sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Nota adicional sobre o invasor da Casa de Rui Barbosa

A propósito do assunto tratado no post anterior,  gostaria de fazer uma denúncia aqui. Em 2009, o jornalista e blogueiro Reinaldo Azevedo já havia acusado a omissão de Emir Sader em relação a mensagens de apologia ao nazismo e antissemitismo enviadas por leitores ao blog que Sader mantém numa tal de Agência Carta Maior (ler aqui e aqui). Na época, Emir Sader escrevera uma série de textos onde acusava Israel de estar perpetrando um "novo holocausto".

Mais de um ano depois, em maio de 2010, o "Emir dos Crentes" não apenas não retirara as mensagens pró-nazistas, como escrevera novos textos de incitação ao ódio contra Israel, seguidos, como era de se esperar, de novos comentários racistas e antissemitas por parte de seus leitores (com aprovação do dono do blog, que, enquanto tal, é moderador dos comentários).

No texto intitulado "Israel: novo massacre humanitário?", Sader dizia coisas como: Israel construíra muros na Faixa de Gaza para "não apenas tornar inviável a vida e a sustentabilidade econômica da Palestina, mas humilhar a população que lá resiste". Ou: Gaza está "cercada como se fosse um campo de concentração pelas tropas do holocausto contemporâneo". E ele concluía o texto da seguinte maneira:

"Quem representa perigo para a paz na região e para a paz mundial? O Irã ou Israel? Quem perpetra massacres após massacres contra a indefesa população palestina? Quem impede que a decisão da ONU seja colocada em prática, senão Israel e os EUA, bloqueando a única via de solução política e pacifica para a região – o reconhecimento do direito palestino de ter seu Estado? Quem comete os piores massacres no mundo de hoje, senão aqueles que foram vítimas do holocausto no século passado e que se transformaram de vítimas em verdugos?"

Abaixo do texto, quase como um resultado do tom goebbeliano usado pelo autor, os  "crentes do Emir" comentavam coisas do tipo (mantenho a linguagem e o mau português usado: os leitores daquele blog têm a quem puxar):

"os EUA que levem eles [os israelenses] para o deserto Americano, bando de invasores, e assassinos que se escondem atrás de uma bandeira do holocausto!!!!!!!!" (Marcos, 04/06/2010).

 "Está na hora do mundo começar a ver quem é quem. Esses judeus devem ser levados para a lata de lixo da história. São mostros e aqueles que os apoiam (EEUU) são ainda piores. Esses malditos têm que ouvir nossos gritos" (Luiz Che, 04/06/2010).


"A ONU precisa agir, os judeus já causaram duas guerras mundiais, até quando vamos assistir eles causarem a terceira??????" (Luis José Ariosto Pereira Silva, 03/06/2010).


"VIVA O HAMAS !" (Chauke Stephan Filho, 02/06/2010).


"COMO O HITLER FOI INCOPETENTE, QUE DEUS O TENHA ... SE TIVESSE FEITO O SERVIÇO DIREITO, HOJE NÓS ESTARÍAMOS LIVRES DESSA 'RAÇA DE VÍBORAS'" (Antônio Alberto Pe Alberto Mendes Ferreira, 02/06/2010).

Esses são apenas alguns exemplos entre muitos outros comentários de mesmo teor, todos ainda hoje (18/02/2011) exibidos no blog de Emir Sader.

Estamos diante de um caso sério. Como previsto no artigo 20, parágrafos 1 e 2, da Lei n. 7716 de 5 de janeiro de 1989, o racismo e a apologia ao nazismo (praticada, induzida ou incitada) são crimes inafiançáveis, sujeitos a pena de 1 a 3 anos de reclusão. O Ministério Público precisa agir contra o blog deste senhor que ora ocupa a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa. O blogueiro deveria ser obrigado a retirar o material criminoso ou, então, sujeitar-se à pena da lei.

De todo modo, é uma vergonha nacional o fato de termos na presidência de uma importante fundação cultural alguém que se mostra conivente com aquele tipo de mensagem, que vai contra todos os compromissos assumidos pelo Brasil em diversos tratados internacionais, que incluem o combate a toda forma de discriminação racial e o repúdio ao nazismo, em particular.

Afirmo então com todas as letras: Emir Sader não está qualificado para ocupar o cargo para o qual foi designado, e que ora conspurca e emporcalha.

Para os leitores que quiserem denunciar aquele blog por prática, indução ou incitação ao antissemitismo e à apologia ao nazismo, é possível fazê-lo neste link do Ministério Público Federal. A denúncia pode ser feita por qualquer pessoa, sob a condição de estar dentro das atribuições do MPF, o que é o caso ("racismo pela internet").

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

"Quem entrou com os sapatos sujos de lama na minha casa?" (Rui Barbosa, revirando-se no túmulo)

"O ilustre Emir dos Crentes deve aprender história no curso primário antes de escrever 'Em Defesa da História' nos jornais burgueses de Brasília, Rio e São Paulo, essas mesmas folhas que acusa de colaborarem no 'festival do pensamento único que assola nossa imprensa'. Mas talvez tenha razão: o festival de pensamento único que assola nossa imprensa e o 'clima de impunidade' com idéias estrambólicas é a mesma orgia ideológica de que o comendador está, precisamente, gozando com seus comparsas..."
 (José Osvaldo de Meira Penna, Jornal da Tarde, 1999)

E seguindo o projeto que seus principais ideólogos determinaram há mais de 30 anos - e que vinha na esteira do revisionismo da esquerda mundial, após a revelação dos horrores da "ditadura do proletariado" russa - o PT dá mais um passo rumo à politização completa da cultura e à doutrinação ideológica em tempo integral. Refiro-me precisamente à nomeação, pela ministra da Cultura Ana de Hollanda, de Emir Sader para presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa. Quem é Emir Sader? Recordar é viver. Para muitos que, como eu, o supunham sepultado, ele ressurge como um zumbi de clip do Michael Jackson. Nada como sucessivos governos do PT para revigorar e resgatar a nata da sociedade brasileira: Collor, Sarney, Zé Dirceu e agora... Emir Sader - o "Emir dos Crentes", como o chamou José Osvaldo de Meira Penna em artigo, aliás, memorável (ver aqui).

Emir Sader é algo como um Australopithecus intelectual: ele recusa-se a sair da Guerra Fria, e move, ainda hoje, um combate ideológico incansável contra o capitalismo yankee. Sader já escreveu muitos textos contra o capitalismo (aliás, ele só escreve sobre isso, seja qual for o assunto manifesto do texto. Sader deve ser capaz de criticar o capitalismo até no cartão de natal que manda para a tia-avó), chegando, inclusive, a exaltar Hugo Chavez como um defensor dos pobres e excluídos venezuelanos contra as "elites" capitalistas e imperialistas.

