quarta-feira, 21 de novembro de 2012

The Ouroboric Bull, a Concretist Poem


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sábado, 13 de outubro de 2012

Eric Hobsbawm, a Veja e o provincianismo intelectual


"Tel qu’en Lui-même enfin l’éternité le change" 
(Le Tombeau D’Edgar Poe, Stéphane Mallarmé)


Morreu recentemente o historiador britânico Eric Hobsbawm, celebrado por muitos como um dos maiores intelectuais do século XX. Ao lado das justas homenagens ao seu reconhecido talento como historiador, surgiram também salutares ressalvas de que, de um ponto de vista político e, sobretudo, moral, a reputação de Hobsbawm está longe de ser uma unanimidade. 


Mais ainda, alguns comentadores (incluindo historiadores e filósofos) sugeriram - e vêm sugerindo - que a própria atuação de Hobsbawm como historiador foi, sob muitos aspectos, prejudicada pela adoção obstinada e inflexível de uma filosofia marxista da história e pelos posicionamentos políticos que tal moldura filosófica o levou a adotar, com uma renitência digna de nota até mesmo por parte de companheiros de ideologia. Tais comentários acabaram fornecendo um importante contrapeso às muitas tentativas de canonização do historiador, vindas, inclusive, de pessoas que nunca leram uma linha sequer de sua obra, mas que desejavam desfrutar um pouco da aura de seu prestígio acadêmico.

Resenhando um dos últimos livros escritos por Hobsbawm, o também historiador britânico Tony Judt já tecera comentários interessantes a respeito da  inexplicável teimosia ideológica do autor, que o levou a relegar ao segundo plano - grave pecado para um historiador - fatos absolutamente fundamentais da história do século XX: 

"Ao contrário da maioria dos intelectuais que, em algum momento, cederam ao encanto do Comunismo, Hobsbawm não demonstra arrependimentos. De fato, embora admita a derrota de tudo o que o Comunismo representava, ele insiste sem pestanejar que, a meio caminho de sua nona década de vida, 'o sonho da Revolução de Outubro ainda está em algum lugar dentro de mim'. Previsivelmente, foi essa obstinada recusa em 'renegar' toda uma vida comprometida com o Comunismo que atraiu a atenção da opinião pública. Por que, Hobsbawm foi questionado em inúmeras entrevistas, você não abandonou o Partido em 1956, como a maioria de seus amigos, quando os tanques soviéticos esmagaram as revoltas húngaras? Por que não em 1968, depois que o Exército Vermelho invadiu Praga? Por que você ainda parece acreditar - conforme Hobsbawm sugeriu em mais de uma ocasião em anos recentes - que o preço em vidas humanas e sofrimento sob o regime de Stálin teria valido a pena ser pago se os desdobramentos tivessem sido melhores?" (ver aqui).


Judt conclui que, excluindo-se deliberadamente do grupo de ex-comunistas que, por terem feito um exame de consciência, contribuíram com algumas das melhores análises sobre o terrível século XX - grupo que inclui nomes como Jorge Semprún, Wolfgang Leonhard, Margarete Buber-Neumann, Claude Roy, Albert Camus, Ignazio Silone, Manès Sperber, Arthur Koestler, George Orwell, entre outros -, Eric Hobsbawm acabou por "provincianizar a si próprio".

Com efeito, o século XX - e especialmente o período que vai de 1914 a 1991, chamado pelo autor de "o curto século XX", - é considerado por muitos a parte mais fraca da obra de Hobsbawm. Numa resenha de outro livro do historiador marxista, o filósofo político John Gray assinalara:

"Se A Era do Capital (1975) e a Era do Império (1987) são um marco nas obras de história, uma razão é a profunda compreensão ali demonstrada das interações entre as ideias e o poder. A maior fraqueza de Hobsbawm é que ele optou por não aplicar o mesmo entendimento histórico ao período entre 1914 e 1991 - a era que ele chamou de 'o curto século XX', na qual o Comunismo chegou ao poder em várias partes do mundo e depois desapareceu, deixando atrás de si nada menos que uma trilha de ruínas. Seus escritos sobre aquele período são banais ao extremo. São também largamente evasivos. Um vasto silêncio paira sobre as realidades do Comunismo." (ver aqui).

No dia mesmo do falecimento de Hobsbawm, o historiador Michael Burleigh escreveu para o The Telegraph que, ao longo de toda a sua trajetória intelectual, há em Hobsbawm "uma recusa dogmática em admitir que a Revolução Bolchevique foi um fracasso homicida". O autor acrescentou ainda: 

"A implacável recusa de Hobsbawm de repensar suas visões quando confrontadas com suas grotescas consequências nos diz algo sobre a beligerante mentalidade da esquerda britânica mais ampla." (ver aqui).


O colunista A. N. Wilson, do Mail Online, foi ainda mais contundente, escrevendo um 'necrológio' nada elogioso:

"No que se refere à história do século XX, ele [Hobsbawm] jamais aprendeu suas lições. As dezenas de milhões de mortos, as centenas de milhões de escravizados, a maligna falsidade da ideologia que se abateu com tamanho horror sobre as populações da Rússia, Hungria, Tchecoslováquia, Polônia e Alemanha nunca ocorreu a esse homem. Ele continuou acreditando que uns poucos erros foram cometidos, e que o stalinismo foi 'decepcionante' - mas que, no geral, teria sido maravilhoso se Stálin tivesse triunfado (...) A verdade é que, longe de ser um grande historiador que às vezes comete erros, Hobsbawm falsificou deliberadamente a história" (ver aqui).

Os autores acima citados, assim como outros comentadores de Hobsbawm, fazem referência a uma passagem particularmente chocante de sua biografia. Em 1994, numa entrevista transmitida pela televisão - depois publicada no Times Literary Supplement -, Hobsbawm declarou ao intelectual canadense Michael Ignatieff que o fato de Stálin ter assassinado milhões de sua própria população justificar-se-ia se tivesse resultado na realização da utopia comunista. Vale a pena citar o trecho em questão:


"Ignatieff: Em 1934, milhões de pessoas estão morrendo no experimento soviético. Se você soubesse disso, teria feito diferença para você na época? Para o seu comprometimento? Em ser comunista? 
Hobsbawm: ...Provavelmente não. 
(...) 
Ignatieff: Isso significa que, tivesse o radiante futuro sido mesmo criado, a perda de 15, 20 milhões de pessoas [hoje sabe-se que, somando-se as experiências soviética e chinesa apenas, as cifras ultrapassam os 130 milhões de mortos (ver aqui e aqui)] estaria justificada?
Hobsbawm: Sim" (ver aqui).

Como nota Wilson em seu artigo, imaginemos, por hipótese, que algum direitista extremado aparecesse na BBC, por exemplo, dizendo que os nazistas teriam tido razão em eliminar 6 milhões de judeus se tivessem alcançado seus objetivos. Todo mundo ficaria horrorizado, julgando, com toda a razão, que o sujeito jamais deveria falar em público novamente, ou pelo menos até que se arrependesse de suas repulsivas ideias.


Nada parecido ocorreu a Hobsbawm, mesmo após ter feito aquela declaração, o que não revela uma diferença substancial entre os horrores nazistas e os horrores soviéticos, mas simplesmente o fato de que os comunistas venceram a guerra cultural, enquanto os nazistas a perderam. Os comunistas não foram moralmente superiores aos nazistas; foram apenas melhores estrategistas, mais influentes e mais espertos.


Percebe-se que a visão de Hobsbawm sobre o (para ele, lamentavelmente) "curto século XX" reflete um problema inerente a toda historiografia marxista: o fato de que a filosofia da história subjacente a ela é teleológica, ou seja, não parte de fatos passados para a interpretação do presente e prognósticos para o futuro, mas de um futuro hipotético e frequentemente utópico - a sociedade sem classes -, que deverá servir de medida para a análise e seleção dos fatos históricos. Como todo autor de mentalidade teleológica - de Joaquim de Fiore a Hegel, de Comte a Marx e daí a Fukuyama -, Hobsbawm acredita saber de antemão qual o sentido da história, analisando os eventos de acordo com este sentido. O problema é que, quando contrariam o sentido previamente definido, os fatos tendem a ser suprimidos por uma espécie de catarata ideológica, bruma espessa e leitosa a descer por sobre os olhos do historiador, causando-lhe um escotoma, um ponto cego. 


