A razão e o título deste blog

Este blog nasceu da constatação de que o Brasil, alinhado com outros países da América Latina, vem numa escalada vigorosa rumo ao totalitarismo. É possível perceber, nas mais diferentes esferas, indícios de que estamos próximos – se é que já não chegamos lá – de viver em pleno 1984, de George Orwell. Orwell, aliás, foi um dos primeiros a perceber que toda revolução totalitária é precedida por uma revolução semântica, e esse é um dos temas centrais do presente blog.

Creio que o Brasil está passando por um processo de deturpação da linguagem pública, especialmente política. Tal deturpação cria uma camada semântica protetora, bloqueando o acesso à realidade, e impossibilitando sua correta expressão. É como se tivéssemos passado ao largo das bases fundamentais do pensamento ocidental, ignorando a criação da filosofia e ciência política por Sócrates, Platão e Aristóteles. Como se estes pensadores nunca tivessem existido para além de pequenos círculos de estudiosos, o Brasil parece ter adotado o paradigma sofista, onde a retórica e o consenso público - reforçado hoje pela "rebelião das massas", no sentido de Ortega y Gasset - eram mais importantes do que a verdade. Como dizia outro autor que admiro muito, o filósofo político Eric Voegelin, o totalitarismo é menos um fenômeno político e mais um fenômeno pneumopatológico, ou seja, uma doença do espírito. Ele começa na mente doentia de alguns guias espirituais e líderes políticos e, daí, quando não encontra uma reação firme e pronta, se espalha para toda a sociedade. Como mostrou Voegelin no magistral “Hitler e os Alemães”, isso foi o que aconteceu na Alemanha, por exemplo, permitindo a ascensão do nazismo. A sociedade alemã, na época, não teve a coragem de perceber a extensão do problema, nem tampouco possuía meios de descrevê-lo corretamente. Mutatis Mutandis, creio que algo semelhante ocorre no Brasil. Os grandes responsáveis por isso são, a meu ver, os formadores de opinião: imprensa, comentaristas políticos, artistas, intelectuais.

O fato é que a sociedade brasileira está cada vez mais suscetível a todo tipo de totalitarismo, e o domínio que o atual governo exerce sobre diversos domínios sociais - chegando mesmo a impor um quadro de referências e linguagem permitido - é um claro sinal. Este blog pretende reunir amostras que nos ajudem a compreender como o Brasil e o Universo puderam se distanciar tanto...

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O animismo fetichista de nossos desarmamentistas

Em antropologia social, o termo animismo (do latim anima, "alma", "vida") - cunhado no século XIX por Sir Edward Tylor no livro Primitive Culture (1871) - qualifica a crença, comum a muitos povos 'primitivos', segundo a qual a posse de uma 'alma' não se restringe à espécie humana, observando-se também em animais, plantas, rochas, árvores, rios, fenômenos metereológicos e até mesmo em artefatos manufaturados. Em outras palavras, o animismo é a crença de que a condição humana (subjetividade, intencionalidade, inteligência, razão, desejo etc.) não é exclusividade da espécie humana.

Desde Tylor, e ao longo de muito tempo, o animismo foi considerado uma forma arcaica ou primitiva de religião. Dentro do paradigma evolucionista dominante na virada do século XIX para o XX, acreditava-se que ele seria uma característica de culturas 'atrasadas' (nativos das Américas, aborígenas australianos, tribos africanas etc.). Nesse contexto, o médico e antropólogo Nina Rodrigues escreveu O Animismo Fetichista dos Negros Baianos (1900), a primeira monografia significativa sobre as religiões afro-brasileiras. 

Adepto do darwinismo social e do racismo científico comuns à elite intelectual de sua época, Nina Rodrigues apontava a crença em fetiches (objetos supostamente dotados de poderes mágicos e sobrenaturais), característica das religiões afro-brasileiras, como um entrave à cristianização e à adesão ao pensamento científico. O animismo fetichista era, para Nina Rodrigues, uma das causas do atraso nacional, pois, segundo ele, tal crença não se restringia aos negros baianos, estando presente em vastas parcelas da sociedade brasileira.

Depois de um período de certo esquecimento, na década de 1990 o conceito de animismo voltou à moda na antropologia, em especial na sub-área de estudos sobre as culturas ameríndias sul-americanas (sub-área conhecida na França como "americanismo tropical", e no Brasil como "etnologia indígena"). 

O antropólogo francês Philippe Descola, em especial, sugeriu ser o animismo um traço marcante entre os povos caçadores-coletores da América do Sul. Segundo Descola, o animismo é uma visão-de-mundo que "confere disposições humanas e atributos sociais aos seres naturais". Já bem distante do paradigma evolucionista à la Tylor e Nina Rodrigues, o animismo em Descola não é mais índice de atraso evolutivo, mas uma característica cultural dos ameríndios sul-americanos.

Lamento o fato de que Edward Tylor, Nina Rodrigues e Philippe Descola não tenham tido a chance de conhecer os desarmamentistas brasileiros contemporâneos. Neste caso, sim, eles estariam diante de animistas de verdade, podendo decidir, com propriedade, tratar-se o animismo de atraso mental ou característica cultural. No caso específico, creio que as duas alternativas não se excluem.

O fetiche mais significativo da religião desarmamentista é, evidentemente, a arma de fogo, a quem os seus fiéis atribuem poderes mágicos e intencionalidade. Para os desarmamentistas, o problema do alarmantes índices de homicídios no país (que variam numa média de 40 a 50 mil por ano) será resolvido quando as armas legais e registradas - compradas por cidadãos de bem para sua proteção, e mantidas em casa para serem usadas apenas em casos extremos - forem apreendidas e proibidas. 

Os desarmamentistas parecem acreditar que a mera existência das armas é uma ameaça, independentemente de quem a esteja portando e para qual finalidade. É como se as armas fossem sair sozinhas das gavetas e dos cofres e - pá! pá! pá! (cito o excelentíssimo senador e pândego Eduardo Suplicy) - começar a matar pessoas. O fato de que seja possível cometer um homicídio com qualquer instrumento - até mesmo (haja criatividade!) com a vagina, como se noticiou recentemente (ler aqui) - não basta para convencer os desarmamentistas de que o problema talvez não seja com as armas, mas com os assassinos.

A lógica (lógica?) do argumento desarmamentista é a seguinte: as armas em circulação nas mãos dos criminosos costumam ser roubadas de pessoas que as adquiriram legalmente. Sendo assim, é preciso proibir o comércio legal para impedir que elas sejam usadas pela criminalidade.

Não é um raciocínio (raciocínio?) magnífico? Não, não é. Em primeiro lugar, ele desconsidera o fato - reconhecido há tempos pelo traficante Fernandinho Beira-Mar - de que uma grande parte das armas do crime organizado, que por sua vez é responsável pela maioria dos homicídios no país, é contrabandeada do exterior. Só as FARC - que, atenção!, nosso governo desarmamentista insiste em não qualificar de grupo terrorista, e com quem manteve relações políticas durante muitos anos no âmbito das reuniões do Foro de São Paulo - vendem uma grande quantidades de armas de fabricação estrangeira para quadrilhas como o CV e o PCC. Isso para não falar de outras fontes de armas contrabandeadas, atividade cada vez mais fácil, agora que o governo reduziu verbas e o contingente de policiais federais a vigiar nossas fronteiras (ver aqui). Ignorar esse fato já mostra as más intenções do desarmamentismo oficial.

