sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Das Virtudes e Vícios do Ceticismo



Em maio de 2012, o autor destas linhas frequentava um curso preparatório para o difícil e concorrido concurso do Itamaraty. Faziam três anos que a revista The Economist estampara em sua capa um Cristo Redentor em forma de foguete, acompanhado da chamada retumbante: “O Brasil decola!” Éramos a sexta economia do mundo, o país vivia um clima de euforia e sonhos de grandeza, e a sua escolha para sediar a Copa do Mundo de futebol dali a dois anos (a “Copa das Copas”, na hoje tragicômica expressão da semi-presidente Dilma Rousseff) parecia confirmar o seu estatuto de potência econômica emergente.
         Numa aula de redação em inglês, foi proposto aos alunos que discorressem sobre a moção: Brazil is no longer the country of the future. It is the country of now [O Brasil não é mais o país do futuro. É o país do agora]. O meu posicionamento sobre a moção é o curto ensaio seguinte, que mantenho em inglês (posto que macarrônico), não apenas por ter sido escrito originalmente nesse idioma, mas por ser o inglês a língua por excelência do ceticismo, a língua de David Hume.
          When, in 1941, the Austrian-Jewish writer Stefan Zweig published his now eminent book "Brazil, land of the future", one could easily understand his reasons. Anguished and depressed by the extending power of the Nazi regime and anti-Semitic ideology all over Europe - a fact he had been noticing notice of since the end of World War I - he must had found a huge relief when, running away from the long winter of those European years, he eventually ended up in a kind of tropical paradise of cordiality and "racial democracy”, as Gilberto Freyre had supposedly stated less than ten years before. From his perspective then, the Brazilian society showed up as a fresh sea of possibilities. However, regardless of the hopes that the new bright and sunny country had infused him with, the fact is that Zweig still committed suicide just one year after the book had been published. On February 23, 1942 a barbiturate overdose cut short the future of the inventor of "Brazil, land of the future". This got to mean something!
          Since Zweig's book came to light, the idea of Brazil as the land of the future started to be manipulated for political and official reasons (although the author was originally referring to some positive features of the Brazilian people rather than of the Brazilian government). The idea was omnipresent, for instance, through the industrialization process in the JK years. The same could be said of the so-called "Brazilian Economic Miracle", during the military dictatorship, when, despite all the political turmoil, economic growth was even bigger than today, when Brazilian economy occupies now the sixth position in the international GDP rank. In sum, what was first an authentic compliment made by an astonished foreigner suddenly became a boasting patriotic motto with at least two not so flattering implications: first, the use of an old-fashioned concept of unilinear and homogeneous progress, as if all the peoples of the world must reach the same peak; second, the exclusive focus on the economic aspect of the so-called "growth", as if this factor alone could guarantee a nice quality of life for the population in general. The utopian idea of a previously known future precludes any realistic consideration of concrete problems of the present. And a more realistic approach would perhaps indicate that Brazil is indeed the country of now… just like any other.
At this point we must ask ourselves: how is the Brazilian "now" faring after all? On the one hand, there are some undeniable improvements that must be considered. In the last twenty years, the strengthening of the Brazilian currency and the relative stabilization of Brazilian economy allowed some great social achievements, the most important of which being maybe the improvement – albeit unsustainable – of the quality of life of the downtrodden. Also, along with the other BRICs, Brazil reached a significant position – albeit not always for good reasons – in the international political scene. On the other hand, no society should feel satisfied in face of a tragic and alarming reality: throughout the past decade, Brazil has maintained an average of roughly 50,000 homicides per year. According to a recent report on the statistics of Brazilian violence (Mapa da Violência 2012), in Brazil, where there are no formal territorial battles, civil war or religious and ethnic disputes, more people were killed in the last four years than in the twelve major armed conflicts all over the world.
This kind of data alone should prevent any society from endorsing the government’s self-boasting motto. In the sense in which has been used, the idea of Brazil as the “country of now” is nothing more than a re-edition of those old jingoistic slogans such as “Brazil, love it or leave it” with an extra Fukuyaman flavor, as if Brazilian history were definitely finished. The September 11, 2001 attacks in Manhattan proved that Fukuyama was deeply wrong. Will “the country of now” need some kind of dramatic lesson as well?
Rio de Janeiro, 01 de maio de 2012

         Escusado dizer que, se o ceticismo me livrou de fazer papel de bobo, a carreira diplomática foi por água abaixo...

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O Povo da Esquerda: A Reação da Elite Cultural ao Fora Dilma!



Sabemos desde que uma multidão iracunda preferiu Barrabás a Jesus: não é a quantidade de pessoas que a ela aderem que torna justa uma causa. O grande número de brasileiros que hoje rejeitam o partido governante é uma constatação de fato, não de valor. Combater um partido e um governo criminosos é algo justo em si, essencialmente justo. Era justo quando, em janeiro de 2013, apenas vinte pessoas - os famosos “20 do Masp” - foram à Avenida Paulista entregar-se a tal combate, sob o escárnio da militância pró-status quo infiltrada na imprensa. Era justo quando, lá atrás, apenas um ou outro bravo cidadão brasileiro - e aqui penso especialmente em Olavo de Carvalho - esforçava-se para nos alertar da ameaça lulo-petista. E seria justo se domingo retrasado, dia 16 de agosto de 2015, um único brasileiro solitário, com ganas de Dom Quixote, houvesse erguido o seu humilde cartaz e levantado a sua voz inaudível contra os gigantes nada imaginários que sequestraram o país para satisfazer seus pantagruélicos apetites.

Dito isso, entretanto, não deixa de ser significativo o fato de que a maior parte da população brasileira tenha se dado conta da vilania petista, optando coletivamente por travar o bom combate contra a casta burocrática que lhe suga o sangue. Trata-se de um momento marcante da história nacional, um raro caso de tomada coletiva de consciência, importante sobretudo porque inédito. Já houve, é certo, outros momentos de comoção nacional e unanimidade em torno de uma vontade política geral: a Passeata dos Cem Mil, as Diretas Já!, o Fora Collor. Mas as três grandes manifestações populares a que assistimos nesta primeira metade de 2015 exibem uma característica singular, que as distingue radicalmente das anteriores. É a primeira vez na história brasileira recente (sua equivalente mais próxima tendo sido, talvez, a Revolta da Vacina) que essa comunhão de interesses se dá independentemente e, mais ainda, a despeito daquilo que pensa e quer a elite cultural do país, formada por nossos intelectuais, artistas e jornalistas. Vivemos um momento dramático de divórcio: a elite foi para um lado; o povo, para o outro.

Há uma clara má vontade de nossa classe falante para com os manifestantes pró-impeachment de Dilma Rousseff, uma antipatia difusa assaz evidente se a comparamos com o entusiasmo midiático observado na época do atos pelo impeachment de Fernando Collor. Ali, o que se viu foi uma intensa celebração da democracia, com elogios rasgados à força popular mobilizada para tirar do poder um presidente envolvido em escândalos de corrupção e, portanto, já totalmente sem legitimidade. Jornalistas, intelectuais e artistas, a maioria dos quais desde sempre avessa à figura de Collor, engajaram-se fortemente na mobilização por sua derrubada. A Globo chegou a levar ao ar uma minissérie (Anos Rebeldes) destinada a atiçar o furor cívico da juventude brasileira. Importa notar que não havia então provas irrefutáveis contra o presidente (que acabaria absolvido das acusações pelo STF), mas os indícios eram fortes o bastante para que o processo político (e não jurídico) de impedimento fosse conduzido a termo. 

Com o PT e a Dilma tudo mudou. Em primeiro lugar, destaca-se o posicionamento da Globo. Contam os veículos declaradamente governistas, e confirma a governista não-declarada Folha de São Paulo, que o presidente da emissora, João Roberto Marinho, costurou um grande acordo com altos quadros da administração Dilma a fim de garantir o seu mandato até 2018. Não seria novidade. A tevê dos Marinho já protegera Lula durante o escândalo do Mensalão. Mas, verdadeira ou não a tese do acordo, o fato é que a Globo deu uma forte guinada pró-governo, começando com o editorial publicado no dia 7 de agosto de 2015, em que responsabilizava a oposição e o presidente da Câmara Eduardo Cunha pela crise política e, consequentemente, o agravamento da crise econômica. Na contramão da expressa vontade da maioria dos brasileiros, o editorial encerrava com pedidos de conciliação (dirigidos à oposição) com vistas a “dar condições de governabilidade ao Planalto”. João Roberto Marinho em pessoa marcava posição contra o impeachment.