Emir Sader é um herdeiro da tradição da esquerda hegeliana, de gente como Feuerbach, Marx, Engels e afins. Como todos aqueles pensadores, Sader também vê um sentido na história. Mas, ao contrário deles, o sentido da história para Sader é bem menos grandiloqüente. O ponto culminante da história humana já não será a sociedade sem classes ou a desalienação dos homens. Para Sader, o ponto culminante da história é a instauração de uma ordem social que obedeça ipsis litteris as diretrizes estabelecidas nos congressos internos do PT. Em lugar da sociedade sem classes, Sader sonha com a sociedade sem oposição.

Emir Sader é mais que um intelectual orgânico. Ele é um intelectual intestinal, um intelectual visceral, um intelectual de partido. Ele é a encarnação máxima desse escandaloso oxímoro que, no Brasil de hoje, tem se tornado cada vez mais freqüente: Sader é e sempre foi um intelectual do PT. (Aliás, como ele mesmo informa em seu Currículo Lattes, Sader é um "especialista em Lula", seja lá o que isso signifique).

No caso de Sader, de fato, nem se pode chegar a falar, como Julien Benda, em "traição dos intelectuais". Sader só poderia ser considerado um "intelectual" no sentido muito amplo que o termo ganhou hoje em dia, especialmente no Brasil, incluindo desde apresentadores de televisão e jornalistas, até, eventualmente, cantores, rappers e - por que não? - drag queens. Portanto, Sader não está propriamente traindo nada. Ele está fazendo exatamente aquilo que "intelectuais" como ele foram designados para fazer: guerra cultural, doutrinação ideológica, manipulação psicológica - em suma, a modelagem espiritual da sociedade, para que esteja "preparada" para aceitar docilmente os desígnios do governo. O problema, pois, não é realmente de Emir Sader. O problema é de uma sociedade que, por absoluta falta de parâmetros, o toma por intelectual legítimo, permitindo que se delegue a ele a direção de uma importante instituição cultural.

Em suma, não é difícil perceber que Emir Sader não quer refletir sobre ou compreender o que quer que seja, ele quer transformar a realidade para que ela se encaixe mais facilmente nos planos civilizacionais (e quiçá cósmicos! Recorde-se o incômodo de Lula com o fato de a Terra ser redonda) do PT. Ser "intelectual", no sentido em que o é Emir Sader, significa, na realidade, ser um agente de transformação social.

A entrevista em que Sader explica seus planos futuros para a Fundação é muito ilustrativa (ver aqui). Para começar, ele diz que quer incentivar a intelectualidade a produzir uma reflexão "mais contemporânea" sobre o Brasil. E, mais uma vez, percebe-se logo a distância que separa a atividade intelectual legítima - que, recordo Benda mais uma vez, recusa-se a sacrificar a busca pelos dados universais e permanentes da realidade às contingências temporais e interesses pragmáticos - daquilo que Sader chama de intelectualidade. 

Sader acha que o pensamento, para ser relevante, ter que ser "atual". Ou seja, a atividade intelectual, tal como concebida por Sader, não se distingue fundamentalmente da moda e do show business. E, em segundo lugar, a atividade intelectual tem que refletir o contexto espaço-temporal em que é exercida - no caso, o Brasil contemporâneo. Ou seja, a intelectualidade que adentrar a Casa de Rui Barbosa terá que produzir alguma coisa atual e brasileira, o equivalente do Pré-Sal na esfera da cultura.

Mas não é só isso. Sader exige mais da intelectualidade. Diz ele:

"Existe uma nova maioria política e social no país, que eu diria que é progressista, mas que ainda é sensível a temas obscurantistas, como se viu na campanha com a discussão sobre o aborto. É preciso consolidar essa maioria política e social com uma nova sociabilidade, novos valores, de solidariedade. É preciso tratar de ter políticas culturais que consolidem na cabeça das pessoas as razões pelas quais o Brasil está melhor. Ajudá-las a tomar consciência social"

Aí fica claro o sentido da história para Sader. Ele está convicto que existem certos temas "obscurantistas" que, a despeito de todo o progresso social, econômico e moral trazido pelo governo do PT, ainda (!!!) persistem na mentalidade de muitas pessoas. Ou seja, como os velhos filósofos da história, o intelectual governamental projeta uma progressão histórica e, colocando-se no ponto culminante de tal escalada, avalia, com superioridade, os supostos avanços e retrocessos de todos que vêm vindo atrás.

Ele não gosta da discussão sobre o aborto e quer nos convencer de que o mundo ideal será aquele em que ninguém mais se preocupe com isso. Os que insistirem no tema receberão a pecha de "obscurantistas" (será que Sader realmente sabe o significado da palavra?) e serão banidos do paraíso terreno prometido por Emir Sader, o Messias.

Sader nem se dá conta de que uma grande parcela da sociedade brasileira (talvez a maioria) é contra o aborto e, nisso, ela está em plena harmonia com a nossa lei penal, que o pune como delito. A questão só surgiu durante a campanha eleitoral porque a então candidata Dilma Roussef, agora presidente e chefe de Sader, mentiu sobre sua posição, com fins eleitoreiros. Uma boa parcela da população percebeu a fraude mas, infelizmente, graças à atuação de "intelectuais" como Sader, eles foram satanizados e tidos como obscurantistas, o que serviu para intimidar o restante da sociedade.


Sader não tem nenhuma vergonha em admitir que pretende promover políticas culturais "que consolidem na cabeça das pessoas as razões pelas quais o Brasil está melhor". Isso no meu tempo chamava-se lavagem cerebral. Sader quer nos impor a marteladas e gritos de "aprende desgraçado!" (método chamado eufemisticamente de "consolidação") duas idéias: a primeira, a de que o Brasil está melhor (e quem ouse discordar disso será sumariamente rotulado de obscurantista, elitista, direitista ou coisa pior); a segunda, a de que as razões da melhora tampouco podem ser discutidas; Emir Sader, por meio de suas políticas culturais, é quem irá determiná-las (digo, "consolidá-las"). 


Enfim, o sujeito diz uma coisa dessas e ninguém parece achar nada demais. E já que, provavelmente, ninguém irá manifestar-se sobre o assunto, sinto-me na obrigação de responder a Sader, nem que seja por desencargo de consciência: "Vai consolidar coisas na cabeça da senhora sua progenitora! Comigo não, violão!"

Por fim, destaco apenas mais um trecho da entrevista. Como bom intelectual orwelliano, funcionário exemplar do Ministério da Verdade, Sader diz, em castiça novilíngua, que a Fundação promoverá um "pluralismo" de idéias. Em seguida, ele menciona alguns possíveis palestrantes convidados: Noam Chomsky, Marilena Chauí, José Luis Fiori, Eduardo Galeano, István Mészáros. 

Como se pode ver, haja pluralidade. Pluralidade assim, só mesmo nas reuniões do Comintern... O "debate plural de idéias", na novilíngua sadérica, significa isso: um encontro de viúvas da URSS.