Mas, imaginando verdadeira a hipótese de que o grosso das armas utilizadas pelos criminosos seja de origem legal, isso lá seria razão para penalizar aqueles que as compraram legalmente, enfrentando toda a rigidez e demora do processo licenciatório? 


Não é no momento legal de sua trajetória que as armas contribuem para o elevado índice nacional de homicídios, mas apenas quando, após terem sido roubadas, elas passam ao seu momento ilegal. Sendo assim, as alegações dos desarmamentistas são furadas, por uma série de motivos.

Em primeiro lugar, impedir que os cidadãos de bem tenham armas com o argumento de que, afinal, elas podem ser roubadas e utilizadas por criminosos é simplesmente um atestado de incompetência por parte do governo, que está admitindo, assim, ser incapaz de proteger o cidadão contra o roubo de sua propriedade (armas inclusas). Diante dessa admissão de inépcia, o contribuinte brasileiro bem faria em garantir sua própria proteção!

Em segundo lugar, a tentativa de responsabilizar a vítima do roubo só não é tão escandalosa quanto o fato de que os desarmamentistas do governo, eles próprios, continuarão protegidos por seguranças armados até os dentes, quando não por suas próprias armas (ver, por exemplo, o caso de Tarso Genro, um desarmamentista espertinho que, ele mesmo, tem posse de arma e duas armas de fogo guardadas em casa). 


De um lado, o governo permite que o crime organizado atue à vontade - ou alguém ainda leva a sério a política do "espanador" das UPPs? - e, de outro, continuará tendo direito à proteção armada. Ou seja, a solução governamental para diminuir os homicídios no país é desarmar unilateralmente as únicas pessoas que não têm culpa de nada: os cidadãos que compram armas de forma legal. Se depender do ministro do STF Luiz Fux, então, essas pessoas terão suas casas invadidas e as armas apreendidas na marra, numa proposta clara de violação da Constituição, que seria quase cômica - considerando-se vir da boca de um alto magistrado - se não fosse trágica. Não bastasse a ameaça dos criminosos comuns, agora temos que temer a ação dos criminosos oficiais, que ameaçam invadir nossas casas e nos impor à força sua agenda. E ainda querem que as pessoas entreguem alegremente suas armas? Não tenho uma arma, mas, se tivesse, agora mesmo é que não a entregaria. Quando gente como José Sarney e Renan Calheiros começam a falar em desarmamento, é hora de sacar a pistola!

Em terceiro lugar, pergunto-me: por que somente as armas de fogo? Por que não proibir também a posse legal de aparelhos de celular? Afinal, também eles são roubados e utilizados por criminosos para, de dentro dos presídios (onde, aliás, costumam funcionar melhor do que fora deles), comandar seqüestros, chacinas e execuções. Se a lógica vale para as armas, deve valer também para celulares, veículos e quaisquer outras ferramentas potencialmente úteis numa ação criminosa. Por que Luiz Fux, José Sarney e José Eduardo Cardozo não sugerem também a proibição da venda legal daqueles utensílios? É um absurdo que o cidadão comum tenha um celular e um carro, que serão posteriormente roubados e utilizados pela criminalidade. Deixemos que apenas os profissionais - bandidos e políticos (se ainda for  possível distinguir uns dos outros) - possuam tais coisas. E Lancemos logo a campanha, que deverá ser apoiada pelos bonzinhos do Viva Rio e pelo beautiful people das classes artística e intelectual: "Entreguem seu celular e seu carro em troca de um autógrafo (no caso, a impressão digital do polegar) do Tiririca!"

Em quarto lugar, o fato dos desarmamentistas terem aproveitado a tragédia da escola em Realengo para lançar a nova campanha é, não apenas imoral, como substancialmente absurdo. O argumento era o seguinte: não fosse tão fácil obter armas no Brasil, aquele evento não teria ocorrido. "Está provado, é científico!", concluiu Rodrigo Pimentel, ex-policial, consultor de segurança pública da Rede Globo e desarmamentista convicto.

Mas quem disse que é fácil conseguir armas no Brasil? Pode ser fácil consegui-las ilegalmente, mas obtê-las dentro da lei - como tudo no país - é um verdadeiro martírio. E a campanha do desarmamento - que incluía a proposta de Sarney de realizar um novo referendo (o ministro Luiz Fux disse que o resultado do primeiro foi "errado") sobre a proibição da venda legal de armas - não seria eficiente para o caso das armas ilegais, apenas para as legais. Logo, o psicopata de Realengo teria conseguido suas armas de qualquer jeito. E, ainda que não as conseguisse, teria arrumado outro jeito de cometer a barbárie. Sendo assim, culpar o comércio legal de armas por aquela tragédia é de um cinismo espantoso.

Mais ainda. Toda pessoa racional sabe que casos como os de Realengo, em que pessoas mentalmente desequilibradas vão a locais públicos dispostos a matar gente indefesa, são praticamente impossíveis de evitar. Nenhuma política de segurança pública, por mais eficiente, tem como prever e impedir tais ocorrências. A única ação comprovadamente eficiente - dentro dos limites do possível, é claro - contra tais eventos é, justamente, aquela de cidadãos de bem armados que, num ato de bravura, e tendo competência para tanto, impedem ou minimizam os estragos causados pelo atirador.

É o que mostra um detalhado estudo de John R. Lott Jr. e William M. Landes, da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago. Segundo os autores: 

"De 1977 a 1999, os estados norte-americanos que adotaram leis que permitiam o porte livre de armas apresentaram uma queda de 60% nos ataques contra indivíduos e uma queda de 78% nas mortes em conseqüência de tais ataques".

As razões são óbvias. Por mais alucinados que sejam, os atiradores sabem que, nos estados que permitem a posse de arma, há maiores chances de, em se tratando de locais públicos, haver um cidadão armado que possa tentar impedi-lo. Por que será, afinal de contas, que massacres como os de Realengo sempre ocorrem em escolas e universidades, e nunca em locais como a National Rifle Association, um quartel ou o Palácio do Planalto?

Mas, mesmo nos casos em que o efeito dissuasivo falha, o atirador de rua faz menos vítimas onde há pessoas comuns armadas do que em lugares onde não as há. Depois da tragédia de Realengo, a imprensa brasileira logo relembrou casos como os de Columbine, nos EUA. No entanto, nenhum veículo de imprensa achou por bem mencionar os casos em que cidadãos armados conseguiram evitar ou minimizar o massacre. 

Os autores do estudo citado mencionam vários casos do tipo, entre eles: 1) Os dois estudantes de Virginia que, em 2002, pegaram suas armas no carro e conseguiram neutralizar um colega atirador; 2) O policial de folga, porém armado, que levava sua filha à escola no dia em que um aluno resolveu matar os outros em Santee (Califórnia), em 2001; 3) O dono de um restaurante em Edinboro (Pensilvânia), que, em 1998, usou sua arma para render o aluno que matara um professor e ferira mais três; 4) O diretor que também pegou sua arma no carro para apontá-la a um estudante homicida em Pearl (Mississipi), no ano de 1997. Em cada um desses casos, o número de vítimas não passou de três. Em Realengo, como se sabe, foram doze. E sabe-se lá quantas mais teriam sido se aquele bendito policial não houvesse aparecido e agido com firmeza!