No dia do panelaço nacional durante o programa televisivo do PT, o Jornal Nacional dedicou mais de três minutos (em televisão, um tempo mais que precioso) a uma sonora de Dilma Rousseff rebatendo críticas e sendo aplaudida por “populares” (sindicalistas, sem-terra, membros da UNE, enfim, os de sempre). 

Já no 16/08, dia da gigantesca mobilização nacional pelo impeachment, que reuniu mais de um milhão de brasileiros nas ruas de todo o país, o programa Fantástico resolveu dedicar mais tempo de cobertura a um ato pró-governo organizado pela CUT, reunindo não mais que 600 militantes profissionais patrocinados com dinheiro público. Não satisfeito, o programa cedeu a palavra às lideranças da CUT e do PT para que criticassem os manifestantes anti-governo. Entre os que tiveram direito à fala estava Vágner Freitas, presidente da CUT, o mesmo que, dias antes, falara em “pegar em armas” contra a oposição popular ao PT. Os editores do Fantástico, ao que parece, não viram nisso nada demais. 

Para concluir o desfile global de oficialismo, uma pérola de mau-gosto digno da “periferia” à la Regina Casé. No programa Criança Esperança, um sujeito que se apresenta, e que a Globo reconhece, como “cantor” (sim, cantor, aquela categoria de gente que inclui Frank Sinatra, Michael Jackson, Marvin Gaye, Freddie Mercury, Lennon & McCartney, Wilson Simonal e os Beach Boys), resolveu acusar os que “batem panelas na Paulista” de pertencerem à Ku Klux Klan. O malandro, com a curiosa alcunha de "Flávio Renegado" (não na Globo, ressalte-se), captou quase 400 mil reais da Lei Rouanet, segundo nos informa o jornalista Reinaldo Azevedo. Para cantar? Claro que não. Se o assunto em questão fosse realmente cantar, não haveriam de escolhê-lo. Escolheram-no, em vez disso, para transmitir à platéia mensagens “politizadas”, em verdade um festival de frases feitas de marxismo prêt à porter, grunhidas naquele formato-padrão de “rap-contra-o-sistema-tá-ligado-mano”. Tudo isso para… defender o sistema! E, sobretudo, para difamar os manifestantes anti-governo. A coisa chegou a um nível tal que eu não me surpreenderia se a tevê do "Doutor Roberto" apresentasse seu novo lema - Globo e PT: tudo a ver.

Mas, além da Globo, muitos outros jovens recrutas e velhos oficiais do exército petista de infowar, que eu costumo chamar de rede-PT, assumiram suas posições no front. O Data Folha, como era esperado, tratou de reduzir o número de manifestantes, desta feita com requintes de cara-de-pau. Da incrível massa humana que cobriu a Avenida Paulista de ponta a ponta, observável em dezenas de fotografias e filmagens postadas nas redes sociais, o instituto de pesquisa consegui extrair o espantoso número de 135 mil pessoas. A PM, usualmente cautelosa nas estimativas, falou em 350 mil. Mas as imagens parecem sugerir bem mais que isso.

Mas o instituto não ficou apenas no terreno da “metodologia” criativa. Em artigo opinativo publicado no jornal, seus diretores geral e de pesquisa acharam por bem desprezar a “representatividade social e demográfica” das manifestações. Afinados com a máquina de propaganda petista, os autores tentavam cravar a pecha de “elitista” e “coxinha” nos atos anti-PT. Não satisfeitos com tamanha desonestidade, seu último recurso foi transpor para a forma de texto o conteúdo de “memes” governistas em circulação nas redes sociais, veiculados pelos sites do PT e suas linhas-auxiliares (PCdoB, PSOL, Vermelho.Org, Instituto Lula, Diário do Centro do Mundo, Brasil 247 et caterva), e que apelam para a vilanização explícita dos manifestantes. Fazendo coro aos mais sujos dentre os blogs governistas - alguns, inclusive, alvos de investigação na Lava-Jato -, os dois apparatchik da rede-PT concluíam sua peça de propaganda sugerindo a insensibilidade dos manifestantes anti-Dilma perante os “corpos da chacina de Osasco”. 

Como o foco dos protestos foram o impeachment da presidente e o apoio à Lava-Jato, os diretores do Data Folha poderiam ter acusado os manifestantes de insensíveis à fome na África, ao massacre de cristãos no Oriente Médio, ao tráfico de órgãos, ao comércio ilegal de animais silvestres etc. Mas, uma vez que, em todo o país, os manifestantes pró-impeachment mostraram-se (mas que escândalo!) cordiais e respeitosos para com os integrantes da política militar que acompanhavam os atos (que absurdo não haverem atirado nenhum mísero coquetel molotov contra os policiais!), os esbirros do projeto lulo-petista disfarçados de diretores do Data Folha viram ali a oportunidade de insinuar a cumplicidade moral dos manifestantes anti-PT na chacina. 

Tratava-se de ação orquestrada. Dias antes, a mesma Folha de São Paulo publicara a charge do cartunista Laerte que ilustra este post, na qual militantes anti-PT eram retratados abraçando e tietando chacinadores, policiais mascarados que deixavam uma poça de sangue atrás de si. Esse não é um artifício estranho à esquerda que milita nas redes sociais. Eu mesmo já vi uma penca de esquerdistas do tipo “Guarani-Kaiowá”, sobretudo ex-colegas universitários, empregando-o sem corar. E tampouco é de surpreender esse tipo de mau-caratismo vindo de pessoas que, a esta altura do campeonato, não se vexam de apoiar o atual governo.

Formadores de opinião de esquerda, todos, é claro, negando formalmente sua adesão ao partido governante (gente do tipo Barbara Gancia, compreendem?), reproduziram ipsis litteris todos os ítens da propaganda oficial contra as manifestações. Os famosos NSPM (“Não sou petista, mas…”), com pose de independência e afetação de equilíbrio, entoaram o corinho uníssono do partido: os atos são coisa da elite branca de São Paulo, choro de perdedor, discurso de ódio, golpismo, fascismo, racismo, machismo e homofobia. 

Um analista da FGV (leia-se, intelectual orgânico do PT) concluiu (leia-se, induziu o leitor a crer) que as manifestações de domingo haviam dado “sinais claros” de terem chegado “a um limite de potencial”. A matéria do UOL com a “conclusão” do “especialista” - e como escreveu Bernard Goldberg, veterano ex-jornalista da CBS, “um repórter consegue achar um especialista para dizer qualquer coisa que ele queira” - informava ainda, em mau português, que “o professor vê como positivo o enfraquecimento desses grupos dada essa falta de proposição política para o País, com expressões de ódio e, no limite, abrindo espaço para pedidos de retorno da ditadura”. Por fim, depois de difamar os movimentos pró-impeachment com todo o arsenal de clichês gobbelianos disponíveis, o professor também reconhecia algum acerto nas “estratégias recentes do Planalto”, sem, é claro, informar ao leitor que ele próprio, e a sua “avaliação”, são parte integrante dessas estratégias.

O argumento do “especialista” da FGV é representativo. Que o leitor entre em qualquer faculdade de humanas do país e ali encontrará provavelmente 8 entre 10 “especialistas” dizendo exatamente as mesmas coisas. Quiçá com os mesmos termos. Quem quer que tenha lido a matéria do UOL teve acesso direto à voz do intelectual coletivo à brasileira, unanimemente empenhada em sugerir (ou  mesmo provar “cientificamente”) que golpistas não são os que sequestram o Estado e a sociedade para fins partidários, os que utilizam a máquina pública com objetivos eleitorais, os que montam o maior esquema de corrupção já visto no planeta, os que usam dinheiro sujo na campanha, os que fraudam as contas públicas, os que tramam trocas de favores entre o Executivo, o Senado e o STF, os que nos impõem um militante e afilhado político no comando do processo eleitoral, os que compram consciências como quem compra pão, os que dão apoio político e financeiro aos piores ditadores do mundo contemporâneo, os que ameaçam cidadãos brasileiros com o uso de força paramilitar e “exércitos” clandestinos… Não, estes não são os golpistas. Estes não representam risco à democracia e à “estabilidade institucional do país” tão prezada pelo senhor João Roberto Marinho. Golpistas são todos aqueles que ousam erguer sua voz indignada contra tamanho festival de iniquidades. Golpistas são os que trabalham mais de cinco meses por ano para ver o dinheiro de seus impostos financiando as surubas materialistas e/ou ideológicas dos amigos do rei, vulgos “companheiros”, e que - quanto desplante! - ainda teimam em se revoltar.

