu a esta surge - enquanto agente e porta-voz de um presente que não tem carne, mas tem sangue, que não tem sangue, mas tem tinta - reduzida a espectros e a marionetes e traduzida na fórmula de sua ativa insubstancialidade. Carrancas e lêmures, máscaras do Carnaval trágico, têm nomes autênticos, porque é assim que tem de ser e porque, justamente, nesta temporalidade governada pelo acaso nada acontece por acaso." (Kraus 2003: 18).
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:



BRINTON, Crane. 1938[1965]. The Anatomy of Revolution (Revised and Expanded Edition). New York: Vintage Books.

CAMUS, Albert. 1951[1999]. O Homem Revoltado. Rio de Janeiro e São Paulo: Editora Record. 


EKSTEINS, Modris. 1992. A Sagração da Primavera: A Grande Guerra e o Nascimento da Era Moderna. Rio de Janeiro: Rocco.


GIRARD, René. 1961[2007]. Mensonge Romantique et Vérité Romanesque. In: De la Violence à la Divinité (Bibliothèque Grasset). Paris: Bernard Grasset. 

JOUVENEL, Bertrand de. 1945[1972]. Du Pouvoir. Histoire Naturelle de sa Croissance. Paris: Hachette.


KRAUS, Karl. 2003. Os últimos dias da Humanidade. Lisboa: Antígona.


LEGGETT, George. 1981. The Cheka: Lenin's Political Police. Oxford: Oxford University Press. 


RODRIGUES, Nélson. 1994. "O Septuagenário Nato". In: O Óbvio Ululante: Primeiras Confissões (Crônicas). São Paulo: Companhia das Letras.

VOEGELIN, Eric. 1952[1987]. The New Science of Politics: an Introduction. Chicago & London: The University of Chicago Press.


VOEGELIN, Eric. 2000. Plato and Aristotle (Order and History, vol. III). Vol. 16 of The Collected Works of Eric Voegelin, ed. Dante Germino. Columbia and London: University of Missouri Press.

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