Pobre Rui Barbosa (e saudades dos tempos em que o Brasil contava com intelectuais do porte de um Rui Barbosa)! Deve estar tendo espasmos no túmulo. Jamais ele recebeu em casa um hóspede tão espaçoso, inoportuno e mal-educado.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"An-Nakba": O significado da queda de Hosni Mubarak (Parte III)

(Ler Parte II)

Gostaria muito de saber de onde Fernando de Barros e Silva tirou a idéia de que a Irmandade Muçulmana é composta por uma maioria moderada. Gostaria de saber também onde o Globo Online encontrou a informação de que aquela organização é atualmente laica. Seria interessante ainda saber quais as garantias que a sra. Arlene Clemesha tem para oferecer a Israel sobre as intenções pacíficas da Irmandade Muçulmana. Declarações politicamente corretas em programas de televisão, desacompanhadas de qualquer fundamento na realidade, não valem muita coisa nesse caso.


Disse que gostaria de saber todas essas coisas mas, na realidade, isso foi uma peça de retórica. Eu sei exatamente de onde nossos comentaristas colheram a idéia de que a Irmandade Muçulmana tornou-se uma organização moderada e democrática. Eles a colheram nos principais jornais norte-americanos e europeus, como o New York Times ou o Guardian. Esses últimos, por sua vez, colheram-na num artigo publicado em 2007 no Foreign Affairs,  periódico oficial do Council of Foreign Relations (CFR), o mais poderoso think tank norte-americano. Boa parte das idéias em circulação no mercado de opiniões públicas no Ocidente hoje sai do CFR.


Intitulado "The Moderate Muslim Brotherhood", e autorado por Robert S. Leiken e Steeven Brooke, o texto dizia que a organização islâmica tinha abandonado seu passado fundamentalista e que, não sendo mais um bloco monolítico, estaria plenamente capacitada ao diálogo e cooperação com o Ocidente. Escreveram os autores:


"A Irmandade é uma coleção de grupos nacionais com diferentes características, e as várias facções discordam sobre a melhor maneira de conduzir sua missão. Mas todas rejeitam a jihad global, ao mesmo tempo em que encampam as eleições e outros elementos da democracia" (grifos meus).


Criticando o artigo de Leiken e Brooke, Patrick Poole, do Front Page Magazine (ver "Mainstreaming the Muslim Brotherhood"), lembrou que, no próprio ano de 2007, o então líder da Irmandade Muçulmana Mohammed Akef fez comentários nada moderados a respeito do conflito entre Israel e o Hezbollah. Não somente Akef foi um dos primeiros líderes no Oriente Médio a congratular o grupo terrorista por ter violado as fronteiras e capturado dois soldados israelenses, como também declarou que enviaria 10.000 jihadistas para lutar ao lado do Hezbollah contra as forças israelenses. Quando as demais lideranças árabes não seguiram sua proposta de oferta militar ao Hezbollah, Akef declarou: "Se eles não fossem muçulmanos, nós os teríamos matado, porque eles são uma maior ameaça à nação do que Israel". Diante disso, Poole então questionou: 


"Seria interessante saber de que modo Leiken e Brooke explicariam como esse cenário  coaduna-se com sua tese de que a Irmandade Muçulmana - cujo líder supremo prometia 10.000 jihadistas em apoio à organização terrorista Hezbollah, cogitando o assassinato daqueles que não fizessem a mesma oferta - está 'rejeitando a jihad'"


Não há nada de muito estranho no fato de que o CFR ache conveniente dourar a pílula de uma organização anti-americana, posto que, sendo um think tank francamente globalista, qualquer enfraquecimento da posição norte-americana (e também israelense) no cenário internacional lhe é, em alguma medida, interessante. Mas a verdade é que nada na história da Irmandade Muçulmana parece indicar uma disposição para o diálogo com Israel, ou uma postura moderada, ou um interesse sincero pelos problemas da população egípcia. 


Para se ter uma idéia inicial, basta notar que Mustafa Mashhur, principal líder da Irmandade Muçulmana do Egito de 1996 a 2002, escreveu um livro intitulado A Jihad é o caminho (uma tradução está disponível aqui). Na obra, Mashhur explicava os conceitos fundamentais da ideologia da organização, que incluíam propostas como a criação de um Estado islâmico, a dominação mundial pelo Islam, a necessidade da Jihad ("guerra santa") contra os infiéis (rótulo que não inclui apenas Israel, mas o Ocidente como um todo) e a importância de não desistir da Jihad até que um Califado Universal tenha sido imposto.

A Irmandade Muçulmana (Hizb al-Ikhwan al-Muslimun) - cujo lema é "Alá é o nosso objetivo. O profeta é nosso líder. O Corão é nossa lei. A Jihad é nosso método. Morrer em nome de Alá é nossa maior esperança" - surge em 1928, criada por Hasan al-Banna, um jovem professor de 22 anos de idade, simpatizante do nazismo. A organização surge como um movimento revivalista islâmico, na esteira da queda do Império Otomano e da conseqüente extinção do califado como sistema de governo, que havia unificado os muçulmanos por cerca de 400 anos.

Hasan al-Banna baseou sua visão do Islam como um modo total de vida - mais do que simplesmente uma orientação religiosa - no antigo Wahhabismo (conhecido atualmente como "islamismo"). O Wahhabismo é uma tradição de interpretação radical do Corão, surgida no século XVIII pelas mãos de Mohammad Ibn Abdul Al-Wahhab. O Wahhabismo afirmava ser falso qualquer ensinamento acrescido ao Islam após o século X. Os wahhabistas vislumbravam um Império Islâmico liderado por homens santos, guiados exclusivamente pela pura lei islâmica (shari'a). Por esse motivo, eles são chamados de "fundamentalistas islâmicos", sendo o modelo inicial do que se entende hoje por esse termo. 


O movimento wahhabista já justificava o uso de violência para livrar-se dos elementos não-islâmicos no mundo árabe. Na década de 1920, a Muttawa, polícia religiosa do Wahhabismo, promoveu o terror em cidades sauditas. Igrejas, sinagogas e quaisquer locais não-islâmicos de culto foram incendiados e, mais tarde, viriam a ser proibidos.

A partir da década de 1920, o Wahhabismo foi tornando-se cada vez mais radical. Naquele período, a Arábia Saudita recém descobrira suas principais reservas de petróleo e, a partir de então, começou a fazer negócios com o mundo não-islâmico, sobretudo com os EUA. Wahhabistas radicais revoltaram-se contra as relações com o Ocidente. A revolta foi reprimida com violência pelo governo saudita, o que fez com que vários wahhabistas fugissem para outras regiões, especialmente o Egito. 