O ponto cego de Hobsbawm era, sem dúvida, os cerca de 80 anos em que os comunistas ocuparam o poder e puderam pôr em prática a "ditadura do proletariado" preconizada por Lênin. Em Era dos Extremos, por exemplo, ao tratar do regime soviético, Hobsbawm simplesmente não menciona o massacre de mais de 20.000 soldados poloneses na floresta de Katyn, perpetrado pela NKVD, a polícia secreta russa. Note-se que, quando da publicação do livro, até mesmo o governo soviético de Mikhail Gorbachev já havia reconhecido o massacre, condenando tanto os crimes quanto o seu acobertamento. Hobsbawm julgou por bem ser mais realista que o rei e continuar acobertando o ocorrido. 

Em seu Sobre História, de 1997, Hobsbawm não hesitou em escrever: "Por frágeis que se revelassem os sistemas comunistas, apenas um uso limitado, ou mesmo nominal, de coerção armada foi necessário para mantê-los de 1957 até 1989" (São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 276 - grifos meus). Não é que esta seja uma interpretação equivocada ou enviesada dos fatos. Trata-se de mentira pura e simples, coisa que um historiador profissional não deveria se permitir escrever. Diante dos mais de 6 mil tanques e centenas de milhares de soldados do Pacto de Varsóvia que invadiram a Tchecoslováquia para reprimir a Primavera de Praga, por exemplo, como falar em "uso limitado" ou "nominal" de coerção armada?


Mas não são apenas distorções de conteúdo factual como as citadas acima que se observam no Hobsbawm que olha para o "curto século XX". Como bem ressalta Judt, sua própria linguagem se deforma, deixando de apresentar aquela segurança e clareza de quando o historiador escreve, por exemplo, sobre a França do século XVIII, ou sobre a Inglaterra da Revolução Industrial, passando, em vez disso, a um linguajar tartamudeante, frequentemente tautológico, que aparenta querer ocultar mais que revelar.


Descrevendo, por exemplo, o famoso "discurso secreto" em que Khrushchev denunciava os 'malfeitos' de Stálin, Hobsbawm fala em uma "brutal e implacável denúncia das crueldades de Stálin". Os adjetivos "brutal" e "implacável" referem-se à denúncia dos crimes de Stálin e não aos crimes eles mesmos! Em A Era dos Extremos, abordando o regime stalinista, Hobsbawm escreve que "a possibilidade de ditadura está implícita em qualquer regime baseado num partido único, irremovível" (São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 379 - grifos meus). E alguém poderia simplesmente alertar Hobsbawm de que um regime de partido único e irremovível é uma ditadura.


Em suma, percebe-se que, para muitos intelectuais fora do Brasil, há razões de sobra para, ao lado dos necrológios de praxe, proceder a uma crítica severa a Hobsbawm, especialmente naquele momento da vida em que, como escreveu Mallarmé no túmulo de Edgar Allan Poe, a eternidade, enfim, transforma o homem naquilo que ele sempre foi.


No Brasil, a revista Veja, ainda que de maneira mais tosca, fez a respeito de Hobsbawm um juízo não muito diferente àquele de muitos analistas estrangeiros, qualificando o historiador marxista de "idiota moral" (ver aqui). No meio da louvação geral ao ídolo, menos sincera e honrosa do que sicofântica e oportunista, o desajeitado texto da Veja foi a única avaliação negativa da obra e do pensamento de Hobsbawm, que, de outro modo, poderia ser confundido com um santo ou messias por alguém de fora que topasse com os suplementos literários e culturais dos jornais brasileiros. 


A matéria da Veja acabou preenchendo um vácuo que deveria estar ocupado por uma crítica intelectual mais abalizada, mas que no Brasil inexiste, por esbarrar num primário e provinciano espírito de corpo e numa reverência meramente formal e ostensiva diante dos grandes figurões do universo cultural euro-americano. No Brasil, estes costumam ser admirados menos por sua obra intelectual propriamente dita - aliás, quase nunca lida - e mais como símbolos de autoridade, meios de legitimar certas inclinações político-ideológicas. Com Hobsbawm, a coisa chega por aqui a níveis inacreditáveis. Como provoca Judt, "em certas partes da América do Sul - e especialmente no Brasil - ele é um herói cultural e folclórico".

Mas será que o homem era, de fato, imaculado? Será que merece mesmo ser tomado como um guia espiritual e intelectual para o país da forma como vem sendo? Será mesmo que a avaliação da revista era um total e completo despropósito?


A resposta, previsivelmente, veio na forma de um dos mais característicos gêneros literários da academia brasileira: o manifesto de intelectuais reunidos numa associação, sindicato, coorporação etc. Tais documentos buscam quase sempre compensar a debilidade usual dos argumentos por meio do grande número de adesões, apostando na quantidade, antes que na qualidade, como forma de intimidação e desagravo. No caso da matéria de Veja, uma entidade de classe chamada ANPUH (Associação Nacional de História) achou por bem defender o celebrado historiador - como se isso já não fosse ridículo o bastante -, e o fez da maneira a mais provinciana e coorporativista que se poderia esperar, como se guardando zelosamente o próprio feudo contra uma ameaça estrangeira. 


Com todos os defeitos que a matéria da Veja trazia em seu conteúdo, ela ainda assim arriscava lançar luz sobre um fenômeno que muitos historiadores brasileiros gostariam que permanecesse nas sombras: o fato de que a perspectiva marxista é praticamente hegemônica nos departamentos de história das universidades nacionais, com reflexos especialmente nocivos sobre os materiais didáticos voltados ao ensino fundamental e médio. Tal hegemonia não decorre de qualquer mérito substancial daquela abordagem, mas de um trabalho incansável de ocupação de espaços nas escolas e universidades. Ali, os alunos são submetidos diariamente a uma visão simplista e monolítica dos acontecimentos históricos, interpretados sempre e exclusivamente na chave da luta de classes e do evolucionismo etapista (feudalismo-capitalismo-socialismo-comunismo) típico da filosofia marxista da história. Lembro-me perfeitamente bem, além disso, de como os livros didáticos no meu ensino médio retratavam o Comunismo e os líderes comunistas de maneira simpática, frequentemente heróica, como se agissem inequivocamente movidos tão só por altruísmo e solidariedade; e de como, ao contrário, os adversários do Comunismo eram retratados como criaturas movidas apenas por egoísmo e ganância. 


Foi como símbolo daquela hegemonia cultural que Hobsbawm jamais poderia ser maculado. A revista Veja cometera a pior das iconoclastias. O problema não foi o de ter desrespeitado o historiador, mas o de ter profanado o líder cultural que legitima o espírito de corpo, a tacanhice, a mesquinhez, a monocultura teórica de boa parte dos historiadores brasileiros.


A "resposta à revista Veja" assinada pelos historiadores da ANPUH foi infeliz em vários sentidos. Em primeiro lugar, por maltratar a língua portuguesa, confirmando a situação catastrófica da educação brasileira, que leva professores universitários a escrever frases como "[Hobsbawm]Entendeu assim, (sic) o cotidiano e as estratégias de vida daqueles milhares que viveram as agruras do desenvolvimento capitalista." (O que faz aquela vírgula após o advérbio de modo "assim", separando, assim, o verbo e o predicado? Ou bem o advérbio vem entre vírgulas, como um termo separado, ou bem a frase vem sem vírgula alguma! O que não se pode, e pessoas que têm na língua escrita um instrumento de trabalho deveriam saber, é separar os elementos principais da oração - sujeitos, verbos e predicados - por meio de vírgulas). Ou ainda: "O tratamento desrespeitoso é dado logo no início do texto 'historiador esquerdista' (sic.), dito de forma pejorativa e completamente destituído de conteúdo" (Trata-se de uma construção gramatical perfeitamente dislexa, que torna a frase incompreensível. O que os autores pretenderam dizer? O texto da Veja chamava-se, por acaso, "historiador marxista"? Não, não era o caso. Como, então, interpretar uma frase tão hermética? E, independentemente do mau português, o que há de "pejorativo" em chamar Hobsbawm de "historiador esquerdista", uma vez que, pelo que se sabe, ele era historiador e era esquerdista?).


Em segundo lugar, a nota da ANPUH recorre pateticamente a um argumento de autoridade, tentando intimidar os autores da matéria com uma 'carteirada' do tipo "Sabe com quem estão falando? Quem são vocês para criticar o Hobsbawm, um dos homens mais importantes do século XX?". Afora isso, e alguns clichês adocicados tais como "contradições inerentes aos homens" - cuja aplicação a Hobsbawm chega a ser engraçada, uma vez que o homem era sabidamente um primor de coerência e rigidez ideológica -, não há mais nada no manifesto, um retrato deprimente do atual estado do debate público no Brasil e, sobretudo, de nossa intelligentsia.