Já sem outros meios editoriais para atacar os manifestantes fingindo produzir jornalismo, a equipe do UOL ainda viria a protagonizar um dos espetáculos mais grotescos da história de nossa imprensa. Abrindo mão definitivamente de qualquer resquício de ética jornalística, o portal decidiu fazer uma matéria enfatizando os erros de português ou de grafia em alguns dos cartazes anti-governo. O tom da chamada e da matéria sugeria o seguinte sub-texto: “Uma gente burra dessa querendo derrubar o governo!”. Alguns leitores espirituosos sugeriram que os erros teriam sido propositais, caso contrário os jornalistas brasileiros de hoje não compreenderiam os dizeres. Nessas horas, o humor é mesmo a única resposta legítima, porque o expediente rasteiro do UOL está abaixo da crítica.

Tivemos, em suma, três manifestações populares reunindo, cada uma, mais de um milhão de pessoas. E tudo num único semestre! Em termos de números, e levando em conta o intervalo de tempo entre os atos, estamos falando de mobilização popular inédita na história do país. Em termos de representatividade, não menos. Afinal de contas, a última pesquisa do próprio Data Folha - é pena que seus diretores não a tenham consultado - indicou um índice de 92% de rejeição da presidente, um dos maiores da história. A pesquisa diz ainda que 66% são os brasileiros favoráveis à abertura do processo de impeachment - a principal bandeira dos três protestos deste ano, sobretudo do último. Além disso, há um detalhe curioso que torna a representatividade popular das manifestações ainda mais evidente, na contramão do que sugerem os nossos formadores de opinião: o apoio ao impeachment é percentualmente maior entre os brasileiros mais pobres. Ou seja, mesmo que verdadeira a tese segundo a qual os manifestantes nas ruas eram todos “coxinhas”, ainda assim teriam eles representado a vontade manifesta dos brasileiros mais pobres, os que mais sofrem com a catástrofe da administração Dilma Rousseff. Os diretores do Data Folha querem mesmo conversar sobre ‘representatividade”?

Talvez seja impossível uma definição objetiva de “povo brasileiro”. Mas, se tal entidade existe, os três grandes atos anti-governo neste primeiro semestre de 2015 foram, sem dúvida, a expressão mais fiel possível de sua vontade. O que ali se observou foi inegavelmente um salto de consciência política: a soma de forças dos governados contra o comportamento autoritário e criminoso de sua elite política. Em termos teóricos e formais, esse salto de consciência, essa mobilização popular contra os donos do poder, foi desde sempre o sonho encantado da esquerda nacional. Por que diabos, então, quando a coisa mais parecida com esse sonho materializa-se na realidade histórica, a esquerda a despreza com tanta raiva? Por que, nesse cabo-de-guerra entre o povo e a elite política, a nossa elite cultural tomou partido desta última? Por que aqueles brasileiros comuns que, no seu dia de descanso, se esforçaram por representar os interesses de 92% da população são chamados de “elite”, e os 8% que sustentam a casta partidário-burocrática (sindicatos, movimentos sociais, militantes  partidários profissionais, mega-empresários, banqueiros etc.) são chamados de “povo” pela nossa intelligentsia

É tradição da esquerda brasileira ver-se como representante dos interesses do “povo” - este concebido sempre na chave da luta de classes e, portanto, em oposição vital a uma “elite” que o oprime. Essa auto-imagem esquerdista poderia ser resumida nos versos que o pintor Candido Portinari, um dos quadros mais notáveis do velho PCB, dedicou certa feita à sua própria arte, vista por ele como meio de transformação social: 


“Todas as coisas
Frágeis e pobres
Se parecem comigo” 

Temos aí, formulados com muito lirismo, a expressão de uma empatia política e o desejo de identificação existencial com os oprimidos. Vem desse espírito a criação filosófico-literária do “povo brasileiro”, não apenas por obra de intelectuais de esquerda, evidentemente, mas sobretudo por obra deles, e em especial a partir dos anos 1920, com a influência exercida tanto pelo modernismo quanto pelo pecebismo sobre a intelectualidade e a classe artística de então. O efeito até certo ponto imprevisto dessa jornada identitária foi que, imaginando parecer-se com o povo, nossos bem-pensantes terminaram por criar um povo que se parecesse com eles

O estatuto filosófico-ficcional do “povo brasileiro” pode ser muito bem observado na representação do camponês em obras de artistas e escritores comunistas ou filo-comunistas a partir dos anos 1920. Ressalte-se que, daquele período até meados dos anos 1960, quando a esquerda fragmentou-se em uma miríade de correntes, a cultura política do PCB foi praticamente hegemônica no campo esquerdista nacional, tendo exercido especial efeito sobre nossa intelligentsia*. Reciprocamente, intelectuais e artistas tinham, já naquela época (bem antes, portanto, que a influência do gramscismo se fizesse notar por estas bandas), uma crucial relevância estratégica para o partidão. Nomes como Portinari, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Oscar Niemeyer, entre tantos outros, ajudavam com o seu prestígio e a sua obra a disseminar todo um imaginário cultural favorável à absorção da doutrina pecebista. Eram eles os grandes responsáveis por criar o “novo homem brasileiro”, compreendido como ente de resistência em face das investidas do imperialismo norte-americano.

No Brasil semi ou pré-industrializado de então, carente portanto de algo que se pudesse chamar de “proletariado” nacional, o trabalhador rural, o camponês, na contramão do que pregava o marxismo ortodoxo (que o considerava essencialmente reacionário), foi o primeiro grande objeto de idealização de nossa intelectualidade comunista. E, dentre os artistas que se dedicaram à criação desse camponês ideal, Candido Portinari foi, sem dúvida, um dos principais. Para o PCB, Portinari era o mais importante “tradutor” da realidade nacional, que se acreditava desvalorizada e sub-representava pelas belas artes acadêmicas do período. Ao longo daqueles anos, a retórica ao mesmo tempo nacionalista e anti-elitista do partido, que impregnaria fortemente a cultura nacional da época, teve na arte de Portinari uma das mais importantes expressões.

Portinari costumava falar de sua arte empregando maneirismos pecebistas mais ou menos padronizados, os mesmos frequentemente entreouvidos na retórica de outros quadros do partido. Assim, inspirado na estética realista do século XIX, o pintor de Brodósqui alegava rejeitar a arte pela arte, dizendo-se mais interessado em sua sociedade, seu povo e nas mazelas do país (e declarações análogas já saíram das bocas de Oscar Niemeyer, Jorge Amado e outros artistas ligados ao PCB).

Os dois grandes temas da obra de Portinari eram a identificação natural do trabalhador com o seu meio de produção e a luta de classes. Assim, os membros descomunais e os pés sempre descalços de seus lavradores representavam o laço profundo e inexorável com a terra (entendida tanto como meio de subsistência quanto como pátria), sugerindo o efeito físico do trabalho sobre o corpo mesmo do trabalhador. A mensagem marxista é clara: os trabalhadores são os donos “naturais” do fruto de seu trabalho, apenas alienados deste por obra de uma força artificial e externa, a exploração do patrão burguês. 

Contrastando, por paradigma, com os camponeses portinarianos, temos toda uma imagética pecebista acerca do burguês, usualmente retratado como obeso e flácido (ausência de musculatura relativa à ausência de trabalho), de mãos e pés pequenos, estes inexoravelmente calçados (logo, desconectados com a terra e a pátria), e expressão de volúpia nas faces, em agudo contraste com o semblante sereno, altivo e ao mesmo tempo ingênuo das figuras pintadas por Portinari nas fases iniciais de sua obra. Com o tempo, e sob crescente influência pecebista, seus trabalhadores foram ficando mais sofridos e também mais revoltados. Para a intelectualidade comunista, a revolta contra a exploração capitalista era um traço essencial do verdadeiro e autêntico “povo brasileiro”, uma percepção que se entranharia profundamente no espírito das artes nacionais.