Naquele país, o Wahhabismo iria se reorganizar na forma da Irmandade Muçulmana, criada por Hasan al-Banna. Do Egito, ela espalhou-se para outras partes do mundo islâmico, sobretudo através da atuação de Amin al-Husseini (outra importante liderança da Irmandade), vindo a tornar-se mais tarde a grande fomentadora de grupos terroristas como o Hamas e a Jihad Islâmica. 


Al-Husseini foi um aliado de Hitler na Segunda Guerra, tendo criado tropas nazi-islâmicas - que chamava de "a nata do Islam" - e participado ativamente do extermínio de judeus. Husseini foi o principal importador da metodologia nazista para o Oriente Médio. Yaser Arafat, aos 17 anos, entrou na Irmandade Muçulmana sob a sua tutela.

Mas o grande nome da Irmandade Muçulmana e do islamismo em geral é, sem sombra de dúvida, Sayyid Qutb (1906-1966), um brilhante pensador egípcio e principal mentor intelectual da moderna Jihad. Qutb exerceu forte influência espiritual e intelectual sobre, entre outros, Ayman al-Zawahiri (membro da Irmandade, aos 15 anos de idade) e Osama bin Laden, os dois principais nomes da rede terrorista al-Qaeda.

Além de exímio exegeta corânico, Qutb era um profundo conhecedor da filosofia ocidental, e suas interpretações do Corão eram mediadas por este filtro teórico. Sendo uma das principais figuras da Irmandade Muçulmana em sua época, Qutb estudou nos EUA, na University of Northern Colorado, onde obteve o título de mestre em educação. 


De modo não muito diferente de pensadores ocidentais modernos como Rousseau, Freud, Marcuse, Foucault e muitos outros, Qutb criticou a decadência espiritual e moral do Ocidente, que ele via como uma espécie de doença contagiosa - jahiliyyah. Esse conceito corânico – que, originalmente, referia-se a um estado de ignorância ou afastamento de Deus, remetendo à condição humana anterior à revelação do Corão ao profeta Mohammed – foi fortemente politizado por Qutb (ver KHATAB, Sayed. 2006. The Political Thought of Sayyid Qutb: The Theory of Jahiliyyah. LondonNew York: Routledge).


O intelectual egípcio alertava para a necessidade de um pensamento renovador, purificado do consumismo e do materialismo. Mas, como afirma Paul Berman (cf. Terror and Liberalism. New YorkLondon: W. W. Norton & Company, 2004, p. 69), Qutb não era um anti-modernista. Ele apreciava a produtividade econômica e o conhecimento científico, apenas afirmava a necessidade de escapar das ilusões das benesses materiais. 


Qutb pretendia formar o que chamava de uma “vanguarda islâmica”, dedicada a construir um novo mundo, no qual não haveria governantes e governados. Em sua visão utópica, as massas, imersas em seus desejos de consumo e paixões mundanas, precisavam ser lideradas por uma elite intelectual e moralmente superior. Tal idéia, é importante sublinhar, não tinha precedentes no pensamento islâmico tradicional. Qutb a colheu no seio do anarquismo europeu dos séculos XIX e XX, adaptando-a à linguagem corânica. (ver GRAY, John. 2003. Al Qaeda and What it Means to Be Modern. New YorkLondon: The New Press, p. 24).

É sempre importante sublinhar que a Irmandade Muçulmana não é uma organização egípcia. Do Egito, ela espalhou-se por todo o mundo muçulmano e, através do pensamento de Qutb e outros, tem sido o berço do fundamentalismo islâmico contemporâneo, com sua metodologia do terror e seus objetivos de eliminar os infiéis e universalizar a Shari'a, a lei islâmica, para todo o mundo. 


Pelo simples exame da atuação de alguns de seus membros ao longo da história, é possível ver que a organização é comprometida até a medula com a Jihad e, conseqüentemente, com o terrorismo (ver esse artigo de Douglas Farah sobre a estrutura global da Irmandade Muçulmana e seu apoio financeiro a grupos terroristas). Cito apenas alguns exemplos: 

1) Abdullah Azzam: ao lado de Muhammad Qutb (irmão de Sayyid Qutb), Azzam lecionou na universidade Rei Abdul Aziz, em Jidda, onde, entre outros alunos, teve ninguém menos que Osama bin Laden. Azzam foi para o Paquistão com seu aluno preferido, para ajudar os mujahidin na luta contra os soviéticos no Afeganistão.

2) Ayman al-Zawahiri: braço-direito de bin Laden, Zawahiri foi educado na Irmandade Muçulmana do Egito.

3) Khalid Sheikh Muhammad: membro da al-Qaeda, e um dos mentores dos antentados de 11 de setembro de 2001, foi formado na Irmandade Muçulmana do Kwait.

Diversos outros nomes poderiam ser citados, mas esses bastam para comprovar que a Irmandade Muçulmana é a grande incubadora da ideologia jihadista. O curioso é que, enquanto esse dado vem sendo negado por boa parte da opinião pública no Ocidente, ele é amplamente reconhecido no próprio mundo árabe. 


Por exemplo, o Dr. Ahmad Al-Rab'i, ex-ministro da educação do Kwait, disse em 2005 que os fundadores dos principais grupos terroristas do Oriente Médio emergiram do "manto" da Irmandade Muçulmana. Já em 2007, Tariq Hasan, colunista do diário egípcio Al-Ahram, alertou seus leitores de que a Irmandade Muçulmana estava preparando uma violenta sublevação no Egito, empregando suas "milícias mascaradas" para replicar o exemplo do Hamas na Faixa de Gaza. Também em 2007, o colunista Hussein Shobokshi, do saudita Al-Sharq al-Awsat, escreveu que "até o presente momento, a Irmandade Muçulmana não ofereceu nada além do que fanatismo, divisões, extremismo e, em alguns casos, banhos de sangue e extermínios" (ver aqui).

Ou seja, na contra-corrente dos veículos de informação no Oriente Médio - que, diante do histórico daquela organização, têm demonstrado uma salutar suspeita em relação à aparência moderada recém assumida pela Irmandade Muçulmana -, uma grande parte dos veículos de informação no Ocidente parecem acreditar sem reservas na versão da organização islâmica. Acho difícil que a mera ignorância ocidental em relação ao islamismo possa explicar esse desencontro de opiniões.

Tendo a concordar com a explicação de Lorenzo Vidino e Daniel Pipes. Ambos os analistas sugerem que a expansão da Irmandade Muçulmana vai além das fronteiras do Oriente Médio, chegando mesmo até a Europa e os EUA. E é claro que, nesse tipo de "guerra de penetração ideológica", se podemos chamar assim, o islamismo sempre levará vantagem. É sempre mais fácil introduzir uma determinada ideologia em países democráticos, que possuem uma tradição de tolerância com opiniões divergentes, do que o contrário.