É certo que a matéria publicada pela revista está longe de ser uma análise séria e aprofundada do legado de Hobsbawm. Tal análise, aliás, nem seria o papel de jornalistas e editores de um órgão de comunicação de massa, mas de intelectuais responsáveis, com conhecimento de causa. Graças à omissão dos intelectuais - que, no Brasil, mostram-se cheios de dedos e pudores diante de personalidades consagradas, transformando a academia numa espécie de salão de chá, onde a obsessiva atenção às regras de etiqueta e bom comportamento sobrepõe-se às exigências de um debate intelectual honesto -, coube a uma revista como a Veja exercer aquele papel, que, evidentemente, ela não está habilitada a cumprir.


Tudo isso é muito prejudicial para o debate cultural no país. O emprego que a revista faz do termo "idiota moral", provavelmente com intenção meramente ofensiva, obscurece o fato de que tal rótulo pode perfeitamente bem ser transformado num termo técnico, cuja aplicação a Hobsbawm talvez seja mais adequada do que pareceria à primeira vista.


Em certa passagem de seu Hitler e os Alemães, o filósofo Eric Voegelin menciona uma questão levantada pelo cientista político Waldemar Besson a respeito da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha. Como fora possível, indagava-se Besson, que 70 milhões de pessoas tivessem sido dominadas por um "idiota"? Voegelin então comenta: 



"Não farei de jeito nenhum uma propaganda da palavra 'idiota'. É abrangente demais, e obviamente Hitler tinha uma inteligência eminente, pela qual era capaz de enganar outras pessoas. Mas ainda há algo nisso. Pois este problema do idiota está, em última instância, relacionado com o problema do stultus, do tolo no sentido técnico (...) Esse fenômeno sempre foi reconhecido nas civilizações antigas. O tolo, o nabal, em hebraico, que por causa de sua tolice, nebala, cria desordem na sociedade, é o homem que não é um crente, nos termos israelitas da revelação. O amathes, o homem irracionalmente ignorante, é para Platão o homem que simplesmente não tem a autoridade da razão ou que não pode curvar-se a ela. O stultus, para Tomás, é o tolo, no mesmo sentido da amathia de Platão e do nebala dos profetas israelistas. Este stultus agora sofreu uma perda de realidade e age com base numa imagem deficiente da realidade e, assim, cria desordem." (São Paulo: É Realizações, 2008. pp. 85 e 121 - grifos meus).

Para o historiador marxista, o Comunismo era muito mais do que um dado da realidade. Ele era um escathon imanentizado, a promessa do tempo do "fim dos tempos". Ao contrário do que fazia com outros fenômenos históricos, quando abordava o comunismo Hobsbawm já não falava como o homem concreto, o historiador, mas como um representante daquele escathon, um profeta, alguém situado, portanto, fora e para além da história. O desastre da experiência comunista foi interpretado por Hobsbawm não como um problema inerente àquela utopia política, mas como um desvio de rumo, um obstáculo circunstancial, uma derrota momentânea. Tudo o que o historiador pôde pensar contra o regime de Stálin foi que este era decepcionante. A utopia comunista, por sua vez, restou intacta e sem máculas. Uma vez corrigidos os problemas, seria o caso de tentar mais uma vez, e mais outra, e mais quantas vezes fossem necessárias até que o utópico pudesse, enfim, ver seu sonho político realizado. Como escreveu Voegelin em outro de seus textos: 


"A interpretação escatológica da história resulta numa falsa imagem da realidade; e erros com respeito à estrutura da realidade têm consequências práticas quando a falsa concepção é tomada como base para a ação política." (The New Science of Politics: an Introduction. Chicago & London: The University of Chicago Press, 1952[1987]. p. 166).

Hobsbawm era, sem dúvida, um homem de inteligência acima da média e um historiador competente. No entanto, no que se refere à realidade concreta da experiência comunista, ele era um stultus. Por não ter, ao contrário de muitos de seus contemporâneos, feito um exame de consciência e abandonado uma utopia política de juventude - mesmo que essa utopia tenha gerado efeitos catastróficos quando posta em prática -, Hobsbawm sofreu uma "perda de realidade". Sua imagem da realidade histórica do Comunismo permaneceu, até os últimos dias de sua vida, completamente distorcida, fazendo dele, de fato, um homem paralisado, inflexível, incapaz de juízo moral mesmo em face das mais terríveis atrocidades.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

"Você sabe matar um branquelo, hein?": O Politicamente Correto sob a Perspectiva da Ética

"Enquanto o nosso estetismo não for levado perante um tribunal do espírito capaz de julgá-lo pelos crimes de irresponsabilidade que vem cometendo há tanto e tanto tempo, continuará ele transformando em emocionalismo contemplativo e indiferente à moralidade os temas mais acentuadamente éticos que a vida humana é capaz de sugerir" (Mário Vieira de Mello, Desenvolvimento e Cultura: O Problema do Estetismo no Brasil)

Introdução: Os Politicamente Incorretos

O Politicamente Correto (ou simplesmente PC, como é apelidado nos EUA) é hoje um tema recorrente no debate público. Graças, talvez, a certas características que lhe são inerentes, ele vem sofrendo um sem-número de críticas. Se, antes, poucas pessoas ousavam desafiá-lo abertamente, temendo o alarde público que tal 'afronta' poderia  (e, em larga medida, ainda pode) suscitar, agora a crítica tem ganhado certa popularidade, chegando mesmo a se insinuar, ainda que marginalmente, em alguns centros produtores de cultura de massa. 

Há algumas semanas, por exemplo, em seu mais novo programa televisivo, o apresentador Pedro Bial, da TV Globo, comandou um bate-papo sobre o tema no qual o tom, de modo inédito, tendia mais para a crítica do que para o endosso (ver aqui). A TV Globo, que tem se caracterizado historicamente por ser uma propagadora de agendas politicamente corretas (direitos das mulheres, direitos dos homossexuais, direitos dos portadores de deficiência, combate ao racismo, multiculturalismo, ecumenismo religioso e etc.), parece ter captado no ar a existência de um novo nicho de mercado, formado por pessoas já um pouco irritadas, não sem razão, com a onipresença do PC no discurso público e, sobretudo, com abusos persecutórios decorrentes desse espírito - tais como a tentativa de censura a trechos de obras do escritor Monteiro Lobato e a injustificada acusação de racismo dirigida ao cantor Alexandre Pires por parte da Secretaria Nacional de Promoção de Igualdade Racial, que o levou a ser investigado pelo Ministério Público, por conta de um clipe musical no qual homens (incluindo o próprio cantor, que é negro) aparecem vestidos de macaco.

Além do exemplo do programa de Pedro Bial, outra área em que a crítica aparece com bastante frequência é o humor, sobretudo nas assim chamadas stand-up comedies. Humoristas como Rafinha Bastos e Danilo Gentilli - este último encenando um espetáculo cujo título é "Politicamente Incorreto" - têm usado e abusado da iconoclastia e do deboche em sua crítica ao discurso PC. Esse tipo de humor tem tido boa resposta em termos de público, o que talvez seja um bom indicativo de um certo clima de opinião anti-PC.

O termo "politicamente incorreto", aliás, criado em reação ao PC, tem aparecido bastante em livros, revistas e jornais. Há Guias Politicamente Incorretos disso e Guias Politicamente Incorretos daquilo. Há pessoas assumindo com gosto uma 'identidade' politicamente incorreta, como se se tratasse de um estilo de vida. Como sói acontecer nas redes sociais, a coisa se banaliza e se degrada numa velocidade impressionante, e hoje já é possível observar pessoas que se dizem politicamente incorretas por puro modismo e espírito bovino, ou que tomam tal noção por uma espécie de salvo-conduto para cometer grosserias gratuitas contra os outros e brandir clichês como se fossem expressão de coragem. Uma vez que vivemos o auge do que Christopher Lasch bem chamou de "cultura do narcisismo", o politicamente incorreto logo passou de uma tentativa legítima e bem-humorada de impor um freio às tendências totalitárias do PC - que são ainda majoritárias - a uma mera afetação narcísica de 'rebeldia' e 'autonomia'. 