Nem mesmo um homem sempre tão independente quanto Monteiro Lobato escapou de ser influenciado pela temática pecebista. Como de costume, foi através de seu personagem Jeca Tatú que o escritor expressou suas mudanças de opinião política e visão de mundo. De início sob influência do determinismo geográfico e do racismo “científico” europeus do século XIX (em especial o de Gobineau), Lobato chegara a representar o Jeca como um preguiçoso atávico, vítima trágica das condições geoclimáticas e, sobretudo, da degeneração racial que se acreditava resultar da miscigenação brasileira. Posteriormente, tendo travado contato com as descobertas dos médicos sanitaristas, Lobato abandonou o determinismo climático-racial como explicação para a conduta do Jeca. Em 1918, ele lançava o livro O Problema Vital, reunião de artigos publicados no jornal Estado de São Paulo, e que mostravam um Jeca já não racialmente degenerado, mas doente, afligido pelos parasitas tropicais que infestavam as regiões rurais do país, provocando doenças como ancilostomose, leishmaniose e subnutrição. Concluía-se que a “preguiça” do Jeca não era um traço essencial de seu espírito, senão um estado circunstancial de seu corpo. Finalmente, ela tinha cura.

Já no fim da vida, Monteiro Lobato daria uma última grande guinada no caráter do seu famoso caipira. Sob influência direta da cultura política pecebista, o autor transformou o Jeca Tatú em Zé Brasil. Este, ao contrário do outro, era muito esforçado e trabalhador, seu problema consistindo na exploração sofrida nas mãos do fazendeiro Tatuíra, em cujas terras vivia como agregado. Se o Jeca fora, primeiro degenerado, e logo doente, o Zé Brasil era a imagem do camponês oprimido pelo latifúndio.

O livro Zé Brasil foi publicado originalmente em 1947 pela editora Vitória (do PCB), e depois lançado em formato de folhetim pelo jornal comunista Tribuna Popular. Tendo sido alvo de censura do governo Dutra, o livro teve um sem-número de edições clandestinas. Em 1948, a editora Calvino Filho reeditou uma versão ilustrada por Candido Portinari, que ajudava a reforçar a mensagem revolucionária do opúsculo, uma síntese da visão comunista sobre a questão agrária no país. A narrativa foi elaborada sob forma de diálogo entre o camponês Zé Brasil e um interlocutor anônimo, e conta o drama desse típico trabalhador rural brasileiro expulso das terras do grande proprietário, o fazendeiro Tatuíra, onde trabalhava como meeiro. 

O enredo é uma denúncia daquele regime semi-escravista de trabalho, ainda tão comum no interior do país, no qual o trabalhador rural termina endividado com o “patrão” que lhe aluga terras e instrumentos de produção em troca de parte do produto de seu trabalho. Ao longo do diálogo, é o próprio Zé Brasil quem vai tomando consciência da natureza injusta de sua relação com o coronel e, de modo mais geral, de sua condição marginalizada no seio da sociedade nacional. Por meio do interlocutor anônimo, Zé Brasil tem notícia das idéias do PCB sobre reforma agrária, aprende sobre a Coluna Prestes e passa a vislumbrar na união com o líder comunista - celebremente apelidado de “o cavaleiro da esperança” - a possibilidade de um futuro melhor para todo o campesinato do país.

A aquisição da consciência de classe: não deixa de ser lamentável que o grande escritor de Taubaté tenha encerrado o seu glorioso legado literário com tal clichê pecebista (à época, reconheça-se, ainda dotado de algum frescor e pertinência), que se repetiria em tantas outras obras de intelectuais comunistas, tais como Capitães de Areia, de Jorge Amado, e Pivete, peça de Gianfrancesco Guarnieri. 

Lobato e outros críticos do romantismo estavam certos em apontar uma certa artificialidade, e excessiva grandiloquência, nos modos e nos diálogos dos personagens criados por autores românticos. Com efeito, há certas ocasiões em que, ao toparmos com algumas falas das adolescentes de colo de alabastro de um José de Alencar ou um Joaquim Manuel de Macedo, temos a desagradável impressão de ver emergir por detrás daquelas peles tão diáfanas a carrancuda gravidade, senão mesmo o bigode sóbrio, dos autores em pessoa, tamanha a incompatibilidade com os modos juvenis que ali se esperava encontrar. Em certa medida, passou-se o mesmo com o último caipira de Lobato, parecido demais com o próprio escritor e os intelectuais comunistas com os quais, à época, ele travava diálogo político. Pode-se dizer que, ao virar Zé Brasil, o Jeca de Lobato padeceu daquela sorte de amputação antropológica tão recorrente na arte engajada, sobretudo comunista, em que a complexidade do drama humano reduz-se a um problema social, e a um problema social único, visto sob lentes filosóficas demasiado estreitas: a luta de classes.

É curioso notar que todo aquele desejo manifesto de identificação com o povo, e a sua consequente criação artístico-filosófica, foram sempre a contrapartida de uma dolorosa má consciência, fruto da percepção íntima de que, entre o intelectual e homem do povo, há uma distância fundamental e irredutível que o mero voluntarismo ideológico jamais pôde vencer. O problema é que a intelligentsia pecebista, impregnada de reducionismo marxista até a medula, interpretou equivocadamente aquela distância como uma questão de ordem política, envolvendo classes sociais, quando ela é na verdade existencial, concernente ao hiato desde sempre observado entre o espírito filosófico (presente historicamente em homens das mais diferentes “classes” e “raças”, ainda que sempre em número reduzido) e o espírito ordinário ou prático. 

Desprovidos de espírito filosófico autêntico, mas auto-iludidos com o título corporativo de “intelectual”, muitos de nossos bem-pensantes de esquerda optaram pela condescendência para com o povo como forma de aliviar, a um baixo custo, o drama de má consciência acima referido. Destarte, vêem-se nossos intelectuais como figuras generosas que, do alto de sua posição, concordam em inclinar-se na direção dos mais “frágeis e pobres”, para citar o verso de Portinari, num simulacro grosseiro de imitatio Christi. Com esse gesto de humildade ostentatória, obtêm eles uma dupla conquista, política e psíquica, pois que o ato de aproximar-se das “classes exploradas” termina por afirmar, retroativamente, a existência inicial da distância. Só indivíduos superiores podem ser condescendentes. E, mediante a condescendência, nossos intelectuais são capazes de afirmar a sua identidade com o povo sem, entretanto, abrir mão de sua autoridade intelectual sobre ele.

Dias Gomes, o conhecido dramaturgo e intelectual do PCB, forneceu certa vez uma clara ilustração da má consciência que têm caracterizado a nossa intelectualidade de esquerda. Justificando em entrevista a sua opção pela televisão, em especial a sua entrada na “burguesa” Rede Globo, o comunista baiano explicou:

“No teatro, eu vivia uma contradição, buscando fazer peças populares e alcançando apenas a elite, exatamente a elite que combatia. Aliás, todos os da minha geração, a dos anos 50, o Guarnieri, o Suassuna, Augusto Boal, Antônio Callado, Oduvaldo Vianna Filho, todos nós vivemos essa contradição. Fazíamos um teatro anti-burguês, do ponto de vista do povo, e tínhamos uma platéia burguesa. Era um teatro que se aristocratizava na platéia. O que faço na televisão, não. Segundo o Ibope, é visto até por marginais. Isso, sim, é uma platéia popular” 
[Citado em SACRAMENTO, Igor. "Por Uma Teledramaturgia Engajada: a experiência de dramaturgos comunistas com a televisão dos anos de 1970". In: Marcos Napolitano et. al. (orgs.). Comunistas Brasileiros: Cultura Política e Produção Cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. p. 109].

Assim como muitos de seus colegas de geração, Dias Gomes aprendeu a fazer dramaturgia engajada dentro dos centros de produção artística que, nos anos 1950 e 1960, mais estiveram sob a esfera de influência do PCB: o Teatro de Arena e o Centro Popular de Cultura (CPC), que depois seria dissolvido pelo regime militar, dando origem ao Grupo Opinião. Foi desse ambiente que saíram os principais dramaturgos comunistas que iriam dominar a cena artística nos emergentes veículos de comunicação de massa, notadamente as tevês Tupi e Globo. 

A orientação estética e artística dessa geração de intelectuais era indissociável do projeto político do PCB para a organização da cultura, centrado na idéia de uma arte nacional-popular (conceito de inspiração gramsciana), ou seja, na construção de um ideal de povo e de nação que fizessem frente às investidas do imperialismo econômico e colonialismo cultural norte-americanos. Estes, mais que a burguesia, haviam sido diagnosticados então como os grandes alvos dos comunistas brasileiros no segundo pós-guerra, daí a conhecida (e, depois do golpe de 1964, tão criticada) opção pecebista pela estratégia do “frentismo”, uma política de alianças provisórias entre classes (em especial com a burguesia nacional) e com outros setores da esquerda em favor do desenvolvimento do capitalismo brasileiro, obstruído, segundo essa tese, por interesses estrangeiros. 