Desde a década de 1960, explica Vidino, membros e simpatizantes da Irmandade Muçulmana têm migrado para a Europa e, lenta mas incansavelmente, estabelecido uma ampla e bem organizada rede de mesquitas, instituições de caridade e organizações islâmicas. Com uma retórica moderada e falando fluentemente o alemão, o inglês ou o francês, aquelas pessoas ganharam a confiança de governos e da opinião pública européia. Políticos das mais variadas tendências procuram envolvê-las em assuntos que digam respeito ao Oriente Médio, assim como para atrair os votos da comunidade islâmica.

Ocorre que, longe dos holofotes da opinião pública ocidental, e falando em árabe ou turco com seus pares, os membros da Irmandade Muçulmana costumam retornar ao radicalismo e à agenda de sempre: Jihad, Jihad e Jihad. Enquanto seus representantes falam na televisão acerca de diálogo ecumênico e integração, suas mesquitas continuam a pregar o ódio e a alertar seus fiéis sobre os males da civilização ocidental.

Em suma, a guerra de propaganda islâmica, intensificada com a criação da OLP, vem surtindo efeito. Talvez isso explique o sucesso em convencer boa parte do mundo ocidental (especialmente a parcela liberal e anti-colonialista) da justeza da causa islâmica. Não por acaso, muitos formadores de opinião no Ocidente têm descrito a situação no Egito como uma luta inequívoca por direitos civis, humanos, e pela democracia. É claro que muita gente no Egito talvez queira mesmo isso, mas atribuir esses objetivos à Irmandade Muçulmana é uma leviandade.

Ainda que, para os ouvidos ocidentais, a Irmandade Muçulmana venha, já há alguns anos, falando a língua da democracia e da tolerância, internamente eles continuam a defender a velha doutrina wahhabista. É fácil comprovar esse fato. Em setembro de 2010, por exemplo, o guia supremo da Irmandade Muçulmana, Muhammad Badi', proferiu um sermão - reproduzido (somente em árabe!) na página oficial da organização - no qual acusava os regimes árabes e muçulmanos de oprimir suas populações, evitando com isso o confronto com os verdadeiros inimigos - os sionistas e os EUA -, e de ignorar o mandamento de Alá para lançar a Jihad contra os infiéis. Nas palavras de Badi': 

"Os muçulmanos hoje precisam desesperadamente desenvolver uma mentalidade de honra e poder, que os torne capazes de confrontar o sionismo global. Esse movimento não reconhece outra linguagem além da força, e os muçulmanos devem, então, enfrentar o ferro com ferro, e os ventos com tempestades ainda mais violentas. Eles precisam compreender de uma vez por todas que o progresso e a mudança buscados pelas nações islâmicas só podem ser atingidos através da Jihad e do sacrifício, mediante o surgimento de uma geração jihadista que anseie pela morte assim como os inimigos anseiam pela vida" (ver aqui).

Diante dessa declaração, vinda da boca da maior autoridade da organização islâmica, a tese dos articulistas do CFR - qual seja a de que todas as correntes da Irmandade Muçulmana rejeitam a jihad global - soa cada vez mais estapafúrdia. Não houve uma mudança significativa na orientação ideológica do grupo desde seu início até os dias de hoje. 


Compare-se, por exemplo, as palavras de Muhammad Badi' àquelas proferidas por Sayyid Qutb em sua obra-prima In the Shades of the Qur'an (fī ẓilāl al-qur'ān) - escrito entre os anos de 1951 e 1965, enquanto Qutb estava preso no Egito, acusado de ter planejado o assassinato do presidente Gamal Abdel Nasser. Comentando a sūrah 2 do Corão (intitulada "a novilha"), Qutb afirmara então:

"A vida é caracterizada sobretudo pela atividade, crescimento e persistência, enquanto a morte é o estado de total perda de função, de completa inércia e ausência de vitalidade. Mas a morte daqueles que são assassinados pela causa de Deus confere um maior ímpeto à causa, que continua a pulsar em seu sangue. Sua influência sobre aqueles que deixou para trás também cresce e se espalha. Assim, após a morte, eles permanecem uma força ativa, moldando a vida de sua comunidade e lhe oferecendo um rumo. É nesse sentido que essas pessoas, tendo sacrificado suas vidas em benefício de Deus, mantêm sua existência ativa na vida cotidiana... Não há um real sentido de perda em sua morte, pois elas seguem vivendo" (citado por Paul Berman em Terror and LiberalismNew York & London: W. W. Norton & Company. 2004, p. 102).

Note-se que, nos últimos 60 anos, pouca coisa mudou no discurso real da Irmandade Muçulmana. De Hasan al-Banna, Amin al-Husseini, Sayyid Qutb até Muhammad Badi', o apelo à Jihad contra os infiéis continua vivo. 


Cabe agora ao leitor decidir se vai acreditar nas palavras dos próprios líderes da Irmandade Muçulmana,  ou na versão adocicada plantada no CFR e colhida inocentemente (na melhor das hipóteses, torno a dizer) pelos nossos jornalistas e bem-pensantes. 

Por fim, quero dizer que a população egípcia merece, de fato, livrar-se da ditadura de Mubarak. Mas que ela fique atenta para não sair de uma ditadura ruim apenas para cair nos braços de outra ainda pior, a exemplo do que ocorreu no Irã. Isso sim seria uma verdadeira catástrofe (an-Nakba) não apenas para eles mesmos, mas também para o resto do planeta. Torço muito para que não aconteça. In šāʾ Allāh!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"An-Nakba": O significado da queda de Hosni Mubarak (Parte II)

(Ler Parte I)

O Estado de Israel foi criado em um processo legal e pacífico pelas Nações Unidas. Ele não foi criado em "terras palestinas", mas no território do antigo Império Otomano, comandado  durante centenas de anos pelos turcos, que o perderam após terem sido derrotados na Primeira Guerra. 

Como mostra David Meir-Levi em Big Lies: Demolishing the Myths of the Propaganda War against Israelnão havia "terras palestinas" na época, pois não havia nenhum povo dizendo-se "palestino". O que havia ali eram árabes que se diziam sírios. Foi somente após a Primeira Guerra que os atuais estados da Jordânia, Síria, Líbano e Iraque foram criados - artificialmente criados, a partir do antigo império turco, pelos ingleses e franceses, vitoriosos na guerra. A Jordânia foi criada sobre cerca de 80% do Mandato Britânico da Palestina, originalmente considerada parte do território dos judeus pela Liga das Nações. Desde então, os judeus foram proibidos de possuir terras ali.

Em 1947, o plano de partilha das Nações Unidas determinou a criação de dois estados nos 20% restantes do Mandato Britânico: o estado de Israel, para os judeus; e um outro estado, para os árabes. Esses últimos rejeitaram seu estado e lançaram-se numa guerra contra Israel. Eis a principal razão do problema dos refugiados.