Nos EUA - que os brasileiros (logo os brasileiros!) gostamos de ver como uma sociedade violenta e belicista ("não é característica nossa", disse Dilma) - os índices de homicídios são menores nos estados onde há a permissão legal do porte de armas do que nos estados onde não há. Nos EUA também - onde compra-se armas com certa facilidade - há, anualmente, cerca de 6 homicídios por 100 mil habitantes. No Brasil, em compensação - onde comprar uma arma de maneira legal é mais difícil do que ver um gol do Deivid, atacante do Flamengo -, há cerca de 26 homicídios por 100 mil habitantes: quase cinco vezes mais do que nos EUA, e numa população menor.

Mas não fiquemos apenas entre Brasil e EUA. Viajando das Américas para a Europa, tomemos os casos da Suíça e da Inglaterra. 

Na Suíça, virtualmente todo cidadão do sexo masculino possui uma arma e é treinado para usá-la. Trata-se, aliás, de uma exigência cívica. A política de exigir que todos os lares tenham uma arma de fogo é uma das principais razões por que os nazistas não invadiram a Suíça na 2ª Guerra Mundial. 


(Por falar em nazistas, convém recordar um fato histórico. Logo antes da terrível "Noite dos Cristais" (Kristallnacht) - quando, em 1938, teve início a infame violência nazista contra os judeus na Alemanha - o chefe de polícia de Berlim, Conde Wolf Heinrich von Helldorf, comandou o desarmamento da população judia, com o confisco de 2.569 armas curtas, 1.702 armas de fogo e 20.000 cartuchos de munição. "Quaisquer judeus ainda achados de posse de armas sem licenças válidas são ameaçados com a mais severa punição", declarou von Helldorf [The New York Times, Nov. 9, 1938, 24]).

No Brasil, o passatempo nacional é o futebol. Nos EUA, é o beisebol. Na Suíça, é o tiro ao alvo de precisão. Mas a prova de que, ao contrário do que crêem nossos animistas, as armas de fogo não saem sozinhas atirando nas pessoas, é que a Suíça é um dos países mais pacíficos do mundo. Lá, há menos do que 1 homicídio a cada 100 mil habitantes por ano, e em 99% dos casos não há arma de fogo envolvida. Lá, um criminosos pensa duas vezes antes de invadir a casa de alguém.

Cruzando o Canal da Mancha, o caso da Inglaterra é bastante ilustrativo. Até agora tenho feito comparações internacionais (entre nações), mas a Inglaterra permite-nos uma interessante comparação intranacional (diferentes momentos de uma mesma nação) no que se refere às relações entre políticas de desarmamento e índices de criminalidade.

Segundo matéria do jornal britânico Mail Online, o número de crimes por arma de fogo aumentou 89% entre 1998 e 2008. "Até aí nada", poderia dizer o leitor. Seria nada, realmente, não fosse o fato de que esse significativo aumento ocorreu exatamente na década seguinte à lei do desarmamento na Inglaterra, que proibiu o comércio de armas de fogo no ano de 1997

Nenhum dado poderia ser mais evidente para comprovar a ausência completa de relação entre desarmamento e diminuição dos homicídios. Minto. O que aquele dado atesta é que há, sim, uma relação entre os dois fatores, e ela é precisamente o inverso do que sugerem os desarmamentistas: quanto menos armada é a população de bem, mais os criminosos ficam violentos e ousados (foi exatamente o que ocorreu na Inglaterra); quanto mais armada é a população ordeira e obediente às leis, menores tendem a ser os índices de homicídios por arma de fogo. 


É aquela coisa do ditado popular, deselegante sem dúvida, mas perfeito nesse caso: "quem tem *%@, tem medo".

Está provado, é científico!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Ricardo Noblat: um caso típico da doença espiritual brasileira

"Todos dentre a elite alemã estavam envolvidos na criminalidade e na estupidez do regime nacional-socialista e estão carregados com esse envolvimento até hoje; pois essas pessoas ainda estão vivas e não querem admitir que o que aconteceu foi criminoso e louco, porque, então, eles também teriam de admitir que eles próprios são criminosos e loucos" (Eric Voegelin, Hitler e os Alemães)


Em Hitler e os Alemães (São Paulo: É Realizações, 2007), o filósofo político Eric Voegelin faz um profundo diagnóstico das condições intelectuais e espirituais da sociedade alemã da primeira metade do século XX, condições tais que possibilitaram a ascensão do nazismo ao poder. Diz Voegelin:


"Nosso problema (...) é a condição espiritual de uma sociedade em que o nacional-socialismo pôde chegar ao poder. Então, o problema não são os nacional-socialistas, mas os alemães, entre os quais personalidades do tipo nacional-socialista podem tornar-se socialmente representativas (...) o nacional-socialismo é, na verdade, precedido por uma sociedade em que ele chegou ao poder" (op. cit. p. 106).


Penso que uma análise como a de Voegelin seria imprescindível para a compreensão da hegemonia lulo-petista no cenário político brasileiro. O lulo-petismo também foi precedido por uma sociedade na qual ele chegou ao poder; uma sociedade que aceitou ser representada - não digo apenas eleitoralmente, o leitor já irá notar - por uma figura como Lula, que, tal como fora Adolf Hitler (ver Voegelin, op. cit. p. 88), é um político talentoso, mas sem qualquer outra qualidade (moral ou intelectual). Afora sua esperteza política, Lula é um homem sem qualidades. O que pretendo argumentar nesse texto é que, justamente por sua falta de qualidades pessoais superiores (falta da qual, no íntimo, se ressente, ainda que, em público, se jacte), e por sua malícia eleitoreira, Lula foi eleito pelos brasileiros como seu líder máximo e expressão visível de seu caráter. É triste constatar, mas a malícia política tornou-se um alto valor humano na sociedade brasileira.

Lula sabe que não presta, e vê no fato de conseguir impor-se a despeito de não prestar - ou, antes, precisamente porque não presta - uma grande e honorável virtude. Como sei que Lula não presta? Basta uma breve radiografia de sua figura para se chegar à resposta, evidente e cristalina não estivesse o país, ele próprio, mergulhado em estado de morbidez espiritual. 

Quem é Lula? Trata-se, em primeiro lugar, de um homem que se gaba por nunca ter estudado, mas, graças a uma inteligência cruamente pragmática, ter subido na vida. Um homem que, no momento da comunhão católica (o rito fundamental da religião que ele professa seguir), comenta ser uma pessoa "sem pecados" (ver aqui). Um homem que, movido por um machismo vaidoso, e por um senso de humor tão elevado quanto a cloaca de uma pata, é capaz de contar ter tentado sodomizar um companheiro de cela - "não vivo sem boceta" (sic), confessa o "filho do Brasil", confundindo, ao que parece, alhos com bugalhos (ver o famoso artigo de César Benjamin sobre o caso do "menino do MEP"). Um homem que, ludibriando os próprios companheiros políticos, escondeu "um monte de bala paulistinha" embaixo do travesseiro, para burlar uma greve de fome (ver aqui, a partir dos 2'23'' de vídeo).

Lula é também aquele que, diante da escandalosa fraude eleitoral no Irã, e da violenta repressão aos manifestantes nas ruas, foi capaz de sugerir que tudo não passava de "choro de perdedor". Aquele que, em outra ocasião, mostrou-se indiferente e sarcástico em relação ao sofrimento dos presos políticos cubanos, refestelando-se, em compensação, com seus companheiros Fidel e Raúl Castro, líderes de uma das ditaduras mais sangrentas e duradouras da América Latina. Aquele que, no momento de intensa repressão e restrição da liberdade de imprensa por parte do governo de Hugo Chavez, afirmou haver "democracia até demais" na Venezuela. Aquele que não hesitou em chamar o genocida líbio Muamar Kadafi de "amigo e irmão". 