Diante de qualquer fenômeno que começa a se massificar e estabilizar, cabe ao analista adotar uma atitude de desconfiança. Quando a crítica ao PC ameaça tornar-se uma maçaroca indistinta e disforme; quando intelectuais, jornalistas, humoristas e quaisquer revolucionários de Facebook (escreverei sobre eles futuramente) passam a empregar uma linguagem comum e homogênea; quando, enfim, começa-se a perder o senso das experiências concretas que motivaram a crítica, fazendo desta última um simples guarda-chuva para abrigar gestos de vaidade e loas à moda, é sinal de que está mais do que na hora de um freio de arrumação. Naquele momento do dia em que todos os gatos vão ficando pardos, em que a malícia começa a se fazer passar por inteligência, é urgente uma retirada estratégica, um salto analítico para fora do caos. O politicamente correto é algo muito sério para sua crítica ser deixada nas mãos de apresentadores de TV, humoristas e intelectuais de botequim. É preciso que seus entusiastas, que estão por aí mostrando os dentes, sejam forçados a lidar com algo mais consistente do que as piadas do Danilo Gentili ou os arroubos concretistas ("Ariel, Ariadna!") de Pedro Bial.


A Origem do PC e suas Primeiras Críticas

Em seu emprego atual, a expressão "politicamente correto" - ou, se traduzida ao pé da letra, "correção política" (political correctness) - apareceu nos EUA na virada das décadas de 1980 para 1990, e logo se espalhou pelo mundo, primeiro para a Inglaterra, depois para a França, e assim por diante. Ela surgiu, claro está, com sentido derrogatório (ninguém se dizia "politicamente correto"!), funcionando como um rótulo sintético para uma série de tendências ultra-radicais observadas, inicialmente, nos meios escolares e universitários norte-americanos já nos anos de 1960 e 70, e que vinham na esteira da ideologia soixante-huitardista e da contra-cultura, com os seus bem conhecidos "ismos" (multiculturalismo, feminismo, pós-modernismo, pós-estruturalismo, desconstrucionismo etc.). Tratava-se, como observou Dinesh D'Souza, intelectual indo-americano e atual presidente do King's College de NYC, de uma verdadeira "revolução acadêmica" (D'Souza, Dinesh. 1991. Illiberal Education: the politics of race and sex on campus. New York: The Free Press. p. 2).

O pensamento PC combinava duas idéias básicas: do marxismo (em sua versão já frankfurtiana e gramsciana, ou seja, interessada no domínio da cultura), ele absorveu a idéia de que o mundo dividia-se em classes antagônicas, irredutivelmente rivais, e que eram elas os agentes fundamentais da história. A novidade era que, ao conceito de classe, dever-se-iam juntar os conceitos de gênero e raça. A história era não apenas a história da luta de classes (ricos vs. pobres), mas também da luta de raças (brancos vs. negros) e de gênero (homens vs. mulheres, héteros vs. gays). Do pragmatismo e do desconstrucionismo, o PC incorporou a noção de que não existe realidade para além da linguagem, com a consequente sugestão de que seria possível revolucionar a realidade (combater injustiças, por exemplo) por meio de uma revolução semântica: era preciso que os opressores, que até então haviam imposto à esfera da linguagem e da cultura os valores de sua classe/raça/gênero, fossem derrotados e substituídos pelos oprimidos, que, para tanto, deveriam impor novos padrões de fala e de comportamento.

Com isso, começaram a surgir as chamadas "políticas de identidade", segundo as quais as pessoas já não seriam mais classificadas como indivíduos, mas como representantes de determinada classe, raça ou gênero. A pergunta "quem é você?" já não deveria ser respondida com "eu sou fulano de tal" e ponto, mas com "eu sou fulano de tal, afro-americano, do sexo masculino" ou "eu sou sicrana, latina, do sexo feminino e lésbica" etc. Nas grades curriculares de escolas e universidades, surgiram disciplinas organizadas conforme raça ou gênero - "história afro-americana", "literatura homossexual" etc. -, ministradas como alternativa aos cursos tradicionais, considerados, a partir de então,  culturalmente colonialistas e tendenciosos em favor dos opressores. Muitas palavras também deveriam mudar, pois supostamente traduziam, em sua forma mesma, a supremacia do gênero/raça dominante. Nesse sentido, algumas feministas radicais chegaram a propor a substituição da palavra history por herstory: a história já não mais seria monopólio dele (o abominável macho, caucasiano e heterossexual), passando agora ser dela (a fêmea, de preferência não-caucasiana e, evidentemente, lésbica).

Nos EUA, na Inglaterra e na França, as críticas ao PC não demoraram a surgir. E, ao contrário do que ocorreu no Brasil, elas partiram inicialmente de intelectuais e acadêmicos, sobretudo do campo conservador, que se dedicaram a pesquisar seriamente o assunto e a refletir sobre suas consequências. O livro de Dinesh D'Souza mencionado há pouco tornou-se um best-seller, assim como um antecessor seu, The Closing of the America Mind, do filósofo classicista Allan Bloom (cf. Bloom, Allan. 1987. The Closing of the America Mind: How Higher Education has Failed Democracy and Impoverished the Souls of Today's Students. New York: Touchstone). Muitas obras vieram depois, dentre as quais eu destacaria Tenured Radicals: How Politics has Corrupted Our Higher Education, do crítico de arte Roger Kimball (Chicago: Ivan R. Dee, 1990). Na Inglaterra, temos The Retreat of Reason: Political correctness and the corruption of public debate in modern Britain, de David Conway e Anthony Browne (London: Civitas, 2006) e, na França, L'École des Barbares, de Françoise Thom e Isabelle Stal (Paris: Julliard, 1985), que está traduzida para o português

Além destes estudos mais direcionados, alguns pesos pesados do universo cultural anglófono, como a escritora Doris Lessing, por exemplo, dedicaram algumas linhas aos males do PC. No ensaio intitulado "Censorship", Lessing escreve:


"A mais poderosa tirania mental no que chamamos de mundo livre é o Politicamente Correto, que é tanto e imediatamente evidente, observado em toda parte, quanto invisível, qual um gás venenoso, pois suas influências estão frequentemente distantes da fonte originária, manifestando-se como uma intolerância generalizada" (Lessing, Doris. 2004. Time Bites: Views and Reviews. New York & London: Harper Collins. p. 76).

Para Lessing - autora, curiosamente, de The Golden Notebook, novela que, contra a sua vontade, tornou-se uma espécie de ícone do feminismo -, o Politicamente Correto é uma herança cultural do Comunismo soviético, com todo o seu conhecido aparato técnico de lavagem cerebral e polícia de pensamento, que os líderes comunistas utilizavam pari passu a formas mais tradicionais de censura:


"A submissão ao novo credo não teria se dado tão rápida e profundamente se a rigidez comunista não tivesse, por toda parte, permeado as classes letradas, pois não era preciso ser um comunista para absorver o imperativo de controlar e limitar: as mentalidades já haviam sido amplamente expostas à ideia de que o livre pensamento e as artes criativas deveriam submeter-se às altas autoridades da política" (ibid. p. 77).

A intuição da escritora vai na mesma direção de alguns argumentos literários célebres, como os de George Orwell, cuja distopia 1984 vislumbrava um mundo em que um mecanismo análogo ao PC era empregado pelo Partido totalitário Ingsoc para controlar a linguagem pública e, então, progressivamente, o pensamento das pessoas. O Estado utilizando o PC para seus próprios fins: eis o cenário tenebroso descrito por Orwell. E, como sugeriu o poeta e dramaturgo austríaco Hugo von Hofmannsthal, nada surge na realidade política se não surgiu, antes, na literatura.

O Fundamento Ético das Críticas

Todas as críticas ao PC acima mencionadas têm algo em comum: elas lidam com as implicações daquela ideologia no terreno da Ética. Baseados nas transformações radicais que vinham observando, aqueles autores sugeriam que o PC, não obstante as possíveis boas intenções de alguns de seus propositores, promoviam, na prática, uma série de injustiças e distorções de valor. Nos EUA, em particular, o PC parecia romper brutalmente com a tradição do movimento pelos direitos civis. Enquanto, num momento em que os negros eram espancados e mortos por racistas brancos em diversas cidades norte-americanas, Martin Luther King falara de valores universais, de anti-racialismo e de fraternidade - fazendo valer o célebre princípio constitucional de 1776, segundo o qual "all men are created equal" -, o PC investia na divisão racial, no conflito e na segmentação. E pior: tudo feito de maneira histriônica e irrefletida, num clima de acirramento de tensões e "caça às bruxas". Citando Doris Lessing mais uma vez, pode-se dizer que o PC foi o instrumento de "histéricos políticos, que fizeram dele um novo dogma".