Os refugiados árabes eram cerca de 725.000 pessoas, que fugiram por causa da guerra que os estados árabes - e não os árabes palestinos - iniciaram. Os estados árabes - ditatoriais em sua totalidade - não queriam um estado não-árabe no Oriente Médio. Os líderes de oito nações árabes, cujas populações ultrapassavam em muito a de colonos judeus, deram início à guerra, com invasões simultâneas ao recém criado Estado de Israel. Israel clamou por paz e ofereceu-se para cooperar com seus vizinhos. Os ditadores árabes rejeitaram a oferta e prosseguiram numa guerra de aniquilação contra os judeus. 

A guerra fracassou e Israel saiu-se vitoriosa. Mas o clima de tensão prosseguiu graças à recusa dos estados árabes - especialmente de Arábia Saudita e Iraque - em assinar um tratado de paz com Israel. Até os dias de hoje, os estados árabes, e os palestinos de modo geral, referem-se ao fracasso de sua agressão e à sobrevivência do Estado de Israel pela expressão an-Nakba - "a catástrofe".


Tendo sido derrotados militarmente, os principais líderes árabes partiram para uma guerra verbal e ideológica contra Israel (o que não excluía, é claro, o fomento a grupos paramilitares e terroristas). De modo a justificar os ataques terroristas e a ganhar o apoio da parcela liberal do Ocidente, os estrategistas árabes resolveram acusar Israel de ser uma superpotência de tipo colonial ou imperial. Com isso, eles mascararam seu único objetivo político - eliminar o Estado de Israel - com as vestes do discurso anti-colonialista tão apreciado pela esquerda ocidental.


Foi assim que a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) - ela própria uma criação da KGB (ver Red Horizons, de Ion Mihai Pacepa) - inventou o "povo palestino", numa das mais bem sucedidas farsas da história.


Logo após assumir a liderança da OLP, uma das primeiras medidas de Yasser Arafat foi enviar seu secretário pessoal, Abu Jihad (que viria a ser líder das operações militares da organização), para o Vietnã do Norte, para que se inteirasse das estratégias e técnicas da guerra de guerrilha. Arafat estava impressionado com o sucesso de Ho Chi Min em atrair a simpatia de intelectuais progressistas e liberais dos EUA e Europa. Intelectuais ativistas nos campus das principais universidades norte-americanas vinham conseguindo transformar simbolicamente a ocupação comunista no sul do Vietnã em uma luta por libertação nacional contra o imperialismo yankee.


Uma dica baseada na campanha de relações públicas norte-vietnamita, que forneceu a chave para a vitória comunista e serviu de inspiração para a OLP, foi dada pelo estrategista-chefe do comando de Ho Chi Min, o General Giap: "Parem de falar em aniquilar Israel e transformem sua luta terrorista numa batalha por direitos humanos. Assim vocês terão o povo americano comendo na sua mão" (ver esse outro artigo de David Meir-Levi).


A OLP inspirou-se nesse tipo de movimento para lançar sobre Israel a pecha de potência imperial e, com isso, tingir a luta contra os judeus com as belas tintas da luta pela libertação nacional do povo palestino. O problema em toda essa ofensiva propagandística era um só, e Arafat o sabia bem: jamais houvera um "povo palestino" ou uma "nação palestina" ou qualquer unidade territorial que se pudesse chamar de "Palestina histórica".


A primeira versão da constituição da OLP, de 1964, por exemplo, dizia em seu artigo 24: "Essa organização não exerce soberania regional sobre a margem ocidental do reino Hassemita da Jordânia, sobre a Faixa de Gaza ou sobre a região de Himmah" (ver aqui). Ou seja, para Arafat, antes da Guerra dos Seis Dias, a "Palestina" era Israel. Ela não incluía a Faixa de Gaza ou a Cisjordânia, por exemplo. 


Foi em resposta à derrota na Guerra dos Seis Dias que a OLP reviu sua constituição e, na nova versão lançada em 1968, o conteúdo do artigo 24 foi completamente eliminado. A organização agora passava a alegar a soberania "palestina" sobre Gaza e a Cisjordânia


Em 1977, numa entrevista ao jornal holandês Trouw, Zahir Mushe'in, membro do Comitê Executivo da OLP, deu inadvertidamente com a língua nos dentes:


"O povo palestino não existe. A criação de um Estado palestino é apenas um meio de continuarmos nossa luta contra Israel e pela unidade árabe (...) Apenas por razões táticas e políticas falamos hoje sobre a existência de um povo palestino (...) Por razões táticas, a Jordânia, um estado soberano com fronteiras definidas, não pode requerer o controle de Haifa e Jaffa, mas enquanto 'palestino', eu posso certamente demandar Haifa, Jaffa, Beer-Sheva e Jerusalém" (ver aqui - grifos meus).


E, como informa Alan Hart, biógrafo de Arafat, o próprio líder da OLP afirmou certa vez que "o povo palestino não possui uma identidade nacional. Eu, Yasser Arafat, homem de destino, lhe darei essa identidade por meio do conflito com Israel" (ver aqui).


O plano de Arafat e da OLP foi extremamente bem-sucedido. Com uma facilidade impressionante, eles difundiram a ficção da "Palestina histórica", que teria sido invadida pelos sionistas com apoio britânico. A 'análise' de Arlene Clemesha, por exemplo, é inteiramente baseada nessa versão. A maior parte dos 'especialistas' brasileiros em Oriente Médio tende a responsabilizar Israel pelos conflitos na região e, o que é pior, até mesmo pelo terrorismo islâmico, que seria, então, uma reação desesperada à opressão israelense-americana. Essa é exatamente a versão que, para uma organização como a Irmandade Muçulmana, interessa popularizar.


(continua na Parte III)

"An-Nakba": O significado da queda de Hosni Mubarak (Parte I)

Era uma vez um paraíso encantado sobre a Terra onde os vinhedos eram abundantes e as flores brotavam por todos os lados. O solo era fértil, a água fresca e potável. Lá, não havia sinal de penúria, fome ou injustiça. O povo que ali habitava vivia feliz e saudável, e a harmonia reinava entre os seres. O paraíso chamava-se "Palestina" e os seus bem-aventurados habitantes, "palestinos". 


Eis que um belo dia vieram os cruéis sionistas e, apoiados pelos poderosos ingleses, roubaram aquela terra, exilaram seu povo e deram início a um reino de terror e limpeza étnica que perdura até os dias de hoje.


É essa visão mitopoiética a principal inspiração para a cobertura jornalística nacional da presente crise no Egito. Mais ainda, a adoção daquele mito como padrão de credibilidade jornalística tem sido praticamente unânime. Se, tempos atrás, a diversidade de linhas editoriais e de opiniões era tida como o supra-sumo de uma imprensa livre e democrática, hoje dá-se o contrário: para serem democráticos, todos (ou virtualmente todos) veículos de comunicação têm que ecoar, em uníssono, a mesma cantilena: os atuais conflitos entre judeus e palestinos são responsabilidade exclusiva de Israel que, tendo conduzido os palestinos a uma situação de miséria e opressão, agora precisa arrumar sozinho uma solução para o impasse que criou.