Tratava-se em todos aqueles casos de pragmatismo político, justificavam seus asseclas. Sim, é claro. Mas, como recoda Voegelin sobre o caso alemão, esse tipo de pragmatismo é muitas vezes a face mais pusilânime do mal:

"O problema é que o homem se torna completamente insignificante em comparação com sua qualidade de membro de um grupo de interesse. Ou seja, contanto que os do grupo de interesse (...) não sejam imediatamente atingidos em seus interesses, eles [os que defendem tal visão] não têm uma palavra a dizer sobre o fato de seus concidadãos serem assassinados, levados a campos de concentração, maltratados ou, finalmente, asfixiados com gás em Auschwitz - nem uma palavra contrária a todos esses crimes contra a humanidade" (op. cit. pp. 247-248).

Tal descrição bem poderia ser aplicada a Lula e muitos membros do seu partido. Eles não estão preocupados com violações dos direitos humanos em Cuba, no Irã ou na Líbia, contanto que seus interesses político-partidários - e suas bandeiras ideológicas - sejam preservados. A identificação de um petista com o partido é sempre maior do que sua identificação com a pátria ou mesmo com a espécie humana. 

À parte seu pragmatismo político, Lula é também um homem emotivo, que chora à toa. Os motivos do choro são sempre os mesmos: sua infância pobre e sofrida, os preconceitos que teve de enfrentar por ter sido metalúrgico, a perseguição que pretensamente sofre por parte dos meios de comunicação e das "elites". Ainda que tenha sido o presidente mais paparicado pela imprensa e pela zé-lite, Lula faz manha. E esta é mesmo uma das características notáveis de sua personalidade: em paralelo à ausência total de sensibilidade diante do sofrimento alheio (se o pragmatismo político assim o exige), percebe-se na alma de Lula uma hipersensibilidade aos próprios sentimentos. Lula tem muita pena de si mesmo e, por isso, ele chora. 

E como chora esse homem (o leitor experimente buscar "Lula chora" no YouTube)! Trata-se de um caso notável: Lula é duro feito côco frente aos presos cubanos e às vítimas da repressão iraniana, mas mole feito mingau de macaxeira quando fala de si próprio. Alguém consegue imaginar um Júlio César, um Napoleão Bonaparte, um Abraham Lincoln, um Roosevelt ou um Churchill derramando, em público, tantas lágrimas de autocomiseração? Pois Lula as derrama em profusão. E, mesmo assim, comportando-se como um sujeito débil e meloso, a opinião pública nacional insiste em considerá-lo um grande estadista, em vez de cobrá-lo da única maneira que se esperaria em casos como o dele: seja hômi, cabra da peste! Lula é mimado e exige sempre mais mimo. Caso contrário, chora.

Resta inevitável que um país siga os passos daqueles que elege como modelos de seu caráter coletivo. O Brasil como um todo - e mais especificamente sua classe falante - está ficando cada vez mais parecido com Lula. Em lugar da altivez, da serenidade e do mérito, o brasileiro tem optado, assim como o seu guru, pela auto-vitimização, pelo histrionismo e pela malícia. O mercado de vítimas está ficando inflado no país. Bons tempos aqueles em que o ditado "homem não chora" ainda tinha alguma relevância. No Brasil de hoje, homem não apenas chora, como chora por qualquer motivo, e especialmente por pena de si mesmo!

Um dos traços da personalidade de Lula que tem sido naturalizado e incorporado pela opinião pública nacional é a esperteza política. Para se compreender a fundo o "fenômeno Lula", seria preciso que se escrevesse uma obra intitulada "Lula e os brasileiros", a exemplo do livro de Voegelin. Mas um trabalho desse porte está além das minhas capacidades. E, infelizmente, não creio que haja no Brasil alguém em condições de realizá-lo. Um país que já teve um Gilberto Freyre, um Mário Vieira de Mello, um Mário Ferreira dos Santos, um José Osvaldo de Meira Penna e outros tantos grandes pensadores, hoje não conta com intelectuais que se aproximem da estatura de um Eric Voegelin. 

Sem poder realizar sozinho o trabalho hercúleo de documentação e análise que seria necessário a respeito do tema, o que proponho aqui é menos uma investigações de causas do que uma amostragem casual do problema. Por ora, é tudo o que sou capaz de fazer.

Para o presente estudo de caso, examino um texto do jornalista Ricardo Noblat a respeito de um comentado artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) publicado por estes dias, e que versa sobre o papel da oposição no país. O artigo de FHC causou grande barulho graças a um trecho específico, distorcido e manipulado ao gosto do freguês. Nele, lê-se o seguinte: 

“Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os 'movimentos sociais' ou o 'povão', isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos. Isto porque o governo 'aparelhou', cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias.”

De Londres, e em resposta ao artigo do rival (que, é claro, não deve ter lido, e se lesse não teria entendido), Lula respondeu de bate-pronto, com sua gramática e raciocínio tão peculiares:

“Eu. Sinceramente. não sei o que ele quis dizer. Nós já tivemos políticos que preferiam cheiro de cavalo que o povo (sic.). Agora tem um presidente que diz que precisa não ficar atrás do povão (sic.), esquecer o povão. Eu sinceramente não sei como é que alguém estuda tanto e depois quer esquecer do povão” (ver aqui).

A resposta de Lula não surpreende, é claro. Não se poderia esperar dele algo além de populismo rasteiro e mistificação, dois elementos constitutivos de sua natureza. O que espanta é o fato de Lula ter sido acompanhado por vários membros do próprio PSDB, que, cedendo à chantagem lulista - como haviam feito na última campanha eleitoral -, tentaram  se esquivar da companhia de FHC, para poder disputar com o PT a hegemonia do populismo e do assistencialismo barato. Esforço inútil, é claro. Num concurso de populismo, vence, por definição, o mais populista - no caso, o popululismo

Muito antes de conquistar o poder do Estado, o PT já vinha, há décadas, preparando a sociedade para recebê-lo incondicionalmente, por meio da estratégia gramsciana de ocupação de espaços. Intelectuais, artistas e jornalistas petistas e filo-petistas conseguiram, durante muito tempo, fazer-nos crer na idéia de que o PT era um partido ético (ver, por exemplo, essa declaração da filósofa petista - com perdão do oxímoro involuntário - Marilena Chauí). A lavagem cerebral foi muito bem-sucedida. Para muitos, mesmo o escândalo do Mensalão não conseguiu quebrar o encanto. 


A despeito de ter deixado de ser operário há muito tempo e de ter ganho a eleição após uma campanha publicitária milionária, o epíteto "presidente operário" associado a Lula grudou feito cola nos corações brasileiros, tão afeitos a histórias bonitas. Consta que Napoleão Bonaparte teria dito que, para se fazer uma guerra, era preciso três coisas fundamentais: dinheiro, dinheiro e dinheiro! O mesmo se passa com campanhas eleitorais. Mas o brasileiro resolveu acreditar até o fim no conto de fadas do operário que, num passe de mágica, virou presidente e, porca miséria, continuou operário! (Imagine-se Abraham Lincoln, por ter sido balconista na juventude, sendo chamado de "presidente balconista" pelos norte-americanos. Impensável. Esse tipo de coisa só acontece no Brasil. Qualquer criança norte-americana sabe que um balconista, qua balconista, não tem condições de ser eleito presidente. Por aqui, ao contrário, não faltam marmanjos barbados com lágrimas nos olhos ao falar do "presidente operário").