E as injustiças causadas pela difusão do PC não tardaram a aparecer. Como bem documentam os livros de Bloom, D'Souza e Kimball, as escolas e universidades americanas passaram a adotar o critério do "dois pesos, duas medidas". Alunos negros, ou hispânicos, por exemplo, começaram a ser premiados com uma série de privilégios, tais como o de serem aprovados com notas inferiores às de alunos brancos e asiáticos, e receberem incentivos financeiros por seu desempenho acadêmico, incentivos vedados, por sua vez, aos demais alunos. 

Mas injustiças politicamente corretas não se restringem aos EUA. Na Inglaterra, não faz muito tempo, um estudo oficial revelou que diversas escolas estão banindo o tema do Holocausto das aulas de história, com receio de ofender os alunos muçulmanos, cujo corpo de crenças incluiria a negação daquele episódio histórico (ver aqui). Não poderia haver exemplo mais claro das distorções éticas e inversões de valores que o PC é capaz de promover: a eventual e absurda suscetibilidade de uma determinada comunidade étnico-religiosa passa a ser um valor mais elevado do que a verdade histórica, o direito à informação dos demais alunos e, por último, mas não menos importante, o direito dos alunos judeus de conhecer uma parte importante da história de seus antepassados.

O pensamento PC é, portanto, uma cópia de segunda mão, pois que meramente formal, seletiva e talhada para a ostentação pública, do autêntico senso de justiça. Quando as pessoas passam a abdicar de um juízo responsável sobre a realidade, abandonando o tribunal íntimo e inviolável de sua consciência e passando a adotar critérios político-ideológicos para a avaliação do Bem e do Mal, do Certo e do Errado, elas estão no caminho de se tornarem PCs. Entre elas e suas consciências, anteporão um palanque mental de onde não mais saberão descer. 

O PC, que nada mais é, portanto, do que uma corrupção político-ideológica da Ética, julga conforme categorias ideais previamente definidas como "culpadas" ou "inocentes", e não de acordo com a realidade observável. Assim, se alguém classificado de antemão como "inocente" comete alguma injustiça ou violência contra alguém classificado como "culpado", a rigidez interpretativa PC não permite a seus adeptos abandonar o critério. Deste modo, "oprimidos" serão sempre "oprimidos", mesmo quando eles próprios oprimem; e "opressores" serão sempre "opressores", mesmo quando vítimas de opressão. Racistas não são aqueles que cometem racismo, mas aqueles que pertencem a uma dada e imutável categoria de classe/raça/gênero. Agressores não são aqueles que cometem agressão, mas sim aqueles que, antecipada e inexoravelmente, foram incluídos na categoria dos "agressores" pelo pensamento PC. Um negro que discrimine racialmente um branco, por exemplo, não é racista, como o seria um branco que discriminasse um negro. Isso não é nenhum exagero. Adeptos do PC, incluindo  ministros e chefes de Estado, dizem essas coisas e agem o tempo todo com base nesse critério (ver um exemplo). E, quanto mais reproduzem essa mímica grotesca do senso usual de justiça, mais convictos estão da bondade de suas almas, e mais histéricos bradam aos quatro ventos a absoluta urgência da adoção do novo critério. Em transe, com os olhos vidrados de um êxtase quase religioso, os PCs avançam sobre os seus críticos, classificados naturalmente, pela própria lógica fácil do esquematismo mental, como inimigos da Justiça e do Bem. É justamente por ser uma patologia social que opera no terreno da Ética - e não por qualquer outra razão - que o PC foi atacado por seus críticos euro-americanos. Ou seja, mais do que uma simples implicância ou rabugice, a crítica ao PC era movida por razões sérias, ainda que pudessem, eventualmente, ser tratadas com humor.


O Problema do Estetismo no Brasil: Luiz Felipe Pondé e o PC

Já no Brasil a coisa foi bem diferente. Quanto mais o tempo passa, mais parece dar razão aos diagnósticos dos filósofos e diplomatas Mário Vieira de Mello e José Osvaldo de Meira Penna, que classificaram a mentalidade brasileira, respectivamente, de "estetista" e "lúdica". Vieira de Mello, em particular, alertava especificamente, já em 1963, para a incapacidade da Intelligentsia brasileira em lidar com discussões filosóficas no campo da Ética, e a tendência a deslocar qualquer dicotomia de tipo Certo vs. Errado (ou Bem vs. Mal) para dicotomias de tipo Gosto vs. Não Gosto (ou Bonito vs. Feio). No que se refere ao PC, a dimensão ética da coisa passou a léguas de distâncias dos debates públicos brasileiros. Quando criticado, o PC o foi numa clave essencialmente estética, sendo que os adjetivos mais usualmente associados a ele por seus detratores foram "chato" e "brega". Mais do que injusto, perigoso ou moralmente absurdo, tudo o que se conseguiu dizer de negativo sobre o PC aqui no Brasil foi que ele era de mau gosto e démodé.

O filósofo Luiz Felipe Pondé - autor do Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - é um dos raros intelectuais que têm tentado, de modo mais sistemático, questionar a influência do PC no debate público nacional, e é preciso reconhecer-lhe esse mérito, como também o mérito de denunciar a hegemonia do pensamento de esquerda - cada vez mais militante - no ambiente universitário. Nesse sentido, o autor tem escrito coisas interessantes, e mesmo necessárias, num ambiente de pensamento único como o que estamos vivendo. (Faço a ressalva de que desconheço o trabalho mais acadêmico de Pondé, e limito-me aqui a tecer considerações sobre sua atuação como debatedor público). 

Não obstante a sua louvável iniciativa, contudo, parece-me que, em parte por características intelectuais particulares, em parte pelas exigências do meio, Pondé mal tem arranhado a superfície da dimensão ética pertinente ao tema. Suas críticas igualmente privilegiam o aspecto estético, e o próprio filósofo já o reconheceu abertamente numa entrevista (ver aqui). Certamente pela necessidade de chamar atenção para o debate que pretendia iniciar, mas também por uma questão de estilo pessoal, Pondé adotou o tipo de personalidade tão apreciada pela classe falante brasileira: irreverente, histriônica, iconoclástica (ao menos na aparência), tropicalista, rodrigueana (em versão arnaldojaborizada). Ele costuma abusar, então, das frases de efeito, boutades e tiradas sobre a sexualidade humana, conseguindo adentrar num campo cultural mais amplo, e tornando-se uma espécie de Gláuber Rocha da filosofia. E a verdade é que sem essas credenciais, por assim dizer, dionisíacas, dificilmente uma pessoa consegue ingressar na high society artística e intelectual brasileira, onde ser acusado de "careta" por Caetano Veloso ou Arnaldo Jabor equivale a uma sentença de morte pública. (Se Kant vivesse no Brasil,  com sua timidez e seu estilo monótono de vida, ele jamais seria consultado sobre nada, nem mesmo sobre filosofia. Os brasileiros teriam preferido mesmo é o Tom Zé).

Logo, menos por culpa sua do que por uma característica das 'elites culturais' no Brasil, Pondé tornou-se "polêmico", coisa muito fácil hoje em dia, tendo em vista o provincianismo intelectual de nossos formadores de opinião e a espantosa homogeneidade de seu discurso. Quando contaram ao pobre soldado japonês Hiroo Onoda que a Segunda Guerra terminara havia já 30 anos, ele também julgou a informação "polêmica".

Assumindo a imagem do intelectual público brasileiro por excelência - aquele que não vai à praia, mas bebe, fala de sexo e polemiza (ler e estudar, é claro, são secundários como parte daquela imagem!) - Pondé até consegue agradar muitos jornalistas e ser ouvido, mas apenas na condição de entertainer. A jornalista Marília Gabriela, por exemplo, confessa adorar o filósofo, que sempre lhe proporciona boas risadas (ver aqui). Exemplificando bem o "estetismo" de que nos fala Viera de Mello, a jornalista mostrou-se encantada com uma expressão cunhada por Pondé, menos por ter compreendido seu significado, e mais por tê-la achado "bonita" (ver aqui). E Pondé parece dominar a técnica de como deixar felizes Marília Gabriela e outros jornalistas enfadados com o PC. 

