A razão e o título deste blog

Este blog nasceu da constatação de que o Brasil, alinhado com outros países da América Latina, vem numa escalada vigorosa rumo ao totalitarismo. É possível perceber, nas mais diferentes esferas, indícios de que estamos próximos – se é que já não chegamos lá – de viver em pleno 1984, de George Orwell. Orwell, aliás, foi um dos primeiros a perceber que toda revolução totalitária é precedida por uma revolução semântica, e esse é um dos temas centrais do presente blog.

Creio que o Brasil está passando por um processo de deturpação da linguagem pública, especialmente política. Tal deturpação cria uma camada semântica protetora, bloqueando o acesso à realidade, e impossibilitando sua correta expressão. É como se tivéssemos passado ao largo das bases fundamentais do pensamento ocidental, ignorando a criação da filosofia e ciência política por Sócrates, Platão e Aristóteles. Como se estes pensadores nunca tivessem existido para além de pequenos círculos de estudiosos, o Brasil parece ter adotado o paradigma sofista, onde a retórica e o consenso público - reforçado hoje pela "rebelião das massas", no sentido de Ortega y Gasset - eram mais importantes do que a verdade. Como dizia outro autor que admiro muito, o filósofo político Eric Voegelin, o totalitarismo é menos um fenômeno político e mais um fenômeno pneumopatológico, ou seja, uma doença do espírito. Ele começa na mente doentia de alguns guias espirituais e líderes políticos e, daí, quando não encontra uma reação firme e pronta, se espalha para toda a sociedade. Como mostrou Voegelin no magistral “Hitler e os Alemães”, isso foi o que aconteceu na Alemanha, por exemplo, permitindo a ascensão do nazismo. A sociedade alemã, na época, não teve a coragem de perceber a extensão do problema, nem tampouco possuía meios de descrevê-lo corretamente. Mutatis Mutandis, creio que algo semelhante ocorre no Brasil. Os grandes responsáveis por isso são, a meu ver, os formadores de opinião: imprensa, comentaristas políticos, artistas, intelectuais.

O fato é que a sociedade brasileira está cada vez mais suscetível a todo tipo de totalitarismo, e o domínio que o atual governo exerce sobre diversos domínios sociais - chegando mesmo a impor um quadro de referências e linguagem permitido - é um claro sinal. Este blog pretende reunir amostras que nos ajudem a compreender como o Brasil e o Universo puderam se distanciar tanto...

quarta-feira, 27 de março de 2013

Haikais de uma feminista, progressista, secularista, politicamente correta e antenada nas soluções para temas "polêmicos"


É coisa, não gente.
Razão, não religião.
Sem papo de crente.

Nosso Estado é laico.

Ninguém vai dizer amém
Para um Deus arcaico.

Fé não tem mais vez.
Nem sei o que diz a lei,
Mas o Jô é dez!

A ciência ordena
Parar de vez de fumar.
Eu vi no Datena.

Há que ter cautela.
Confiar, sem pestanejar,
No Dráuzio Varella.

É medieval
Casar e os filhos criar.
E o carnaval?

Preciso de amor.
A via é sendo vadia,
Segundo o Jabor.

A escolha é minha.

No meu corpo mando eu.
Quero ser galinha.

De agir eu não deixo.

Eu sou consciente e vou
É votar no Freixo.

O destino da última flor do lácio



De Camões foste a rainha.
De Vieira, nobre amante.
Pessoa tão bem a tinha.
E tem mais quem te abrilhante.

Tem Machado, Rosa e Ramos
E outros tantos que a honraram.
Hoje tudo aceitamos
Dos que sempre te odiaram:

De miojo te cobriram, de Palmeiras te trajaram.

terça-feira, 26 de março de 2013

Bode é brasileiro: um soneto alexandrino


Não se pode fingir que está tudo normal.
Já há muito se escuta o balido do Mal.
A nação recusou-se a lutar quando pôde.
Só lhe resta jazer sob os cascos do bode.

Erigiu-se um mito em que a gente apostou.
Sem pudor, e ao contrário, ele veio e afagou
O ego dos bacharéis, que o tomaram por Cristo.
Coisa bem especial que ninguém tinha visto.

Exigiu, sem alarde, o que é tão precioso.
Ofertou o que há de mais baixo no mundo.
Fisgou uns com lisonja e com seu ar jocoso.

E comprou outra parte até pagando pouco.
Barganhar, apoucar, eis o seu dom imundo.
Mas quem a su'alma vende é que deve estar louco.

Soneto para os Progressistas


O silêncio, quebrado só agora,
De artistas que um ar tão grave mostram.
Sentem fundo que aquilo de que gostam
Virá de um novo mundo a ser a Aurora.

Quando antes fizeram-se de cegos
E de mudos também, àquela altura,
Mensaleiros, com tal desenvoltura,
Chafurdavam na pátria dos labregos.

De onde vem o escândalo presente?
Que foi que despertou esses gigantes
Morais, com suas almas debutantes?

Mexeram, por acaso, com sua gente?
Pois desçam do palanque, está no ponto
De ter co'a consciência um encontro.