Para qualquer pessoa alfabetizada e honesta, resta evidente que FHC não recomendou, nem de longe, que o seu partido "esquecesse o povão". O que ele disse, com razão, foi que o PT aparelhou os movimentos sociais, que ora se pretendem os únicos representantes legítimos do povão, e uma grande fatia da imprensa.

As aspas irônicas usadas por FHC nos termos "movimentos sociais" e "povão" pretenderam sugerir que o acesso direto às populações de baixa renda está totalmente controlado pelo PT, que, por meio de seus braços militantes (CUT, MST, UNE... Luis Nassif etc.), repassa àquelas pessoas toda sorte de mentiras e mistificações. FHC não disse para a oposição abandonar o povão. Disse apenas que, por uma questão estratégica, ela não deveria começar pelo povão, optando, antes, pelas parcelas da sociedade com maior acesso à informação. Antes de se dirigir à população de baixa renda, seria preciso criar condições para se quebrar o cordão de isolamento ideológico montado pelo PT, partido que compra consciências em troca de benesses, esmolas e cargos.

Eu, pessoalmente, não creio que FHC e o PSDB teriam condições de romper aquela situação, mesmo porque FHC foi um dos grandes responsáveis pela instituição do politicamente correto como forma de governar, contribuindo assim por criar o caldo cultural de onde o PT pôde emergir com toda a força. FHC é um pouco pai de Lula (e quem quiser se aventurar numa especulação freudiana acerca das obsessivas tentativas lulistas de matar o pai, fique à vontade).

De todo modo, reconheço que o artigo de FHC é lúcido, claro e pertinente, consistindo na seguinte tese: oposição tem que fazer oposição, ou seja, propor uma plataforma e assumir uma identidade diferentes daquelas do partido governante. Enquanto quiser ser mais realista que o rei - ou mais petista que o PT - a oposição está condenada à extinção. (Haja visto o preço pago por José Serra por sua eterna covardia e pusilanimidade).

Ricardo Noblat parece ter compreendido corretamente o artigo de FHC. No seu texto - intitulado significativamente (já explico) "A lição que Fernando Henrique não aprendeu" - ele afirma:

"O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não recomendou que a oposição desprezasse o povão e se fixasse na luta pelo voto da classe média. Sem o voto do 'povão' ninguém ganha. Mas é isso o que ficará do artigo. E é isso o que será explorado nas próximas eleições pelo PT e seus aliados. Porque numa passagem do artigo os mais apressados - e os maldosos - de fato podem entender que o ex-presidente sugere deixar o 'povão' para lá."

Escolhi falar do artigo de Noblat pela seguinte razão. Esse articulista costuma fazer análises políticas formalmente equilibradas e neutras, alternando, à primeira vista equanimemente, críticas e elogios tanto ao governo quanto à oposição. Não se pode identificar o Noblat, de forma inequívoca, com o jornalismo escandalosamente pró-governo de um Luis Nassif ou de um Paulo Henrique Amorim, nem, tampouco, com críticas mais contundentes ao governo, como as um Reinaldo Azevedo, um Augusto Nunes ou um Guilherme Fiuza. Noblat gosta de se apresentar, e muitos assim o percebem, como fundamentalmente neutro. O problema é que, não raro, Noblat é neutro ali onde a neutralidade já é uma tomada de posição. Mas isso fica para um outro post (para os interessados, recomendo uma e outra análises do blogueiro Felipe Moura Brasil - o Pim - sobre o modus operandi típico de Noblat).

Nas redes sociais, muito se discute sobre se Noblat é petista ou psdebista (tal alternativa, aliás, sendo a única escolha de vida concebida pela maior parte dos internautas brasileiros). Eu tendo a concordar com o articulista nesse ponto: não há nada em suas colunas que indique uma adesão incondicional a um ou outro partido. Não tenho a mínima idéia se Noblat vota no PT ou no PSDB. E, na realidade, isso pouco importa. Já escrevi em outras ocasiões que, ao contrário do que os brasileiros costumam achar, a disputa partidária não ajuda em nada a esclarecer as reais forças políticas em jogo no país. A bipolarização partidária (e mesmo eleitoral) entre PT e PSDB só serve para encobrir e mascarar a seguinte realidade: o PT exerce tamanha hegemonia política e cultural, que, como venho argumentando, a oposição julga necessário mimetizar ao máximo suas características para obter sucesso eleitoral. As eleições no Brasil são mero formalismo de superfície sobre um fundo político-cultural lulo-petista.

Mesmo que Noblat seja um eleitor do PSDB - e escolhi-o como objeto de análise justamente porque, no seu caso, não é fácil afirmar -, ele parece-me representar um caso clássico de petismo cultural. Noblat não faz propaganda petista como Luis Nassif e Paulo Henrique Amorim. Ele é petista por inércia, quase sem sentir. Uma vítima do petismo lubrificado, indolor.

Em relação ao artigo de FHC, apesar de tê-lo compreendido adequadamente, Noblat usou o padrão-Lula de julgamento, e censurou-o justamente por sua ausência de malícia política. Ao contrário de Lula, que é político 24 horas por dia, FHC teria sido sociólogo demais naquele artigo, deixando o político em segundo plano. De um ponto de vista sadio (leia-se, imune ao vírus lulo-petista), aquele seria um motivo de loas a FHC. Para Noblat, pobre infectado, trata-se de motivo de censura: FHC não aprendera a lição. Nas palavras do jornalista:

"O artigo divulgado esta semana foi escrito pelo sociólogo Fernando Henrique - não pelo político semi-aposentado que ele é. Se o político tivesse prevalecido sobre o sociólogo, o ex-presidente certamente não teria derrapado no parágrafo que está sendo lido como uma espécie de resumo do que ele quis dizer" (eu grifo).

Noblat mostra-se um tanto quanto indeciso. Primeiro, diz que FHC foi vítima de uma leitura apressada e maldosa. Em seguida, parece sugerir que a leitura não foi assim tão maldosa, porque afinal de contas, diz ele, FHC realmente derrapou naquele parágrafo sobre  o voto  do "povão".

Tal ambigüidade revela-se de todo na surpreendente conclusão geral do artigo, perfeitamente sintetizada no título: FHC foi vítima de uma leitura apressada e maldosa, mas, ao contrário do que poder-se-ia imaginar, Noblat sugere que o culpado é o próprio FHC, por sua suposta "derrapada". O colunista afirma com todas as letras: quem tem que aprender a lição é, no caso, a vítima da leitura desonesta, e não os seus autores (e, dentre eles, Lula em especial). Mutatis mutandis, o argumento equivale àquele dos que julgam que, num estupro, a culpa é da mulher estuprada - "ela provocou!".

FHC provocou, ou, como escreve Noblat, "derrapou". Qual foi a derrapada? A resposta é uma só: FHC falou a verdade. Falou não como o político que espera obter alguma vantagem eleitoral de suas palavras - como o fez Lula em sua crítica ao artigo -, mas como o analista que compreendeu e diagnosticou uma dada situação. Tal foi, na visão de Noblat, o grande pecado de FHC, o fato de ter sido muito pouco Lula em seu artigo. Ele foi verdadeiro e objetivo, escrevendo exatamente aquilo que enxergou. Que derrapada imperdoável! Noblat não considerou digna de uma reprimenda escrita a atitude desonesta de Lula ao distorcer, com fins eleitoreiros, as palavras de FHC. Em compensação, ele julgou necessário censurar FHC por ter permitido - Ó, que pecado! - que o sociólogo prevalecesse sobre o político.