No entanto, quando ele se depara com jornalistas dispostos a defender o (e se esconder por trás do) PC, suas respostas estetistas soam fracas e evasivas. Quando entrevistado no programa Roda Viva, por exemplo, Pondé deparou-se precisamente com alguns jornalistas daquele tipo, que operam no terreno da ética, ainda que, em seu caso, trate-se da pseudo-ética farisaica manifesta no PC. Diante daquelas expressões faciais distorcidas por um misto de indignação de palanque com perplexidade sardônica, não basta dizer que o PC é brega ou enfadonho. Fosse apenas isso, tratar-se-ia de uma questão de gosto e, como se costuma dizer, gosto não se discute. Naquele tipo de circunstância na qual Pondé se encontrava, seria preciso, antes de mais nada, remover a máscara política do interlocutor, revelando o lobo por baixo da pele de cordeiro e dissolvendo sua auto-imagem de monopolista da virtude. Mais uma vez, o PC é pernicioso não por ferir o bom gosto, mas por ser intrinsecamente injusto e capaz de promover trágicos efeitos. Seus entusiastas não devem ser cobrados numa chave estética, mas numa chave ética. Seu problema não é o de serem bregas ou chatos, mas inconsequentes e irresponsáveis, tentando suprir com voluntarismo moralista as exigências de uma consciência madura.


Consequências Nefastas do Racialismo PC nos EUA

Nos EUA, as consequências nefastas do PC na questão racial começam a se fazer sentir de maneira dramática. No seu mais recente livro, intitulado White Girl Bleed a Lot: The Return of Race Riots to America and How the Media Ignore It (North Charleston: CreateSpace, 2012), o escritor Colin Flaherty elenca e analisa a ocorrência de centenas de ataques perpetrados por turbas de jovens negros contra pessoas quase sempre brancas ou asiáticas em várias cidades norte-americanas nos últimos dois anos. Contrastando vídeos enviados ao YouTube e depoimentos de vítimas com a cobertura jornalística e o discurso oficial das autoridades, Colin denuncia a ocultação deliberada do componente racial por parte da mídia e do poder público. Para uma sociedade tão marcadamente racializada, na qual fala-se o tempo todo em "história negra", "música negra", "arte negra", "literatura negra", "presidente negro" etc., parece que a única entidade interdita pelos meios de comunicação é o crime racial cometido por negros. Esse é tabu. Como sugeriu o brilhante intelectual negro Thomas Sowell, "não seria politicamente correto ou politicamente conveniente em ano eleitoral" noticiar aquele tipo de racismo (ver aqui). Outro intelectual negro, o economista Walter Williams, vai mais longe, sugerindo que os negros estão se tornando, de fato, "os novos racistas da America" (ver aqui). E, no entanto, a imprensa PC continua agindo como se estivéssemos em pleno Mississipi da década de 1930.

O título do livro de Flaherty - "A garota branca sangra muito" - refere-se ao comentário feito por uma jovem negra instantes após agredir uma menina branca no rosto, em Milwaukee, num ataque gratuito promovido por cerca de 100 jovens negros contra adolescentes brancos que faziam um piquenique durante o feriado de 4 de Julho (ver aqui). O padrão se repetia em todas as partes: na Filadélfia, em Chicago, em Nova Iorque, em Miami, em Las Vegas etc., jovens negros reuniam-se para espancar, roubar, esfaquear, estuprar pessoas inocentes, apenas por serem brancas. Em 2010, no Skidmore College, em Nova Iorque, quatro estudantes negros berravam insultos raciais enquanto espancavam um homem branco, por ele estar jantando com um homem negro (ver aqui). Em Denver, em 2009, um grupo de cerca de 30 jovens negros atacou, num período de 5 meses, vários homens brancos e latinos, que eram aleatória e gratuitamente agredidos na cabeça, ofendidos e roubados (ver aqui e aqui).  Em São Francisco, cinco negros espancaram até a morte um idoso chinês de 83 anos. Depois disso, ainda empurraram uma mulher de uma plataforma de trem (ver aqui). Em Des Moines (Iowa), durante a Feira Estadual de 2010, pessoas de pele clara foram covardemente agredidas, naquilo que, segundo registros policiais, os agressores chamaram jocosamente de "Beat Whitey Night", ou "noite de espancar os branquelos" (ver aqui e aqui). Outra vez em Milwaukee, depois que dezenas de jovens negros tentaram arrombar a porta do seu carro, uma vítima relatou a um jornal local: "Eles estavam atacando sem motivo. Foi 100% racial. Havia um carro com um casal negro ao meu lado, e estes garotos não fizeram nada com eles. Eles olhavam pelo para-brisa para ver quem era branco e quem era negro. Posso garantir" (ver aqui). E esses são apenas uns poucos exemplos colhidos entre centenas de ocorrências.

Mas um caso particularmente revelador da lógica perversa do PC se deu numa escola de ensino médio da Filadélfia. Depois de anos de leniência por parte da direção de uma escola diante dos insultos racistas, agressões e humilhações diárias impostas por jovens negros a estudantes asiáticos, o esperado aconteceu. Em Dezembro de 2009, uma multidão de alunos negros agrediu violentamente um grupo de 30 alunos asiáticos, mandando 13 deles para o hospital, alguns em estado grave. Somente após a coisa ter chegada a esse ponto, os alunos asiáticos finalmente se revoltaram e decidiram organizar uma greve. A coisa chegou aos jornais locais. Funcionários da escola negaram o componente racial das agressões e, veladamente, culparam os estudantes asiáticos. A CEO da escola, Arlene Ackerman (ela própria negra), chegou a sugerir, sem quaisquer evidências para tanto, que os ataques fossem talvez uma resposta a agressões anteriores promovidas por asiáticos contra negros e que, portanto, não seria justo responsabilizar apenas uma raça. Além disso, disse a diretora, ela não gostaria de "criminalizar" daquela maneira pessoas tão jovens (ver aqui).

Os estudantes asiáticos reportaram que funcionários da escola faziam vista grossa e, por vezes, até mesmo participavam do assédio moral que precedia a violência. A diretora LaGreta Brown foi citada por atitudes discriminatórias, em particular por se referir às pretensões jurídicas dos asiáticos como "A Agenda Asiática". Os alunos contaram que os seguranças da escola nunca fizeram nada para impedir as agressões. Alguns, inclusive, faziam troça da dificuldade dos asiáticos recém-chegados em aprender o idioma: "Ei, China! Dragon Ball! Você é o Bruce Lee? Aprenda a falar inglês" (ver aqui).

Diante do caso, a Direção da escola resolveu abrir uma investigação por conta própria. Para conduzir o processo, foi contratado o juiz federal aposentado James Giles (negro), o qual afirmou que limitaria a investigação a um período de não mais que dois dias antes do ataque, pois se retrocedesse mais, esse foi o argumento, isso poderia gerar problemas e conflitos no presente (ver aqui). Nada mais disse e nem mais nada lhe foi perguntado. Mas os advogados dos estudantes asiáticos questionaram a acuidade e legitimidade do relatório final. Segundo eles, o relatório tinha um escopo "estranhamente limitado", ignorando um longo histórico de violência racial de negros contra asiáticos na escola. O Departamento de Justiça, enfim, entrou no caso, dando razão às alegações dos advogados dos alunos asiáticos, e concluindo que, de fato, a escola vinha ignorando aquele histórico.

Mas o pior veio depois. Já não podendo negar a gravidade do caso, a escola teve uma brilhante idéia, que revela bem a que níveis de abjeção moral pode conduzir a ideologia PC. Para solucionar o problema da violência racial de negros contra asiáticos, a Direção da escola achou por bem distribuir panfletos - pasmem! - aos estudantes asiáticos, instruindo-os a como evitar antagonizar seus colegas negros com utilização de vocabulário racista. O título do panfleto? Staying Safe, "mantendo-se seguro". Informa uma reportagem sobre o evento:


"Os líderes [comunitários] distribuíram uma lista de insultos racistas e disseram aos estudantes: é errado! E vocês precisam saber que insultos raciais podem evoluir rápida e violentamente. Imigrantes podem ser muito limitados no inglês para reconhecer uma linguagem racista - e o perigo que ela pode representar" (ver aqui).

Em suma: quem mandou não saber inglês e irritar os pobres alunos afro-americanos, que, diante de tal crueldade, não tiveram outra alternativa que não a de espancar covardemente os asiáticos racistas? A inversão entre vítimas e agressores aí é por demais patente para que fosse preciso insistir nela. Menos, é claro, para um intelectual PC. E, nessas horas, sempre aparece um.

O sociólogo Elijah Anderson, de Yale, foi convidado para explicar todo o caso. "A escola talvez seja imaginada como uma espécie de feudo negro por alguns estudantes afro-americanos", disse o especialista em convivência urbana. "Os intrusos - no caso, os asiáticos - podem ser intimados a responder por qualquer mau passo dado nessa situação. Você tem aí o preconceito racial se desenvolvendo como um senso de posição grupal, um apelo ao direito de propriedade sobre áreas do feudo".