A mitologia descrita acima subjaz a uma avaliação curiosamente positiva, por parte de nossa imprensa, da organização conhecida como Irmandade Muçulmana, que Israel teme assuma o poder no Egito após a queda de Hosni Mubarak, praticamente inevitável a essa altura. A princípio silenciosos a respeito daquela organização, os formadores tupiniquins de opinião foram forçados a comentá-la, depois que autoridades israelenses relembraram o caso do Irã - quando, no final da década de 70, após a queda do Xá, aquele país passou a ser governado por uma teocracia islâmica totalitária, muito mais repressiva até do que fora o governo anterior, e fortemente anti-americana e anti-Israel.

Se, hoje, ainda não é possível indicar com certeza a participação da Irmandade Muçulmana na promoção da revolta aparentemente popular e espontânea no Egito, é preciso entretanto reconhecer  que, se se tratasse de uma investigação policial, a primeira pergunta a ser feita sobre os eventos seria cui bono? - ou seja, quem lucra com tudo isso? 


A resposta no caso parece ser uma só: a Irmandade Muçulmana, com seu projeto de um Califado Universal. E, se isso acontecer, o grande derrotado será Israel, que restará sem aliados, cercado por regimes que pretendem - como o presidente iraniano Ahmadinejad, por exemplo, tem reiteradamente repetido - varrê-lo do mapa.

Diante dessa possibilidade, que não representa um risco apenas para Israel, mas para todas as democracias ocidentais, o que fez a imprensa brasileira? Resposta: tratou de acusar os israelenses de paranóicos, e de embelezar a Irmandade Muçulmana com todo tipo de eufemismos e mistificações. Vejamos alguns exemplos.

Na edição da Folha de São Paulo do dia 7/02/2011, o colunista Fernando de Barros e Silva escreveu um texto intitulado "Terceira via árabe?", no qual se lê:

“A questão é saber se há espaço para uma terceira via no Egito (e no mundo árabe) - um regime que não seja nem uma ‘ditadura amiga’ dos EUA nem uma teocracia mais ou menos fundamentalista. O primeiro passo para construir esse caminho é não satanizar a Irmandade Muçulmana, principal organização religiosa do país, de maioria moderada, na ilegalidade desde os anos 50. Confundi-la com o extremismo, como querem Israel e a direita em geral, é uma tolice” (Grifos meus).


Curiosa caracterização a do colunista: Israel como uma espécie de caso particular de uma "direita em geral". "Israel" aí já não é uma palavra que designa um "objeto" tão complexo quanto uma nação, e cuja descrição deveria ser igualmente complexa. Nas mãos do colunista, "Israel" passa a ser um mero símbolo estereotipado, utilizado como arma psicológica para provocar a antipatia dos leitores (assim como "direita", "FMI", "imperialismo estadunidense", "George W. Bush" etc.) etc. Não é verdadeiramente espantoso que o colunista crie um monstrengo a quem satanizar - "Israel e a direita" - no instante mesmo em que critica a "satanização" da Irmandade Muçulmana? Como notou Reinaldo Azevedo a respeito do texto de Barros e Silva, não é que o colunista da Folha combata o preconceito - ele combate é o preconceito errado. Contra a Irmandade Muçulmana ele (o preconceito) é repudiado; já contra Israel, ele representa imparcialidade e correção jornalística. 


Mas reservemos o comentário de Barros e Silva para daqui a pouco. Vejamos mais um exemplo, tirado agora não de uma coluna de opinião, mas de uma reportagem supostamente  informativa sobre a Irmandade Muçulmana, saída no Globo Online no mesmo dia da coluna de Barros e Silva. Intitulada "Saiba mais sobre a Irmandade Muçulmana", a reportagem informava:


"FIM DA VIOLÊNCIA. No passado, o movimento teve uma divisão paramilitar, mas renunciou à violência nos anos 1950, comprometendo-se a promover política através da democracia (...) Diferente dos grupos de oposição a Hosni Mubarak da década de 90, a Irmandade tem uma liderança em grande maioria laica, formada por profissionais liberais modernos, como médicos, advogados e professores (...) Hostil a Israel e à política dos Estados Unidos na região, o grupo tem como seu maior aliado estrangeiro o movimento islâmico palestino Hamas, com quem compartilha a posição de uma luta armada contra israelenses"


Na mesma linha do artigo de Barros e Silva, a matéria no Globo Online pretende retratar a Irmandade Muçulmana como um grupo moderado e pacífico, formado não por extremistas religiosos, mas por profissionais liberais e laicos. O estranho é que o autor da matéria aparentemente não viu nenhuma contradição entre afirmar que a organização "renunciou à violência nos anos 1950" e que, ao mesmo tempo, ela tem como maior aliado o Hamas, "com quem compartilha a posição de uma luta armada contra israelenses". Prestar apoio a um grupo terrorista e, ao mesmo tempo, renunciar à violência são duas atitudes que se contradizem. Ainda que a Irmandade Muçulmana não pratique a violência com as próprias mãos, isso não significa que não comande a violência. Adolf Hitler não abria pessoalmente as torneiras das câmaras de gás. Mas vamos adiante.


Ainda no dia 7/02, o colunista Clóvis Rossi, também na Folha de São Paulo, alertava para o risco de se fazer com o islamismo no século XXI o mesmo que se fez com os judeus no século XX, ou seja, submetê-los a um processo de aniquilação. Sem oferecer ao leitor qualquer evidência de que os muçulmanos estejam passando por algo semelhante ao que passaram os judeus, Rossi faz uma estranha reclamação: "Cada vez há mais análises dizendo que 'essa gente' (i. e. os muçulmanos) não tem direito a querer a democracia porque basta que a tenham para que votem, por exemplo, no Hamas" (ler aqui).


Onde será que Rossi descobre essas tais análises? Seria de bom tom ele ter citado pelo menos uma, nem que fosse para matar a curiosidade de seu leitor. Porque, dando uma olhada nos principais veículos de comunicação brasileiros, as únicas 'análises' (se é que se pode usar o termo) que encontrei diziam o mesmo que Rossi, a saber: que os muçulmanos eram vítimas de preconceito e satanização. Rossi nem se deu conta de que, no mesmo jornal e no mesmo dia em que ele reclamava das tais análises preconceituosas contra os muçulmanos, o colunista Fernando de Barros e Silva fazia exatamente o mesmo em relação à Irmandade Muçulmana. Ou seja, Rossi não percebe que sua posição é majoritária. Desafio-o a encontrar, na grande imprensa, alguma análise que trate os muçulmanos por "essa gente". A opinião pública brasileira é quase toda pró-islâmica. E Rossi ainda acha pouco. Ele quer acabar até com as exceções.