Adotando aquilo que poderíamos chamar de "padrão Lula de qualidade", Noblat consegue transformar em vício a maior virtude do artigo de FHC, qual seja a de escrever como o analista em busca da compreensão da realidade, antes que como o político em busca de votos. 


Num país moral e espiritualmente são, Noblat escreveria uma coluna intitulada "A lição que Lula não aprendeu". No Brasil, esse reino de ponta-cabeça, a vítima faz as vezes do agressor e vice-versa. A ausência de malícia política é, por aqui, considerada uma falha grave.


A expansão e consolidação da estupidez lulo-petista jamais será compreendida sem uma análise de fenômenos como o texto de Noblat. Cito Voegelin mais uma vez sobre o caso alemão: "A estupidez tem sempre de ser entendida em relação com o contexto social e histórico" (op. cit. p. 134).

Noblat tem, evidentemente, o direito natural e constitucional de expressar sua opinião. Mas, num contexto político que caminha a passos largos para a completa hegemonia partidária e para o totalitarismo (vide os incansáveis projetos de "controle social da mídia"), um jornalista não tem o direito de corroborar a estupidez criminosa de um líder político de massa. Há tratamento para o lulo-petismo. Noblat só precisa se medicar.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

In Memoriam


Dominus Vobiscum:

Luiza Paula da Silveira, 14 anos
Karine Chagas de Oliveira, 14 anos
Larissa dos Santos Atanázio, 13 anos
Rafael Pereira da Silva, 14 anos
Samira Pires Ribeiro, 13 anos
Mariana Rocha de Souza, 12 anos
Ana Carolina Pacheco da Silva, 13 anos
Bianca Rocha Tavares, 13 anos
Géssica Guedes Pereira, 13 anos
Igor Moraes da Silva, 13 anos
Laryssa Silva Martins, 13 anos
Milena dos Santos Nascimento, 14 anos

Descansem em paz...

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A última tentação de Bianca: o PL 122-06 e o totalitarismo gayzista (Parte II)

(Ler a Parte I)


PL 122-06 altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. O artigo 20 da antiga lei, por exemplo, passa a vigorar no PL 122 com a seguinte redação (ver Art. 8º): "[São motivos de condenação]: Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gêneroO disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica" (grifos meus).

Note-se que a lei não deixa espaço para nenhuma crítica (seja de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica) e, mais ainda, ela equipara uma ação violenta contra homossexuais - uma agressão, digamos - a uma ação vexatória como, por exemplo, uma reprimenda de ordem moral ou religiosa (ex: um padre que diga: "Não faça isso, meu filho, porque é pecado"). Ora, é evidente que qualquer reprimenda moral ou religiosa só pode surtir efeito se consegue gerar algum grau de vergonha em seu destinatário, produzindo, em seguida à vergonha, o arrependimento e a eventual mudança de comportamento (ver, quanto a isso, este ótimo artigo de Olavo de Carvalho). 

A "ação vexatória" é intrínseca, portanto, à condenação do homossexualismo como pecado pela religião com maior número de adeptos no país, o Cristianismo. O que o PL 122-06 está simplesmente decretando é que, por exemplo, um padre católico que diga para um homossexual que o homossexualismo é pecado pode ser submetido a uma pena de 2 a 5 anos de reclusão, acusado de praticar "ação vexatória ou constrangedora de ordem moral, ética, psicológica e filosófica".

Mas o mais grave vem no complemento daquele artigo, na parte que trata da instauração do processo (ver Art. 9º do PL 122-06): "A prática dos atos discriminatórios a que se refere esta Lei será apurada em processo administrativo e penal, que terá início mediante: I - reclamação do ofendido ou ofendida; II - ato ou ofício de autoridade competente; III - comunicado de organizações não governamentais de defesa da cidadania e direitos humanos".

Em outras palavras, para que aquele padre católico do exemplo acima venha a ser processado, basta que um homossexual sinta-se "vexado" ou "constrangido" por suas palavras e que receba o apoio daquelas mesmas organizações gayzistas militantes que desejam vingar-se da heteronormatividade (no caso, representada paradigmaticamente pelo padre católico e pela condenação bíblica do homossexualismo) por meio do estímulo ao ressentimento e à revolta. Eis aí um eficaz instrumento de perseguição política.

Para se compreender a natureza totalitária e persecutória do PL 122-06, é preciso ainda associá-lo a outras iniciativas ditas anti-homofóbicas. No ano passado (2010), através da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD), o MEC preparou o lançamento de um tal kit anti-homofobia, para ser adotado em aproximadamente 6 mil escolas públicas de ensino médio. O pressuposto de seus idealizadores - dentre os quais diversos líderes de grupos gayzistas militantes - é o de que a homofobia manifesta-se não apenas em violência aberta contra gays, mas também é internalizada e reproduzida já na infância, por meio das instituições de ensino, elas próprias, como sempre, escravas da tal heteronormatividade. Os gayzistas do MEC decidiram, portanto, que a homofobia deveria ser combatida desde a origem, nas escolas.

kit anti-homofobia é composto por um caderno (intitulado "Escola sem homofobia"), um conjunto de seis boletins, cinco vídeos educativos, cartazes para serem afixados nas escolas e cartas com recomendações para os profissionais de educação. Um dos vídeos educativos, que deverá ser assistido por crianças e adolescentes, chama-se "Encontrando Bianca". Ele conta a história de um travesti adolescente que, tendo sido batizado com o nome de José Ricardo, resolve passar a chamar-se Bianca (o nome de sua atriz preferida), uma vez que, em suas palavras, ele "se sente mulher". Na escola, José Ricardo - digo, Bianca - não entende por que não permitem que ele freqüente o banheiro feminino ("Por que não", pergunta, "se eu me sinto mulher?"). O jovem travesti também não se conforma com o fato de que, na hora da chamada, muitos professores insistam em chamá-lo de José Ricardo - afinal, ele se sente Bianca. 

O vídeo produzido pelo MEC deixa muito clara a visão de mundo de seus idealizadores e ajuda a compreender o real objetivo do PL 122-06. O fato de que o travesti José Ricardo sinta-se mulher é tido como bastante para que ele tenha o direito de ser reconhecido como tal. Logo, em se tratando de um material anti-homofobia, subentende-se que quem assim não o reconheça será sumariamente rotulado de "homofóbico". Ou seja, o mero desejo arbitrário de um homossexual deve valer mais, a ponto de se impor pela força da lei, do que a percepção concreta das demais pessoas. Todos vêem que José Ricardo é homem, e que está apenas vestido de mulher. Mas tal constatação deve ser reprimida e, se o homossexual assim o quiser, todos devem vê-lo tal qual ele se sente. A percepção é proibida em nome de um sentimento subjetivo. O sentimento do homossexual passa a valer mais do que qualquer outro sentimento (pois é de se esperar que alguém que, por exemplo, "se sinta" um repolho não venha a gozar do mesmo privilégio) e, mais ainda, do que a própria realidade. O "afinal, eu me sinto" dito por um homossexual terá sido consagrado como uma cláusula pétrea da Constituição, um mandamento sacrossanto.

Pergunto-me então: com a aprovação do PL 122-06, um professor que se recusar a chamar José Ricardo de Bianca poderá ser processado? Ele não estará, afinal, praticando uma "ação vexatória e constrangedora de ordem psicológica"? Penso que é exatamente isso o que vai acontecer. Já que, segundo a lei, elas terão poder para tanto, as organizações gayzistas vão estimular centenas de jovens "Biancas" a dar início a processos contra professores "homofóbicos" que se recusarem a atender seu desejo. E, tal qual Groucho Marx, essas "Biancas" poderão, enfim, dizer ameaçadoramente ao professor, agora amparadas pela força estatal: "Você vai acreditar em mim ou em seus próprios olhos?".