Anderson, que frequentemente utiliza Filadelfianos em suas pesquisas, acredita que as tensões escolares dizem respeito a questões de dominação. "É uma coisa humana", ele continua. "Podem ser os asiáticos os excluídos. Podem ser os negros. Podem ser brancos, italianos, judeus ou o que for, compreende? Isso não se restringe a asiáticos e negros" (ver aqui). Trata-se de uma tese muito interessante. Só faltou o sociólogo nos brindar com alguma notícia sobre turbas de asiáticos, judeus ou italianos espancando negros nas escolas norte-americanas nos últimos anos.

Qualquer mentalidade sadia, não intoxicada pelo PC, seria capaz de enxergar a aberração ética cometida contra os asiáticos naquele caso. Um blogueiro negro da Filadélfia disse-o muito bem:


"É chegada a hora em que nós, afro-americanos, não podemos mais fazer ouvidos de mercador diante desse tipo de história, negando-a ou silenciando sobre ela. Todos sabemos que Al & Jesse [Al Sharpton e Jesse Jackson] sairiam por aí feito loucos se estudantes asiáticos, brancos ou de qualquer outra cor estivessem atacando afro-americanos e gritando epítetos raciais. No entanto, o silêncio deles é ensurdecedor quando se trata de um caso como esse, e isso é injustificável. Não há desculpa, e esses jovens estão sendo mal-encaminhados graças à nossa falha coletiva em condenar esse tipo de comportamento" (ver aqui).

O blogueiro tocou no ponto central: o racialismo PC é, sem sombra de dúvida, uma das principais causas para o comportamento agressivo, irresponsável e auto-indulgente de muitos jovens negros nos EUA. Evidentemente, essa causa nunca é cogitada, pois os luminares do PC jamais assumiriam sua parcela de responsabilidade no caos social gerado por suas brilhantes ideias e ações. Por que o fariam, se é muito mais fácil e rentável condenar o sistema capitalista? Como dissemos antes, o PC produz uma divisão estanque, alienada e distorcida entre "culpados" e "inocentes". No caso da escola da Filadélfia, a coisa ficou cristalina: os negros são inimputáveis. Mesmo quando cometem violência racial, não são os verdadeiros culpados.


O PC e o Incentivo à "Luta de Raças"

Mas os adeptos do racialismo PC não costumam pecar apenas por omissão. Eles também pecam pela ação, como quando incitam sem pudor o ódio e a violência raciais. Vejamos dois exemplos.

Em fevereiro de 2012, na Flórida, houve o caso do adolescente negro Trayvon Martin, morto pelo vigia George Zimmerman, de origem hispânica. Martin usava um capuz, o que despertou a suspeita de Zimmerman, que o seguiu e, após entrar em confronto corporal com o adolescente, acabou assassinando-o.

Antes mesmo que as investigações tivessem início, e num flagrante contraste em relação aos mencionados crimes cometidos por jovens negros, o incidente foi, neste caso, interpretado pela grande imprensa norte-americana como manifestação evidente de racismo. Personalidades, artistas e políticos - entre eles, é claro, Al Sharpton (que, atualmente, virou uma espécie de conselheiro da Casa Branca para assuntos raciais) e Jesse Jackson, como o blogueiro acima citado antecipara - mobilizaram-se de maneira impressionante, promovendo uma autêntica tempestade em copo d'água. O congressista Bobby Rush, em plena sessão legislativa, vestiu um capuz em referência a Trayvon Martin, e o capuz virou, então, um poderoso símbolo da mobilização pelo combate ao racismo contra os negros nos EUA (ver aqui). Como bom político demagogo, o presidente Barack Obama não podia deixar de capitalizar politicamente sobre o ocorrido. "Se eu tivesse um filho, ele seria como Trayvon", disse o presidente (ver aqui). De uma hora para outra, graças a uma espécie de histeria coletiva muito bem induzida pela imprensa, pelo show business e pela Presidência da República, o imigrante hispânico George Zimmerman foi subitamente convertido num símbolo da supremacia branca nos EUA.

A versão que se pretendia veicular - e que até hoje é aceita sem ressalvas pelos órgãos de imprensa no Brasil - era que Zimmerman suspeitou de Trayvon por ele ser negro. Segundo o jornal O Globo, por exemplo, "Zimmerman, branco, que ocupava a função de vigia voluntário de um bairro, considerou-o suspeito e atirou" (ver aqui). Nossos jornalistas, encharcados de PC até a medula, embarcaram docemente na versão do crime com motivações racistas. Ocorre que aquela versão já foi completamente desacreditada nos EUA, e o próprio fato de Zimmerman ter sido processado por homicídio de segundo grau (ou seja, não premeditado) o comprova. A versão foi desacreditada graças a uma série de eventos que ocorreram entre a suspeita de Zimmerman e o tiro fatal que vitimou Martin.

Antes de resolver seguir o adolescente, Zimmerman telefonou para o número de emergência 911 e falou com um policial. No decorrer da ligação, travou-se o seguinte diálogo:


"ZIMMERMAN: Esse cara não parece estar bem intencionado. Ou está drogado ou algo do tipo. Está chovendo e ele fica só perambulando, como se procurasse alguma coisa. 
POLICIAL: Certo. E esse sujeito - ele é negro, branco ou hispânico?
ZIMMERMAN: Parece ser negro" (ouvir aqui).

De posse da gravação, a rede de televisão NBC decidiu editar o trecho, e a edição acabou sendo o estopim do barril de pólvora racial que explodiu na sequência. Na versão da NBC, a fala de Zimmerman se transformou em: 


"Esse cara não parece estar bem intencionado (...) Parece ser negro" (ver aqui).

Fica claro que, originalmente, o aspecto racial não havia sido introduzido por Zimmerman, mas pelo policial. No entanto, a NBC não hesitou em fazer de Zimmerman um racista, introduzindo, de maneira artificial e espúria, um sério agravante ao crime por ele cometido. 

Após a farsa ter sido revelada, a NBC emitiu uma nota de desculpas, qualificando o caso, mui convenientemente, de mero "erro de produção" (ver aqui). Mas, àquela altura, a irresponsabilidade criminosa da emissora já havia produzido um estrago. Os PCs ficaram histéricos e fizeram do incidente um cavalo de batalha. (Nesse momento, o leitor poderia sentir-se tentado a perguntar: mas e o jornal O Globo, terá ele publicado a falsificação e o pedido de desculpas da NBC? E a resposta deveria ser óbvia para aqueles que conhecem minimamente o ambiente cultural em que estamos vivendo).

Mas, além da ligação para o 911, um outro evento determinante ocorreu antes que o vigia atirasse em Trayvon Martin. Desde o início do processo, o acusado alegou legítima defesa. Zimmerman contou que levava a pior na briga com Martin, que, maior e mais forte, chegou a bater com a sua cabeça sucessivas vezes contra o meio fio. 

A versão de Zimmerman foi logo desacreditada, ainda mais depois de divulgado um vídeo em que o vigia, logo após ser preso, não apresentava ferimentos aparentes (ver aqui). Mais uma vez, as imagens serviram de estímulo à sanha racialista dos formadores de opinião. E o clima de tensão racial só foi se intensificando, sob os auspícios da mídia e do próprio governo. Militantes do grupo ultra-esquerdista e racista Panteras Negras - que, surgido nos anos 60, havia sido extinto em 1982, mas acabou sendo revigorado recentemente - chegaram a oferecer uma recompensa de US$ 10 mil pela captura de Zimmerman. Mikhail Muhammad, líder do grupo, avisou que formaria uma milícia de milhares de negros para encontrar o vigia e ainda anunciou: "É olho por olho, dente por dente" (ver aqui).

Alguns dias depois, foram divulgadas novas imagens, que mostravam nitidamente os ferimentos na parte de trás da cabeça de Zimmerman, que teve também o nariz quebrado na briga com Martin. Testemunhas ouvidas confirmaram a versão de Zimmerman. Por fim, um relatório médico comprovou o nariz quebrado, os cortes na cabeça e hematomas nos olhos (ver aqui). Dessa vez, ainda que com muito atraso, até O Globo deu a notícia, embora continuasse omitindo o papel da fraude da NBC na construção da hipótese de motivação racial para o crime. Apegada passionalmente à tese do crime racial, a edição do jornal não deu o braço a torcer: "Mesmo com os novos indícios, ainda não se sabe exatamente o que ocorreu e se o crime teve motivação racial, como argumentam a família do garoto e organizações americanas" (ver aqui). Mas, ao contrário do que diz O Globo, já se sabe exatamente o que aconteceu. George Zimmerman suspeitou do adolescente encapuzado, seguiu-o e, após ter entrado em confronto corporal com ele, matou-o com um tiro no peito. 