Mesmo após o golpe de 1964, a linha do PCB permaneceu mais ou menos inalterada, sua opção tendo sido pela luta política (ou seja, não-armada), e especialmente cultural, contra o novo regime. Dessa luta cultural fazia parte a estratégia de infiltração de quadros do partido dentro dos veículos burgueses de comunicação de massa, infiltração aliás muito bem sucedida, como ilustram as obras carregadas de forte conteúdo político e crítica de costumes levadas à tevê (com grande aceitação do público “burguês” e “de classe média”) por autores como o já citado Dias Gomes, sua mulher Janete Clair, Oduvaldo Vianna Filho (o Vianninha), Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Pontes, Lauro César Muniz, entre muitos outros.

A criação esquerdista da cultura nacional-popular  (“nacional” no sentido de anti-imperialista; “popular”, no de anti-elitista) sustentava-se na noção de arte engajada e pedagógica, cuja meta final era o despertar da consciência crítica do povo para a situação de exploração em que vivia. Em verdade, por “despertar a consciência crítica” deve-se entender: incutir no povo os objetivos e valores caros ao intelectual, a fim de que venha a amar o que este ama e odiar o que este odeia. Nos anos 1960, o grupo Opinião, e o famoso espetáculo de mesmo nome, foram um marco do desejo de aproximação - sempre hierárquica, note-se - entre os intelectuais e os “tipos” populares brasileiros (uma categoria herdada do folclorismo de décadas anteriores). A escolha de Nara Leão (a jovem intelectual bossa-nova da Zona Sul do Rio), João do Vale (um camponês nordestino) e Zé Keti (o sambista negro do morro) como protagonistas do espetáculo já indicava, por si só, a influência do frentismo pecebista e da sua concepção particular de “povo”, que se resumia a uma representação simbólica das idéias marxistas-leninistas de consciência de classe e revolta contra a opressão.

Daquele período até hoje - ainda que o projeto nacional-popular tenha perdido força na virada dos anos 1960 para os anos 1970, em paralelo ao esfacelamento político do próprio PCB -, o “povo” não cessou de andar na boca dos intelectuais brasileiros, sofrendo alterações e retoques conforme as conveniências políticas de ocasião. São eles, intelectuais, quem determinam o critério para a medição do grau de “povitude” dos brasileiros: quanto mais estes correspondam às utopias dos intelectuais, mais “povo” eles são. Na medida em que as contrariam, vão sendo empurrados conceitualmente para a “elite”. 

Aflitos com o colapso da hegemonia cultural de esquerda que vigorou desde os anos 1960 até recentemente, não são poucos os esquerdistas brasileiros que (descontada uma boa dose de cinismo) insistem em defender o atual governo com base na auto-identificação com “as coisas frágeis e pobres” de que falava Portinari. De braços dados com os donos dos bancos Itaú, Bradesco ou Santander, não deixam, esses nossos sentimentais, de se imaginar como idênticos às “coisas frágeis e pobres”. Aliados objetivos da Globo, da Odebrecht, da Camargo Correia, da OAS e tutti quantti, continuam, subjetivamente, a secretar o lirismo auto-piedoso das “coisas frágeis e pobres”. Irmanados a banqueiros, empreiteiros, mega-empresários e caciques políticos, nossos “frágeis e pobres” intelectuais enragées, quer sejam petistas ou apenas NSPM, investem contra a poderosa “elite” formada por 92% dos brasileiros, numa clara ilustração do que o psiquiatra Paul Sérieux chamou de “delírio de interpretação” - no caso, de auto-interpretação.

Há vezes, todavia, quando o caráter popular de determinada agenda antipática à esquerda é evidente demais para ser negado, em que os intelectuais decidem reivindicar a sua própria condição de elite, já agora para afirmar sua independência "artística" e autoridade “científica”. Nesses casos, o povo passa a ser acusado de trair os seus próprios interesses e manifestar aquilo que a intelligentsia diagnostica como “fascismo popular”. Assim, decepcionados e ressentidos, nossos intelectuais de esquerda passam rapidamente da condescendência à hostilidade. 

Foi o que fizeram, entre outros, Eliane Brum e José Celso Martinez Corrêa. Brum, a namoradinha do Brasil progressista (e eu estava para chamá-la de “Sakamoto de saias” até me lembrar que, hoje, os Sakamotos originais já usam saias, diz-se que contra o machismo e o patriarcado), acusou há poucos meses “o coração podre” do povo. Sua revolta dirigia-se então contra o massivo apoio popular à redução da maioridade penal. Já o velho Zé Celso - que, coitado, até hoje tenta desesperadamente chocar a burguesia, posto que suas dionisíacas pelancas já não escandalizem sequer mocinhas de interior - afirmou (ou, ao menos, tentou) não gostar das manifestações anti-PT. “Falta vermelho na bandeira brasileira”, opinou o vetusto dramaturgo, acrescentando que o país - ele referia-se à maioria anti-petista - estaria tomado por um “delírio fascista”. “Porque também há fascismo popular”, explicou. De resto, por baixo dos habituais salamaleques e retórica tropicálio-porra-louquista, sobrou o discurso oficial da propaganda governista. 

Seja como for, mediante inversão da realidade ou argumento de autoridade artístico-intelectual, o fato é que a nossa elite cultural (e caberiam muitas aspas na palavra elite, porque estamos falando aqui de poder corporativo, não de mérito intelectual ou artístico) perdeu de vez o contato com o povo brasileiro. E nada poderia simbolizá-lo melhor que a imagem decadente e melancólica de um Zé Celso Martinez Corrêa excretando chapa-branquismo disfarçado de transgressão artística para lá de enferrujada. Preso em 1968, o velho homem tornou-se objeto involuntário de humor, uma criatura inadequada e irrelevante, gritando suas pseudo-iconoclastias (chanceladas por algum João Santana de gabinete) a uma platéia de escandalizados que só existe em sua cabeça. Zé Celso é a materialização, na forma de um corpo e uma mente senis, da alienação da intelligentsia progressista brasileira em face do atual contexto sociopolítico. O contraste entre a vontade popular e os valores dessa intelligentsia é tal que até mesmo alguns membros da grande imprensa - instrumento por excelência de nossa elite cultural - começam a se dar conta da bizarra situação. 

A jornalista Eliane Catanhêde, por exemplo, vem demonstrando sinais de compreensão incipiente de nossa realidade política e cultural. Em sua coluna no Estado de São Paulo, ela primeiro escreveu um texto reconhecendo que o apoio de que o governo ainda dispõe vem, por assim dizer, do “andar cima”. “Dilma ganhou um cerco de segurança na semana passada”, pontuou Catanhêde, “com mãos amigas do Supremo, do TSE, do TCU, do Senado e da mídia, mas a irritação popular contra ela não esmaeceu”. Dias depois, ela descreveu nominalmente a inversão dos termos usualmente representados pela esquerda nacional: “Nesta encrenca política tão grande e tão desafiadora, inverteu-se o jogo. Diante da crise política e econômica, com a Lava Jato chegando ao Congresso, é a elite quem toma a dianteira para apoiar o claudicante governo Dilma Rousseff, enquanto as grandes massas que vão às ruas rejeitam o PT…”.

Se, todavia, a jornalista acerta no diagnóstico geral, ela erra ao superestimar o ineditismo do fenômeno, ignorando que a proximidade entre o PT e as massas populares - e, de forma mais geral, entre a esquerda e o povo brasileiro - foi, em larga medida, uma construção mitopoiética de nossa classe falante esquerdista, construção para a qual a própria Catanhêde provavelmente já contribuiu com algum tijolinho. O partido dos trabalhadores surgiu como partido de elite intelectual. Durante anos, para justificar a sua pouca penetração nas classes mais baixas da população, o PT gabou-se por ter uma plataforma partidária mais bem aceita e compreendida por brasileiros “instruídos” (intelectuais, artistas e acadêmicos). Em verdade, o período de identificação lulo-petista com os mais pobres, fruto da expansão e universalização de antigas práticas assistencialistas, possíveis graças a contingências do mercado externo, é que caracteriza um momento excepcional na biografia do partido. O que ora observamos no país é, de fato, menos uma “inversão” que uma restauração de padrões políticos e históricos momentaneamente suspensos. Depois de uma década excepcional de “sonho” esquerdista, no qual a propaganda desempenhou papel significativo, o PT retorna à condição inicial de partido da intelligentsia. Esse o tamanho real de um partido gramsciano por excelência. 