Mas o que eu considero o pior de tudo nessas iniciativas pseudo-anti-homofóbicas é que elas estão sendo tramadas na surdina, de forma sorrateira, em conluio, longe do conhecimento do público e, em certa medida, de muitos parlamentares. 

kit anti-homofobia, por exemplo, foi elaborado por militantes gayzistas e por membros da SECAD. O material foi apresentado preliminarmente em um seminário na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, numa sessão presenciada quase que exclusivamente por grupos gayzistas. Ao apresentar o material, o Secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, Sr. André Lázaro, comentou, entre risos, que ele e demais idealizadores passaram três meses discutindo "até onde entrava a língua" (sic) numa cena de beijo lésbico contida em um dos vídeos educativos (a declaração de Lázaro e o vídeo "Encontrando Bianca" podem ser vistos aqui). Pergunto: não é reconfortante saber que os responsáveis pela educação pública brasileira - que, afinal, como todos sabem, é uma maravilha! - têm trabalhado de forma tão dedicada e discreta sobre temas - literalmente - tão profundos?

Mas o próprio PL 122-06 foi aprovado na Câmara de forma sorrateira e anti-democrática. No dia 24/06/2008, no programa Happy Hour do GNT, o então Secretário de Assistência Social do Rio de Janeiro, Sr. Marcelo Garcia, homossexual assumido e engajado, admitiu o caráter traiçoeiro da aprovação do PL 122-06, ainda que não parecesse achar nada de mal nisso. Disse ele: "Vale a pena dizer como ele foi aprovado na Câmara. Não foi fácil aprová-lo na Câmara, não. Aprovou assim: aprova a plantação de café, a plantação de trigo e aí, num vacilo dos conservadores, aprova também a criminalização [da homofobia]". A apresentadora do programa, surpresa, pergunta então: "Foi assim?". E Garcia continua: "Foi. Não foi uma votação específica ["discutida", ouve-se a voz da apresentadora] contra a criminalização, não". (ver aqui, entre 0'25'' e 0'42'' de vídeo).

A respeito do kit anti-homofobia, é fato que alguns parlamentares, entre eles, como era de se esperar, Jair Bolsonaro, descobriram-no (chamando-o "kit gay") e denunciaram-no como possível apologia ao homossexualismo, uma vez que aqueles vídeos seriam exibidos para pré-adolescentes e adolescentes, numa idade em que estes estariam, justamente, descobrindo a sexualidade. 

A visão de Bolsonaro e outros parlamentares, é preciso dizer, é partilhada por um grande número de brasileiros. No dia 13/12/2010, o popular Programa do Ratinho (SBT) promoveu um debate entre o deputado Jair Bolsonaro e o presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transexuais (ABGLT), Toni Reis, um dos idealizadores do kit anti-homofobia. No final do debate, foi exibida uma reportagem na qual pais de alunos de escolas públicas, e os próprios alunos, após terem visto o vídeo "Encontrando Bianca", eram convidados a expressar sua opinião (ver aqui). As opiniões foram divididas: alguns pais e crianças acharam que o vídeo poderia vir a ser útil no combate ao preconceito nas escolas, outros acharam que o vídeo era excessivo e que poderia influenciar o comportamento dos alunos. Mas, antes de encerrar o programa, o apresentador Ratinho divulgou o resultado de uma enquete sobre a iniciativa do MEC: 25 % das pessoas considerou que os filhos deveriam assistir àqueles vídeos na escola, enquanto 75% julgou que os filhos não deveriam ver os vídeos. Ou seja, a grande maioria das pessoas desaprovou o kit anti-homofobia do MEC.

Ocorre que os idealizadores do kit não acham que aquela seja uma opinião legítima. Eles acham-na retrógrada e atrasada e, é claro, homofóbica. Comentando sobre o tal beijo lésbico - cujos atributos estéticos foram discutidos durante três meses pelo pessoal do SECAD - Toni Reis disse no programa do Ratinho: "ele é ainda muito avançado para as pessoas". Ou seja, a aceitação do beijo lésbico de adolescentes como algo perfeitamente normal é uma questão de evolução: Toni Reis e seus companheiros são mais evoluídos do que o restante das pessoas que, eventualmente, poderiam sentir-se incomodadas com a visão da profundidade alcançada pela língua de uma garota dentro da boca de outra garota. 

Em outra ocasião, respondendo a críticas ao kit, o mesmo Toni Reis declarou: "O que está sendo dito é totalmente distorcido. Não queremos incentivar a homossexualidade. Ela não precisa de incentivo algum. Queremos incentivar o respeito à cidadania, à não violência, à dignidade humana. Quem está falando isso são pessoas homofóbicas, fundamentalistas religiosos. Estes são os grandes incentivadores da violência e do desrespeito" (ver aqui).

Em suma, na visão do líder gayzista, quem acha que o kit pode influenciar o comportamento sexual dos adolescentes - possivelmente a maioria da população - é "homofóbico" e "fundamentalista". O PL 122-06, ao que parece, foi feito para punir exatamente essas pessoas que, no caso, representam a maior parte da sociedade brasileira. No fim das contas, o PL 122-06 é uma lei feita para que os gayzistas possam vingar-se da sociedade brasileira como um todo (de sua moral religiosa, de seus valores tradicionais, de suas instituições, de seus hábitos familiares), por sua intolerável e aberrante heteronormatividade.

Percebe-se que o objetivo dos gayzistas é transfigurar um desejo arbitrário e particular - como é todo desejo sexual - em fonte universal de direitos. Daí a tentativa de embelezar e superestimar a sexualidade gay, como se ela fosse um valor transcendente, e não apenas um desejo sexual como outro qualquer (como, por exemplo, a atração sexual por mulheres asiáticas, por homens carecas, ou o desejo de transar em locais proibidos). O uso da palavra "homoafetividade" em lugar de homossexualidade, promovida pelos movimentos gayzistas, ilustra bem a estratégia de desviar o olhar da opinião pública, do sexo - algo que só diz respeito aos envolvidos no ato - para a afetividade - que é um sentimento ao mesmo tempo mais vasto e mais nobre.

Ocorre que "homoafetividade" é apenas um truque simbólico. Não se trata de um conceito apropriado para descrever o homossexualismo. O que diferencia o homossexual do heterossexual não é a "afetividade" por pessoas do mesmo sexo, mas o desejo sexual por pessoas do mesmo sexo. A afetividade por pessoas do mesmo sexo é algo universal entre os seres humanos: o afeto que um pai sente pelo filho, que uma irmã sente por outra, que um neto sente pelo avô, que uma amiga sente pela outra. Nesse sentido, todos os seres humanos são "homoafetivos". Mas nem todos os seres humanos são homossexuais. Normalmente, um pai não sente tesão pelo filho, uma irmã não sente tesão pela outra, um neto não sente tesão pelo avô. Mas um homossexual define-se, precisamente, por sentir tesão por uma pessoa do mesmo sexo e por querer, em última instância, transar com ela.