É evidente que Zimmerman deve ser punido pelo crime que cometeu. Foi ele quem seguiu Martin e foi ele quem provocou a briga. Foi ele quem, finalmente, acabou matando Martin, uma pessoa inocente até prova em contrário. Mas Zimmerman não deve ser punido pelo crime que não cometeu - o crime de racismo. Não há nenhuma evidência que indique ser Zimmerman um supremacista branco, um caçador de negros, um herdeiro da Klu Klux Kan. A histeria racial em torno do caso foi deliberadamente produzida por pessoas irresponsáveis, incluindo profissionais de imprensa, artistas, políticos e o próprio presidente dos EUA. Zimmerman talvez seja condenado por homicídio [nota posterior: ele foi absolvido, tendo sido aceita a tese de legítima defesa]. Mas a pergunta que fica é: e pelo incitamento explícito à tensão racial, alguém será punido? Tal incitamento, acrescente-se, não se dá apenas em casos de grande repercussão pública, como o de Treyvon Martin. Ele tem sido uma rotina silenciosa nas escolas e universidades norte-americanas. 

Todos no Brasil hão de lembrar do adolescente sul-coreano Cho Seung-hui, que, em abril de 2007, matou 32 pessoas e feriu outras 25 no Instituto Politécnico da Virgínia (mais conhecido como Virginia Tech), em Blacksburg, Virgínia (EUA). Passada a tragédia, o estado de choque inicial deu lugar à tradicional busca por explicações que se segue a casos desse tipo. Quem era Cho Seung-hui? O que pode tê-lo levado a praticar aquela monstruosidade? Teria sido possível, antes da chacina, perceber indícios da mente perturbada do adolescente? 

Naquele contexto, foram divulgadas peças teatrais escritas por Cho para suas aulas de inglês (ver aqui). O conteúdo das peças era perturbador. Uma mãe brandindo uma serra elétrica, um garoto tentando assassinar seu padrasto por meio de uma barra de cereal empurrada em sua garganta, adolescentes imaginando como matar o professor que os havia estuprado... Esses eram alguns dos bizarros personagens criados por Cho. Depois da divulgação do material, muitos questionamentos surgiram sobre o porquê da escola não ter percebido, já naquele momento, a existência de um distúrbio psíquico grave naquele seu aluno (ver aqui).

Todos no Brasil, dizia eu, se lembram de Cho Seung-hui. Mas quase ninguém se lembra de Nikki Giovanni, professora de Cho na Virginia Tech. Por ser uma das mais respeitadas professoras de Literatura Inglesa da escola, Giovanni foi escolhida para proferir o discurso em homenagem aos mortos na tragédia. "Nós somos a Virginia Tech!", disse a professora diante de uma plateia emocionada.

Além de professora de inglês, Nikki Giovanni é poetisa e ativista radical do movimento negro. No antebraço esquerdo, ela tem uma tatuagem com os dizeres "Thug Life" ("vida bandida"), feita em homenagem ao rapper Tupac Shakur - a quem Giovanni chama carinhosamente de "Pac" -, assassinado por outros rappers num tiroteio em 1997 (ver aqui e aqui). Para Giovanni, Tupac Shakur - um delinquente morto por outros delinquentes num conflito envolvendo alguma delinquência - é um mártir, no mesmo nível de um Martin Luther King ou um Emmett Till. Em muitos de seus poemas, a professora de Cho se dedica a incitar o ódio racial contra brancos, judeus e protestantes. Num deles, intitulado The True Import of Present Dialog, Black vs. Negro, lê-se o seguinte: 

"Não temos de provar que somos capazes de morrer. Temos de provar que somos capazes de matar (...) Crioulo [nigger], você sabe matar? Você sabe matar um branquelo [honkie], crioulo? (...) Você sabe derramar sangue? É capaz de envenenar? Sabe esfaquear um judeu? Sabe matar, hein? (...) Você sabe atropelar um protestante com o seu El Dorado 68? (...) Você sabe urinar numa cabeça loira? Sabe cortá-la fora?..." (ver aqui).

O estilo é curiosamente parecido com aquele utilizado por Cho Seung-hui na fala de um de seus atormentados personagens: "Devo matar Dick. Devo matar Dick. Dick deve morrer. Matar Dick (...) Você acha que eu não sei matá-lo, Dick?" (ver aqui). Num outro poema, Nikki Giovanni celebra o espírito revolucionário, imaginando um kit para crianças - chamado Burn Baby -, que as ensinasse a montar um coquetel Molotov. Noutro ainda, a poetisa abre o coração: "E ocorreu-me que talvez eu não deva mais escrever, mas limpar minha arma e conferir meu estoque de querosene".

No artigo "A professora de ódio da Virginia Tech" (ver aqui), o jornalista Steve Sailer analisa aqueles e outros escritos de Nikki Giovanni, esmiuçando o seu background ideológico. Comentando o artigo de Sailer, um leitor observou com muita perspicácia: "Fico me perguntando quantas vezes Cho-Seung-hui ouviu na Virginia Tech a expressão 'privilégio branco'?". É difícil saber ao certo, mas uma rápida consulta no website da escola revela que, só ali, a expressão aparece mais de 90 vezes (ver aqui).

Uma Conclusão Inevitável

Como imaginar que professores com esse tipo de radicalismo ideológico, espalhados pelas escolas dos EUA, não tenham nenhuma responsabilidade sobre o ódio anti-branco que motivou Cho-Seung-hui e motiva outros jovens a cometer atos de violência? É claro que os poemas de Nikki Giovanni não podem ser tomados como causa imediata dos atos do adolescente sul-coreano, um caso evidente de distúrbio mental. Mas é claro também que o perturbado adolescente encontrou nesse tipo de discurso um combustível a mais para o seu ódio insano. Como escreveu o filósofo Olavo de Carvalho sobre o caso, "enfie todo esse ódio na mente de um maluco e ele só não sairá matando gente se estiver dopado" (ver aqui). 

Se a ideologia radical de Giovanni e seus pares não tem nada a ver com o caso, muito menos o teriam o sistema capitalista, Wall Street, o "privilégio branco", o comércio de armas ou o Tea Party, tradicionais bodes-expiatórios citados por ocasião de tragédias como a de Virginia Tech e outros casos de violência urbana. A relação de causa e efeito é muito mais direta no primeiro caso do que no segundo. É bem mais difícil conceber a violência racial negra descrita no livro de Colin Flaherty como reação às injustiças sociais do capitalismo do que como resposta positiva aos apelos poéticos de Nikki Giovanni. "Vocês sabem matar um branquelo, hein?" - e os jovens agressores negros respondem: "Sim, professora, sabemos". A mestra, orgulhosa, já pode lhes dar nota 10!

É esse racialismo "do bem", com seu padrão ético de "dois pesos, duas medidas", que muitos PC brasileiros querem implementar definitivamente no país. E é por isso que, tão acostumados a acusar e apontar o dedo para os males do mundo, eles devem ser cobrados frontalmente pelas eventuais injustiças e violência decorrentes de seus belos ideais. Mesmo os bem-intencionados dentre eles deveriam aprender que a simples vontade não faz de ninguém uma pessoa justa. Vimos nos exemplos arrolados ao longo deste post a que ponto a ideologia pode corromper o senso de justiça. Como bem disse William Blake no poema The Everlasting Gospel, "And Caiphas was in his own mind/A benefactor to mankind".

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Pós-Escrito (em 27/07/2012): O pensamento PC é mesmo muito previsível. Quando eu citei o Tea Party entre os bodes-expiatórios preferidos por ocasião de tragédias como as de Virginia Tech, parecia estar adivinhando. Não é que a ABC News arrumou uma maneira de ligar o Tea Party à última tragédia no Colorado, em que um maluco matou 12 pessoas e feriu 58 numa sessão de cinema? (ver aqui). Depois, é claro, com sorriso amarelo, teve de pedir desculpas pela irresponsabilidade (ver aqui).

Das Virtudes e Vícios do Ceticismo

Em maio de 2012, o autor destas linhas frequentava um curso preparatório para o difícil e concorrido concurso do Itamaraty. Faziam três...