Intelectuais, artistas e jornalistas, cuja mentalidade foi forjada na fragmentação da esquerda nos anos 1960, formam hoje, como formaram no início, a renitente base política do partido governante. A angústia dessa base é a de quem desperta de um sonho bom, no qual a tão almejada identificação com “as coisas frágeis e pobres” pareceu tão possível e tão real. Auto-iludidos com o próprio projeto de país, nossos bem-pensantes esqueceram-se do que ensinou Gustave Le Bon acerca da “inconstância” das massas, lição que o próprio Jesus Cristo, Rei dos reis, experimentou dramaticamente em questão de cinco dias (do Domingo de Ramos à Sexta-Feira da Paixão), e que foi sempre a ruína de todos os monarcas e líderes políticos que pisaram sobre a Terra. Em face dela, não seriam logo um partido populista de um país de Terceiro Mundo e os seus sub-intelectuais orgânicos que escapariam ilesos. A estes, sobretudo, almas débeis e ressentidas diante da ilusão demofílica estilhaçada, restou a alternativa desesperada entre a auto-interpretação delirante ou o rompimento elitista com o povo. Porque a eles fora prometido o doce cálice de Romanée-Conti, não aquele, amargo, do qual Jesus falou aos apóstolos às portas de Jerusalém (Mateus, 20: 22).

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Caipiras temporais: Sartre e o Brasil



"Tradition means giving votes to the most obscure of all classes — our ancestors. It is the democracy of the dead. Tradition refuses to submit to the small and arrogant oligarchy of those who merely happen to be walking around." (G. K. Chesterton)
Observando o Brasil de hoje, não é difícil perceber o mal que alguns modismos intelectuais fizeram à inteligência nacional. Muito se fala da influência nefasta do marxismo e seus sucedâneos em nosso sistema educacional. Mas a influência de Sartre - mediante contatos diretos, algo místicos, com os nossos bem-pensantes, ocorridos, inclusive, na residência de um certo sociólogo ex-presidente da República - foi igualmente nociva. 

A apologia sartreana do "engajamento intelectual", em particular do "engajamento no presente", deu origem a uma terrível patologia cultural, que, longe de ser exclusividade nossa, deitou raízes profundas na sociedade brasileira, atingindo especialmente a sua classe falante. Refiro-me ao cronocentrismo ou, na expressão consagrada pelo escritor norte-americano Allen Tate, o provincianismo temporal.


Na famosa apresentação da revista Les Temps Modernes, fundada por Sartre em 1945, ele escreveu:

"Já que o escritor não tem meio algum de se evadir, queremos que ele abrace estreitamente a sua época; ela é sua única chance; foi feita para ele, e ele para ela. Lamentamos a indiferença de Balzac diante das jornadas de 48, a incompreensão amedrontada de Flaubert diante da Comuna; lamentamo-o por eles; há algo aí que eles deixaram escapar para sempre. Não queremos deixar escapar nada de nosso tempo: talvez haja tempos mais belos, mas este é o nosso; temos somente esta vida para viver, em meio a esta guerra, talvez a esta revolução."

De minha parte, eu não lamento a indiferença de Balzac diante da agitação política de sua época; nem, tampouco, a "incompreensão amedrontada" (alguns chamariam de prudência) de Flaubert para com a febre comunista. Ouso imaginar, se me permite o amante de Simone de Beauvoir, que os dois mestres da literatura universal estivessem ocupados com coisas mais interessantes: um retoque no caráter de père Goriot, um suspiro de Bovary. Para a nossa sorte, Balzac e Flaubert não se distraíram muito com as paixões políticas de ocasião, caso em que não teriam passado de um Sader ou, na melhor das hipóteses, de um... Sartre. Em compensação, deixaram-nos obras que resistem ao tempo.

E não seria mesmo esta a função da grande obra literária ou intelectual: almejar à eternidade? Não seria a missão do homem de idéias erguer-se, em algum momento, acima de seu tempo, fazendo-o, por isso mesmo, dialogar com outras épocas, outras vidas, outros modos de existência? 

A premissa de Sartre - "já que o escritor não tem meio algum de se evadir..." - parece-me totalmente equivocada, pois que a função própria da literatura é, justamente, expandir a nossa imaginação moral (para usar um termo de Edmund Burke) e, portanto, retirar-nos de nossas províncias existenciais - sejam estas de ordem temporal, espacial, política ou cultural. O escritor, o bom escritor, não apenas tem meios de se evadir, como, por graça de Deus, nos levar junto com ele. Daí que Balzac e Flaubert devessem ser leitura obrigatória, enquanto Sartre, opcional, e Sader, desaconselhada.

Mas, infelizmente, Sartre foi quem virou leitura obrigatória entre os nossos bem-pensantes. Disso resulta o nosso obsessivo interesse, no que diz respeito às artes e à atividade intelectual, por "temas contemporâneos". Usuais maneirismos introdutórios tais como "Hoje em dia", ou "em pleno século XXI", ou ainda "em tempos de redes sociais", parecem querer conferir um estatuto especial à época do analista. Na avaliação de um artista ou escritor, busca-se desesperadamente saber se ele é contemporâneo, atual, moderno. Em vez de olhar para o mundo sub specie aeternitatis, nossos homens de letras o encaram "sub specie" cadernos-de cultura-dos-jornais.

Enfim, parecemos ter ignorado solenemente a lição do grande historiador Leopold von Ranke, segundo quem "todas as épocas são iguais perante Deus". A violência, a arrogância, a estupidez e brutalidade de muitos brasileiros hoje - especialmente jovens e adolescentes - derivam, sem dúvida, dessa falta de amplitude de perspectiva temporal, dessa imersão absoluta nas miudezas de seu próprio tempo. 

O Brasil está tomado por caipiras temporais.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Precisamos Falar Sobre o Islã: a Islamofilia e o Cerco à Europa Indígena


"Mil anos de guerras consolidaram o Ocidente; um século de 'psicologia' pôs-lhe a corda no pescoço." (Emil Cioran, Silogismos da Amargura)  
"O especialista está sempre no limite da psicose." (Richard M. Weaver, Ideas has Consequences)

Os europeus "autóctones" (i. e., os que não são imigrantes ou filhos de imigrantes das ex-colônias), especialmente os franceses, estão sob ataque. Além do extremismo islâmico que se espalha pela Europa - e que teve no atentado ao Charlie Hebdo a sua mais recente expressão -, eles sofrem também o cerco da intelligentsia ocidental, sob a forma de análises preconceituosas e enviesadas, ou, na feliz expressão de Jean Sévillia, de "terrorismo intelectual".

A cada atentado terrorista cometido por fanáticos islâmicos, inúmeras vozes erguem-se de imediato para alertar-nos do perigo da generalização e da assim chamada "islamofobia". "É preciso não generalizar", dizem uns. "O Islã não tem nada a ver com terrorismo", dizem outros. "Os fundamentalistas radicais são uma minoria. A maior parte dos muçulmanos é pacífica e moderada", dizem quase todos os membros de nossas classes falantes.

Não se observa por parte daqueles, entretanto, a mesma cautela relativista para com os descendentes de Asterix. Estes, ao contrário dos muçulmanos, costumam ser tomados em bloco, sem nuances, de maneira assaz negativa. Em primeiro lugar, trata-se logo de lançar-lhes à cara a doença mental coletiva de que padecem - islamofobia, o medo paranóico, irracional e potencialmente criminoso em relação aos muçulmanos. Enquanto, para a elite intelectual do Ocidente, o muçulmano é múltiplo, complexo, sofisticado e mal-compreendido, o francês médio é vil, simplório e facilmente diagnosticável: trata-se, ante de mais nada, de um doente - um fóbico.