O homossexualismo é, portanto, um desejo sexual arbitrário como qualquer outro. Ele só diz respeito às pessoas envolvidas nessa relação desejante e, formalmente falando, reduz-se à prática de sodomia (coito anal), de felação (sexo oral) e de mais algumas poucas variações. É claro que as pessoas têm o direito a seus desejos sexuais e que, nesse plano, o homossexualismo é um direito inalienável de qualquer pessoa. Mas, enquanto desejo sexual, ele não transcende a esfera de interesse imediato dos parceiros sexuais e, portanto, não pode servir como fundamento de direitos universais. O homossexualismo começa e se encerra no  desejo sexual. E aí está toda a diferença - de ordem filosófica, se o leitor quiser - entre o homossexualismo e o heterossexualismo. É precisamente tal diferença que os gayzistas não compreendem ou não aceitam. É ela que fundamenta a predileção natural da maioria das pessoas pelo heterossexualismo, as condenações filosóficas e religiosas do homossexualismo e instituições sociais como o casamento e a família.

Ao contrário do que ocorre com o homossexualismo, a sexualidade hetero transcende o interesse particular dos parceiros sexuais. Isso porque ela gera, ou tem o potencial de gerar, um ser humano novo. A sexualidade homo, por sua vez, não gera nada além do prazer pessoal daqueles que a praticam. Qual o produto de uma relação homossexual? Nenhum. Isso não quer dizer, é claro, que as relações heterossexuais devam necessariamente gerar filhos, mas o que importa é que elas podem vir a gerar. Essa potencialidade faz toda a diferença. 

Se, por exemplo, o ato sexual que o líder gay Luis Mott pratica com seu parceiro só diz respeito necessariamente aos dois, o ato sexual praticado pelos pais de Júlio César, de Galileu Galilei, de Adolf Hitler ou do Pelé diziam respeito à humanidade como um todo. Nesse exato momento em que escrevo, uma relação heterossexual pode estar dando início ao surgimento do futuro campeão mundial de salto em altura, do perigoso ditador que conduzirá o mundo a uma hecatombe nuclear, ou do fundador de uma nova religião mundial. Ora, os próprios homossexuais não existiriam sem os heterossexuais, o contrário não sendo verdadeiro. A heterossexualidade transcende e engloba a homossexualidade. Se a homossexualidade fosse a norma, a espécie humana já estaria extinta há muito tempo. E é por isso que a heterossexualidade é dominante, não apenas na nossa, mas em todas as sociedades humanas. 

Sendo assim, toda a conversa gayzista da "heteronormatividade" como uma espécie de imposição cultural e ideológica não passa de uma completa insanidade. Basear toda uma visão de política pública na revolta contra a heteronormatividade só poderia gerar, como vem gerando, atitudes totalitárias e absurdas. É claro que, por trás do lobby gayzista, há um governo corrupto e ditatorial que pretende lucrar politicamente com os dividendos da revolta. O governo do PT vem, há anos, agraciando e paparicando o movimento gayzista (ver aqui) - assim como tem feito com todos os outros ditos "movimentos sociais" (MST, UNE, Movimeno Negro etc.). Trata-se de uma troca de favores. O governo fomenta e financia os movimentos sociais para poder contar com eles como massa de manobra política. É uma verdadeira tecnologia política do politicamente correto.

É por essas e outras que o movimento gayzista atual distanciou-se completamente de suas motivações originais. Como bem notou Justin Raimondo em seu artigo, o movimento gay nos EUA começou, na década de 1960, como um movimento por liberdades civis. Seu lema era "viva e deixe viver", e a única coisa que os gayzistas de então queriam do governo era que ele os deixasse em paz. 

Hoje tudo mudou. À medida que a tolerância ao homossexualismo veio crescendo, os gayzistas passaram a ver no governo um meio de impor sua agenda ao restante da sociedade. Ainda que o poder do Estado tenha sido freqüentemente utilizado contra homossexuais ao longo da história, os líderes gayzistas contemporâneos parecem agora dizer: "Chegou a nossa vez!". Se o movimento gayzista original era um movimento contra o Estado, agora ele é um movimento estatal. Se, antes, o governo era tido como inimigo da liberdade, agora ele é visto como promotor da liberdade sexual (liberdade para os gayzistas, é claro). 

O incentivo à liberdade sexual como forma de aumentar o controle político não é um fenômeno inédito (ver, sobre o assunto, o livro Libido Dominandi: Sexual Liberation and Political Control, de E. Michael Jones). Mas no Brasil as coisas sempre podem piorar. Nossa cultura política e intelectual é tradicionalmente estatista, conferindo ao Estado ora todos os vícios, ora todas as virtudes. A dependência da sociedade brasileira em relação aos governos é espantosa, ultrapassando em muito a esfera meramente material e administrativa. Trata-se de uma dependência moral e psicológica. Com o governo do PT essa dependência foi elevada à enésima potência, pois que este é um partido diferente dos outros. O PT não quer apenas passar pelo Estado. Ele deseja tornar-se, para sempre e definitivamente, o próprio Estado brasileiro. Mais ainda: numa inversão completa do constitucionalismo tradicional, o PT quer que a sociedade brasileira venha a ser função e imagem desse Estado. Não é por acaso que ele venha fomentando movimentos sociais organizados. Essa é a sua visão da sociedade: um conjunto de categorias sociais e seus representantes, que devem ser protocolados e registrados estatalmente para gozar do direito à existência. O PT - e a sociedade brasileira inteira está ficando assim - é a encarnação mais perfeita da máxima de Mussolini: Tutto nello Stato, niente al di fuori dello Stato, nulla contro lo Stato ("Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado"). 

É nesse clima que se insere o PL 122-06. Sentindo-se inflados pelo amparo policialesco do Estado, muitos ativistas gays cederam à tentação do totalitarismo, vislumbrando a chance de obter uma vingança contra a sociedade que não os aceitou como eles gostariam. Mas o que dizer de pessoas que, em troca de poder político, promovem esse tipo de coisa? O que dizer de um governo que, numa atitude que poderíamos qualificar tecnicamente de satânica (de acordo com o sentido bíblico do termo), estimula os piores sentimentos nas pessoas: a vontade de acusação, o desejo de vingança, o ressentimento, a auto-vitimização? Perto de pessoas que fazem isso, até mesmo o truculento deputado Jair Bolsonaro pareceria tão bondoso e sereno quanto São Francisco de Assis.

Penso que a maior vítima do PL 122-06 é a própria Bianca (ou José Ricardo). Em lugar de assumir com firmeza e dignidade uma opção de vida que foge à norma (e, graças a Deus!, as sociedades democráticas o permitem), os nossos "donos do poder" querem que ela se torne uma criatura mimada e auto-indulgente, cujo ódio e sede de vingança acabam por desnaturar sua própria homossexualidade. Afinal, ninguém pode ser sexualmente feliz se é obrigado o tempo todo a ostentar o seu desejo estampado numa bandeira em passeatas e comícios. Nesse caso, a homossexualidade passa a ser uma essência imutável e aprisionadora, sob a qual a condição humana acaba por se dissolver. De tanto querer afirmar sua sexualidade, o ativista gay acaba se esquecendo de que, antes de ser homossexual, ele é um ser humano, e apenas enquanto tal ele é sagrado. 

Por fim, quero dizer que não ficaria nem um pouco triste se tivesse um filho homossexual, mas ficaria arrasado, em compensação, se meu filho fosse um gay à la Luis Mott ou Toni Reis, pessoas cheias de baixos sentimentos e desejo de poder. Queria um dia ser acusado de "homofóbico" por gente desse tipo, para ter o prazer de mover-lhes um processo por injúria e difamação, acompanhado das palavras gentis: "homofóbico é a p#%@ que o pariu!".