Mas um dos casos mais significativos de parcialidade pró-islâmica (e anti-Israel) parece-me ser o da diretora do Centro de Estudos Árabes da USP, sra. Arlene Clemesha, freqüentemente convidada, na condição de especialista neutra e imparcial, para falar sobre os conflitos no Oriente Médio em programas de televisão. 


No programa Entre Aspas, da Globo News, que foi ao ar em 1/02/2011, Clemesha alertava: 


"O que chama atenção é o medo de que isso tudo possa levar a Irmandade Muçulmana ao poder (...) O problema não é o fato em si. O que causa espanto é o medo que o mundo tem disso. Por que é que têm tanto medo de um governo islâmico? (...) Eu acho que é infundado esse medo, porque os islâmicos estão ali prontos para dialogar como qualquer outra força política dentro do país. Eles não são seitas, não são grupos terroristas, são partidos políticos" (ver o programa na íntegra, o trecho acima ocorre por volta dos 6m10s).


Um fato digno de nota é que a entrevistada fez esse comentário no contexto de uma pergunta sobre a transição política no Egito. Pulando por cima da pergunta do entrevistador e do "fato em si", Arlene Clemesha parecia ansiosa por enfatizar um outro ponto, o mesmo de sempre: o medo que Israel e o resto do mundo têm de um governo islâmico é paranóico, fruto de preconceito e "orientalismo" (o guia espiritual de Clemesha e demais analistas brasileiros é Edward Said). A Irmandade Muçulmana, afinal de contas, seria um grupo pacífico, disposto ao diálogo, um partido político regular.


Arlene Clemesha já havia utilizado o mesmo argumento em relação ao Hamas e ao Fatah. Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU Online), em fevereiro de 2009, Clemesha dissera que era preciso reconhecer o Hamas e o Fatah como partidos políticos legítimos. Em suas palavras:


"Em 2006, quando o Hamas venceu as eleições, aconteceu essa situação inaceitável, ou seja, o Estado de Israel, junto com os Estados Unidos e a Europa, não reconheceu a vitória do Hamas. Então, o povo palestino elegeu, democraticamente, um governo e o mundo não reconheceu esse governo e o derrubou. Isso sim é um exercício do autoritarismo e da ingerência. É assim que colocam o Hamas como um grupo terrorista, e não um partido político legítimo" (grifos meus).


Arlene Clemesha afirma que EUA e Israel "colocam o Hamas como um grupo terrorista". Bem, só no período de 1993 a 2008, foram mortos aproximadamente 800 civis israelenses (incluindo muitas mulheres e crianças) em atentados terroristas cuja autoria foi assumida e celebrada pelo Hamas (ver aqui). 


O Hamas, o "partido político legítimo" de Arlene Clemesha, é dono da TV Al-Aqsa. Em 2007, a emissora exibia o programa infantil "Pioneiros do Amanhã". Apresentado por uma menina de 12 anos chamada Saraa Barhoum, que dialogava com um rato (cópia grotesca de Mickey Mouse) de nome Farfur ("borboleta", em árabe), ele seria mais um típico programa infantil não fossem as mensagens de supremacia islâmica e ódio aos judeus que se somavam àquelas mais tradicionais de "escove os dentes" ou "seja obediente". Num dos episódios, por exemplo, ouve-se a voz de uma criança (chamada Sanabel) que ligara para o programa. Em diálogo com os apresentadores, Sanabel - que, pela voz, não aparentava ter mais do que seis ou sete anos - afirma, entre outras coisas, querer "lutar e aniquilar os judeus" e "ser um mártir". Enquanto isso, o rato Farfur dava conselhos de como ser "o senhor do mundo" (ver aqui). 


Diante de tudo isso, é preciso muita cara-de-pau para sugerir que o Hamas seja um partido político legítimo e que a acusação de terrorismo que pesa contra o grupo não passa de uma criação americana e israelense.


Mas Clemesha não se intimida pela realidade. O exercício da cara-de-pau parece ser sua especialidade, vocação até. Naquela mesma entrevista, ela justificava a eventual violência de grupos como o Hamas afirmando que a razão para o conflito no Oriente Médio teria sido a "imigração dos sionistas para a Palestina". O problema teria se agravado em 1948, com a criação do Estado de Israel. Dizia ela:


"Precisamos levantar a questão: que legitimidade existe nessa partilha da Palestina? Como a ONU entrega a um movimento sionista uma terra que tem dono, que tem população, que tem cultura, que tem passado, enfim? (...) Será que não é mesmo hora de nós questionarmos a validade da resolução que criou essa partilha da Palestina? Agora, veja, eu não estou dizendo que vamos eliminar o Estado de Israel e jogar os judeus no mar".


Clemesha fez bem em esclarecer: ela não quer jogar os judeus no mar. Ufa! O leitor já não tinha tanta certeza. Pelo andamento da entrevista - na qual Clemesha chega a acusar os sionistas de terroristas, enquanto insiste no caráter pacífico e ordeiro do Hamas - parece que Israel é mesmo um enclave de crueldade e opressão num oásis de paz e harmonia. Clemesha não faz nenhuma referência ao fato de que Israel é a única democracia da região, e que os cidadãos palestinos que lá vivem gozam de direitos que jamais sonhariam possuir em seus territórios de origem.


Pois bem. Como se vê, aquela mitologia de origem do conflito no Oriente Médio é a única versão conhecida pelos nossos comentaristas. Só isso poderia explicar o fato de que, numa mesma semana, como se atendendo a um comando superior, diversos veículos de comunicação tenham batido de forma unânime na mesma tecla: por um lado, o caráter pacífico de organizações islâmicas e, entre elas, da Irmandade Muçulmana em particular; e, por outro lado, o caráter suspeito dos alertas feitos por Israel. 


Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é burra. A unanimidade da imprensa brasileira nesse caso parece-o ainda mais - isso na melhor das hipóteses - porque baseia-se em distorções brutais da realidade. Mas, coitada, talvez não seja justo culpá-la. Sem auto-confiança e capacidade de autonomia analítica, os nossos formadores de opinião reproduzem, inseguros, tudo o que lêem no New York Times ou escutam da boca de Noam Chomsky. 


De todo modo, é preciso desfazer as mistificações e as deturpações ideológicas que cercam a situação no Egito. Proponho aqui um breve exame da Irmandade Muçulmana para mostrar que, ao contrário do que sugerem nossas "velhinhas de Taubaté" dos meios de comunicação, Israel tem toda a razão em se preocupar. Antes, porém, é preciso dizer alguma coisa sobre a mitologia da vitimização palestina. Eis o assunto da próxima postagem.


(continua na Parte II).

Das Virtudes e Vícios do Ceticismo

Em maio de 2012, o autor destas linhas frequentava um curso preparatório para o difícil e concorrido concurso do Itamaraty. Faziam três...