Cobra-se dessa infeliz criatura - o islamofóbico - um conhecimento especializado e aprofundado do Islã, sem o qual, dizem os sábios, todo juízo é inerentemente estúpido. Quando, em compensação, líderes islâmicos radicais, pregando em mesquitas e madrassas na França, na Inglaterra, na Alemanha, retratam o Ocidente como um antro de degenerescência moral, suas mulheres como vagabundas, os judeus como cães e os cristãos como imundos, essa, digamos, "falta de conhecimento" do Ocidente por parte dos islâmicos não parece tirar o sono dos nossos bem-pensantes. O problema é o "orientalismo", nunca o "ocidentalismo".

O europeu médio vê ruas e bairros inteiros de suas cidades fechadas por muçulmanos para suas orações coletivas; vê regiões onde a sharia suplanta as leis nacionais; vê escolas deixando de ensinar sobre o Holocausto para não ofender alunos islâmicos; vê a rede Subway retirar a carne de porco do cardápio para não ferir suscetibilidades islâmicas; vê seguidos atentados terroristas cometidos por radicais islâmicos em nome de Alá; vê, ao redor do mundo, nas redes sociais, um número considerável de muçulmanos celebrando e apoiando tais atos de terror. Ele vê tudo isso, mas, ainda assim, o seu juízo é estúpido e digno de desprezo, porque - a intelectualidade eleva o tom - "ele não conhece o Islã". "Como eu conheço" - completa mentalmente o bem-pensante de ocasião. O europeu médio não tem direito a formar um juízo sem consulta prévia à classe dos "especialistas". Se o faz, não restam dúvidas: o seu juízo é movido pela mais altissonante boçalidade.

No programa "Painel", da GloboNews, que tratou do caso Charlie Hebdo, tivemos um bom exemplo do que vai acima. Acerca de uma pesquisa mencionada pelo âncora William Waack, segundo a qual mais da metade dos habitantes nativos de França, Inglaterra e Alemanha consideram o Islã atual incompatível com as democracias ocidentais, o professor de direito internacional da FGV-SP, Salem Nasser, comentou indignado: "As pessoas têm a impressão de que não há compatibilidade entre o Islã e o Ocidente SEM CONHECER O ISLÃ. Elas estão falando sobre uma PERCEPÇÃO do Islã, porque elas não o conhecem." (ver aqui, a partir dos 44'50'') E o sujeito, como que pessoalmente ofendido, só não as chamou de bestas-quadradas para baixo porque, enfim, pegaria mal.

O curioso é que muitos líderes islâmicos na Europa afirmam tal incompatibilidade entre o Islã e o Ocidente, daí o seu objetivo declarado de criar um "Califado Universal" mediante a expansão da sharia. Os efeitos dessa incompatibilidade são sentidos pelos franceses não-muçulmanos de maneira dramática, como se pode observar nessa reportagem. Mas, para o professor da FGV, tudo não passa de fobia coletiva e irracional, fruto de ignorância pura e simples. 

"Eles não conhecem o Islã", repete-se a cantilhena. Mas é certo que os cartunistas do Charlie Hebdo conheceram algo do Islã. Oxalá não houvessem conhecido. Sim, os europeus médios podem não conhecer o Islã a ponto de escrever sobre ele longos tratados acadêmicos, mas conhecem-no o bastante para temê-lo. Do ponto de vista do "gaulês", do "bretão", do "visigodo" contemporâneos, o Islã dos irmãos Kouachi é, infelizmente, muito mais relevante que o de Avicenna.

Em outro momento do programa, o mesmo professor da FGV afirma taxativamente que os seis milhões de muçulmanos na França, "antes de serem muçulmanos, são franceses" (ver aqui, a partir dos 32'20"). Trata-se de tese altamente controversa, e a pressa com a qual o especialista televisivo a anuncia - com o objetivo de livrar a cara do Islã e culpabilizar a França - só não é maior do que a sem-cerimônia com que o faz, como se fosse matéria auto-evidente. Ele diz ainda que "os muçulmanos [ou só os extremistas, não fica claro] são antes uma responsabilidade da França do que do Islã, porque o Islã não é uma entidade estatal, como a França, que possa influenciar essas pessoas..." (ver aqui, a partir dos 32'57").

Há tantos problemas nessa fala que a dificuldade passa a ser por onde começar a destrinchá-la. Em primeiro lugar, a parca integração dos muçulmanos à Europa - menos por culpa dos países acolhedores, ressalte-se, do que pelos hábitos e costumes impostos pela sharia - é fenômeno observável a olhos vistos. Os muçulmanos formam uma comunidade bastante segregada, em larga medida auto-segregada, e não cansam de deixar clara sua lealdade, primeiro ao Islã, que constitui, mais do que simples "religião" (no sentido ocidental-secularista do termo), um modo total de vida; segundo, à umma, a comunidade islâmica como um todo; terceiro, aos seus países de origem, onde costumam ter familiares e para onde viajam regularmente. 

Nesse contexto, a lealdade do francês muçulmano para com a França é praticamente nula. Tirando o apreço pelo estado de bem-estar social europeu (que tem contribuído para o sustento de muitos muçulmanos, inclusive de suas atividades religiosas, uma vez que as mesquitas recebem dinheiro público) e pelas oportunidades e comodidades que o capitalismo ocidental oferece, o muçulmano, em geral, tem pouco interesse por seu país hospedeiro. Ele deseja beneficiar-se de sua cultura material, mas despreza a sua sociedade e valores. Trata-se de uma relação, em ampla medida, parasitária. 

Muitos líderes religiosos muçulmanos, com efeito, pregam que a lei islâmica concede aos fiéis o direito de abusar ao máximo do sistema dos "infiéis". Os fiéis são estimulados a encarar os benefícios sociais que recebem como jizya - o tributo que os "infiéis" residentes em países islâmicos precisam pagar por suas vidas. E não são poucos os muçulmanos que usam e abusam da manobra.

Em 2005, depois dos atentados terroristas em Londres, descobriu-se, por exemplo, que os quatro suspeitos haviam amealhado mais de meio milhão de libras em benefícios sociais do governo britânico. Segundo matéria do The Telegraph, o líder extremista Omar Bakri Muhammed, fundador do Hizb ut-Tahrir, que sonhava com "um 11 de setembro a cada dia no Ocidente", recebia do governo britânico £ 331,28 por mês de aposentadoria por invalidade, mais £ 180,30 por mês de benefício por conta de incapacidade motora, graças a um problema na perna adquirido na adolescência; além disso, ele recolhia benefícios de moradia, e sua mulher recebia cerca de £ 1.300 por mês de previdência social.

Outro fator que dificulta a integração, e põe em xeque a tese do professor da FGV, é a língua. Sabe-se que a língua é, para os franceses, um dos traços mais fortes de identidade nacional. Ocorre que, para os muçulmanos de qualquer nacionalidade, o árabe será sempre a língua mais importante, por ser a língua em que o Corão foi ditado a Maomé pelo Anjo Gabriel, sendo, portanto, uma língua sagrada. Ao contrário do que acontece com os cristãos, que podem se adaptar a qualquer cultura e falar qualquer idioma, a expansão do Islã carrega consigo, no mínimo, a expansão complementar da língua (e, pois, de algum modo, da cultura) árabe. Boa parte dos muçulmanos franceses, habitando guetos de Paris e de outras cidades, e convivendo majoritariamente com outros muçulmanos, pouco falam o francês em seu dia-a-dia.

Dizer que o Islã não é, em si mesmo, uma "entidade estatal" é acaciano. Concluir, daí, que ele não "influencie" as pessoas como um Estado o faria é, para dizer o mínimo, tolice, sobretudo no mundo globalizado do século XXI, onde o Estado-nação já não desperta as paixões de outrora. 

O Islã não é um Estado, mas é, sem sombra de dúvidas, como bem apontam David Horowitz e Robert Spencer, uma "religião política". E, mais do que política, é uma religião de inclinação imperial. Ignorando totalmente a clássica separação ocidental - fundamentalmente cristã - entre "religião" e "política", os líderes religiosos islâmicos, desde Maomé, são também líderes políticos e militares. Eles buscam estabelecer um Estado islâmico (ou "califado") global, onde a sharia será imposta a todos os cidadãos do mundo, criminalizando no ato os pensamentos heréticos. Como não distingue entre as esferas pública e privada, entre a vida individual do espírito e a vida coletiva da política, a sharia é totalitária por natureza, perpassando todas as esferas da vida, até mesmo as mais íntimas, referentes a higiene pessoal, necessidades fisiológicas e práticas sexuais. Onde o Islã torna-se a religião oficial, toda violação à sua doutrina e preceitos é encarada não apenas como "pecado", mas como crime contra o Estado, este totalmente submetido - recorde-se que islã significa "submissão" - à lei corânica.

Mas, ainda assim, o professor da FGV diz que o fundamentalismo islâmico na França é um problema que os franceses "autóctones", não os muçulmanos, devem resolver. Pergunta-se, todavia: resolver como, se qualquer manifestação de apego à cultura francesa "tradicional" (inventada o quanto seja essa tradição) e qualquer apelo a que os muçulmanos sejam antes franceses que muçulmanos - tal qual o professor acredita já ser o caso - seriam logo tachados por "especialistas" (incluindo, provavelmente, o professor da FGV ele próprio) de xenofobia e extremismo de direita?

Em suma, quando se trata de desculpar o Islã e lançar sobre a Europa ocidental toda a culpa pelo terrorismo, é legítimo a um bem-pensante dizer que os muçulmanos da França são, antes de tudo, franceses. Mas, caso um patriota francês dissesse o mesmo (e Marine Le Pen disse-o outro dia), a saber, que os muçulmanos são (ou deveriam ser), antes de tudo, franceses, isso seria interpretado como xenofobia, ultranacionalismo, negação do multiculturalismo - em suma, islamofobia. Quando tudo vai bem, celebra-se o multiculturalismo e deslegitima-se o orgulho francês. Quando a coisa fica feia e o terror irrompe, é hora de abandonar o pacto multiculturalista e depositar o fardo nas costas dos franceses "puros". É nessa hora que entram em cena os "especialistas" e toda a conversa sobre islamofobia, repetida obsessivamente até o ponto de encobrir uma inquietante ISLAMOFILIA por parte de nossas elites intelectuais e políticas.

Com um raciocínio espantosamente idêntico ao do professor da FGV, como se seguissem ambos uma cartilha comum, o sociólogo francês Raphael Liogier decretou: "A questão não é o Islã, é a Europa" (ver aqui). "O desafio real não são os muçulmanos", ele insiste. "É o fato de estarmos em uma sociedade em que existe um orgulho narcisista de quem era o centro do mundo e perdeu a influência. Isso levou a debates sobre identidades na Europa." O sociólogo não esclarece por que, se a Europa já não é o centro do mundo, milhares de imigrantes continuam acorrendo para lá. E é assaz perturbador que ele se apresse em apontar o "orgulho narcisista" europeu como parte do "desafio real" que se nos apresenta, sem dizer uma palavra sequer sobre a suscetibilidade doentia que acomete muitos muçulmanos europeus diante de valores e costumes locais que contradigam as prescrições do Corão e da Sunna.

Mas será possível que a questão NUNCA seja o Islã? Será razoável que todos os intelectuais públicos mostrem-se unânimes em condenar a vítima pelos ataques? Como eu já mostrei em outro artigo, o mesmo padrão se repete desde o 11 de setembro de 2001, trocando-se apenas, no presente, os EUA pela Europa. 

Combina-se sempre uma curiosa islamofilia - "Deixem o Islã fora disso!" - com uma inclemente e acachapante crítica às sociedades européias. O sociólogo francês continua: "Essas pessoas se dizem os 'franceses reais', os 'alemães reais', os 'italianos reais' e se sentem ameaçadas pelo Islã. 'Multicultural' virou uma palavra ruim." 

É escusado insistir no fato de que aquelas pessoas - "que se dizem os 'franceses reais'" etc. - têm boas razões para temer o Islã, ainda que o simpático sociólogo as tome por doentes mentais. Mas é preciso perguntar, sobretudo, para quem, afinal de contas, "multicultural" virou uma palavra ruim. Ao afirmar solenemente que "a questão não é o Islã, é a Europa", o nosso intelectual pode estar fazendo tudo, menos lançando mão do paradigma multiculturalista. Antes pelo contrário, o que ele faz é operar uma cisão conceitual essencialista entre o Islã e a Europa "real". O seu pressuposto é que o Islã NÃO É PARTE da Europa "real", e que, portanto, os problemas europeus de identidade não dizem respeito ao Islã. 

Como eu expliquei anteriormente, trata-se aí de desprezar o multiculturalismo em favor do politicamente correto - islamofilia. Com um indisfarçável escárnio, o sociólogo condena o pretenso essencialismo daqueles europeus que se acreditam "puros", no exato instante em que ele próprio depura conceitualmente a "Europa". Quando se trata de fazer desta um bode-expiatório para os males do mundo, toda coerência será castigada. 

Os problemas europeus pertencem aos europeus, sugere o sociólogo. Mais um pouco e ele bradaria em alto e bom som: "A Europa é dos europeus!" - sendo, ato contínuo, erguido nos braços por simpatizantes de Jean-Marie Le Pen.

Para concluir, gostaria de destacar o importante discurso proferido pelo presidente egípcio Abdel Fatah al-Sisi em 1 de janeiro de 2015 - uma semana antes, portanto, do ataque ao Charlie Hebdo. Estranhamente, o discurso não foi noticiado na imprensa brasileira. 

Na exata contramão da intelligentsia ocidental, o líder da maior nação islâmica do Oriente Médio não põe a culpa do extremismo islâmico na "islamofobia", na "extrema-direita européia", no "imperialismo estado-unidense", e nem mesmo em Israel. Para ele, o Islã é, sim, parte do problema. Ao contrário do que parece sugerir o condescendente paternalismo de nossos bem-pensantes - ou "sábios mentecaptos", na feliz expressão de João Pereira Coutinho -, os muçulmanos não podem ser excluídos desse debate.

Lidas hoje, após os acontecimentos na França, as palavras de al-Sisi soam lugubremente proféticas: 

"É inconcebível que o pensamento que consideramos mais sagrado faça com que toda a umma [a comunidade islâmica mundial] seja uma fonte de angústia, perigo, morte e destruição para o resto do mundo. Impossível.


"Aquele pensamento - não estou dizendo 'religião', mas 'pensamento' -, aquele corpus de textos e idéias por nós sacralizados ao longo dos séculos, ao ponto de ser quase impossível deles nos afastarmos, está antagonizando o mundo inteiro. Está antagonizando o mundo inteiro.


"É possível que 1.6 bilhões de pessoas [muçulmanos] devam desejar eliminar o restante da população mundial - ou seja, 7 bilhões de pessoas - para que elas mesmas possam viver? Impossível (...)


"Tudo isso que estou lhes dizendo, vocês não perceberão se continuarem presos a esse jeito de pensar. Vocês precisam dar um passo para fora de si mesmos a fim de observá-lo e e refletir sobre isso de uma perspectiva mais esclarecedora.

"Eu digo e repito mais uma vez que precisamos de uma revolução religiosa. Vocês, imãs, são responsáveis diante de Alá. O mundo todo, repito, o mundo todo aguarda o seu próximo movimento... porque a umma está sendo destroçada, destruída, perdida - e todo isso por nossas próprias mãos."

O presidente egípcio não foi o único muçulmano a se manifestar nesse sentido. Ahmed Aboutaleb, por exemplo, prefeito de origem marroquina da cidade holandesa de Roterdã, dirigiu-se de maneira dura aos muçulmanos anti-ocidentais:

"É incompreensível que vocês se voltem contra a liberdade. Mas se vocês não gostam de liberdade, pelo amor de Deus, FAÇAM AS MALAS E VÃO EMBORA. Isso é estúpido, incompreensível. Se vocês não conseguem achar o seu lugar aqui, SUMAM DA HOLANDA." (ver aqui).

E o deputado dinamarquês Naser Khader, de origem síria, foi muito claro em reivindicar a responsabilidade primordial dos muçulmanos comuns no combate ao terror e ao extremismo. Khader ainda criticou a condescendência ocidental, que insiste em deixar o Islã fora da jogada:

"Não estou de acordo [com a alegação, feita por Obama e Hollande, de que os terroristas nada têm a ver com o Islã]. É também o Islã. Ao recusar reconhecê-lo, os ocidentais nos prestam um desserviço, a nós, muçulmanos democratas. Pois, como lutar sem identificar claramente o inimigo?" (ver aqui).

Haveria por aí algum sábio mentecapto disposto a acusar o presidente egípcio, o prefeito de Roterdã e o deputado dinamarquês, todos eles muçulmanos, de "islamofóbicos"?

Das Virtudes e Vícios do Ceticismo

Em maio de 2012, o autor destas linhas frequentava um curso preparatório para o difícil e concorrido concurso do Itamaraty. Faziam três...